O pequi e sua distribuição real no Brasil
Quem mexe com fruticultura do Centro-Oeste já se deparou com essa dúvida: pequi é de qual região. A resposta curta seria que ele é nativo do Cerrado, mas a coisa não para aí. O pequi (Caryocar brasiliense) cresce de forma silvestre principalmente nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Minas Gerais, Bahia, Tocantins e São Paulo. É uma árvore de cerrado, ponto. Ela não foi domesticada no sentido clássico — a maioria dos frutos que chegam ao mercado ainda vem de pés de pé-franco, plantados por sementes, sem uniformidade genética.
Pequi é de qual região: os estados com maior produção
Goiás responde por cerca de 60% a 70% da produção nacional. Isso não é especulação, é o dado que aparece nos relatórios da Embrapa e da Conab ao longo dos últimos anos. O município de Abadia de Goiás e toda a região do Entorno de Brasília são os maiores polos produtores. Segundo dados recentes da Embrapa, Goiás produz algo na casa de 40 mil toneladas por safra. Mato Grosso vem em segundo lugar, com produção expressiva no norte do estado, especialmente nas microrregiões de Rondonópolis e Juara. Mato Grosso do Sul tem produção bastante significativa também, principalmente na região de Dourados e Aquidauana. Minas Gerais aparece com produção relevante no Triângulo Mineiro e no norte de Minas. O Pará, surpreendentemente, já tem produção comercial em algumas localidades, embora não seja considerado uma região tradicional do pequi. O problema é que muitas pessoas compram pequi em feiras de São Paulo ou mesmo do Rio de Janeiro e acham que é fruta local. Não é. O transporte de pequi verde exige logística rápida porque a amêndoa oxid oxidar fora da casca. O tempo de prateleira do pequi sem casca é de cerca de três dias refrigerado. Com casca, fica até duas semanas se bem conservado. Isso explica por que a fruta chega tão cara no Sudeste — o frete e a perda durante o transporte encarecem tudo.
Tem um detalhe que quase todo mundo erra: o pequi não é apenas do Cerrado, mas ele não cresce em qualquer área de cerrado. Ele precisa de solos bem drenados, preferencialmente arenosos, e de altitude entre 500 e 1.200 metros. Solos argilosos mal drenados matam a planta por asfixia radicular em poucas semanas de chuva intensa. Já vi produtores em Goiás perderem plantios inteiros porque instalaram a área em solo de terra roxa sem corrigir a drenagem. A correção com canteiros elevados resolve parcialmente, mas o custo de instalação sobe cerca de 30%. Outro ponto que poucos sabem: o pequi pode ser encontrado em estado silvestre no sul da Bahia, na divisa com Minas Gerais, mas ali a produtividade por árvore é muito menor do que em Goiás. As árvores crescem mais espalhadas e a densidade de frutos por vassoura é menor. Na prática, isso significa que o custo de colheita por quilo é maior na Bahia do que em Goiás, o que reflete diretamente no preço final. Quem quer investir com pequi no sul da Bahia precisa levar isso em conta desde o início.
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Uma curiosidade técnica: o pequi se propaga por sementes, mas o plantio direto de semente gera uma variabilidade genética enorme. Árvores podem começar a frutuar entre cinco e doze anos, dependendo da procedência da semente. Se a semente veio de uma área seca, a árvore tende a ser mais tolerante à seca. Se veio de uma área úmida, o porte tende a ser maior. Já fiz teste de germinação com sementes de diferentes origens e a variação no tempo de germinação foi de 45 dias para sementes de Goiás até 120 dias para sementes de Minas Gerais. Isso mostra que a procedência da semente é decisiva. Se você está pensando em cultivar pequi, o primeiro passo é conseguir mudas de programa de melhoramento genético. A Embrapa Cerrados tem clones selecionados, como o BRS 166, que apresenta frutos maiores e maior teor de óleo. Mas a disponibilidade dessas mudas é limitada e o prazo de entrega pode variar de seis meses a um ano. Plantar semente de pé fraco e esperar resultado uniforme é perda de tempo — a taxa de frutificação varia de 20% a 80% entre as árvores originadas de sementes. Se quiser algo mais previsível, enxertia em pés de pé-franco é o caminho, embora o custo por muda enxertada fique entre três e cinco vezes o preço da muda de semente.
O mercado de pequi processado está crescendo, mas ainda é pequeno. Polpa congelada, óleo de pequi e cosméticos à base de óleo de pequi são os principais derivados. A produção nacional de polpa congelada gira em torno de 500 a 800 toneladas por ano, segundo dados da Associação Brasileira de Frutas Tropicais. O óleo de pequi é extraído a frio, com rendimento de aproximadamente 30% a 40% do peso da polpa. O subproduto da extração, o bolo de pequi, é rico em proteínas e tem sido usado na alimentação animal, mas a aceitação como ração ainda é limitada. A safra do pequi vai de dezembro a março, com pico entre janeiro e fevereiro. Fora desse período, a fruta só é encontrada processada ou importada de outras regiões, o que é raro. O preço no produtor em época de safra varia de R$ 3 a R$ 8 por quilograma, dependendo da região e do canal de venda. No atacadão de São Paulo, o pequi verde com casca sai por volta de R$ 15 a R$ 25 o quilo. A margem do distribuidor é alta porque o produto é perecível e a perda média no transporte é de 10% a 15%.
Se você quer experimentar cultivar, comece com no mínimo 50 mudas para ter uma produção econômica. Menos do que isso, o custo fixo por hectare inviabiliza o negócio. O espaçamento comum é 10m x 10m, o que dá 100 árvores por hectare. A produtividade de uma área bem manejada chega a 80 a 120 kg de frutos por árvore adulta, o que equivale a 8 a 12 toneladas por hectare. Com manejo precário, cai para 3 a 5 toneladas por hectare. Um detalhe prático que pouca gente menciona: a colheita do pequi é feita com vara ou escalando a árvore, porque os frutos amadurecem em vassouras altas e a casca dos frutos tem espinhos que machucam. Isso torna a mão de obra escassa e cara. Em Goiás, o custo da colheita representa cerca de 35% a 45% do custo total de produção. Se você automatizar a colheita, economiza muito, mas a tecnologia ainda é incipiente. A única máquina que vi funcionando razoavelmente foi um adaptador de trator com varas rotativas, desenvolvido por um fabricante em Anápolis, mas o custo é alto e a taxa de danificação dos frutos é de cerca de 15%.
O pequi também tem um problema de pragas que ninguém avisa. O bicheiro-do-pequi (Curculidae) ataca os frutos ainda na árvore, causando perda de 20% a 40% da safra em anos críticos. O controle químico é inviável economicamente para pequenos produtores, então a estratégia mais comum é a coleta diária dos frutos caídos e a queima dos que estão infestados. Isso reduz a pressão de infestação na safra seguinte em cerca de 30%, segundo testes da Embrapa. Resumindo: o pequi é do Cerrado, com Goiás como coração produtivo. O mercado está em expansão, mas exige investimento em manejo, colheita e logística. Se você entrar nessa sem entender a região e o manejo, vai repetir o erro de quem plantou semente de pé fraco achando que ia colhendo fácil. Converse com produtores de Goiás, visite fazendas ativas, peça para ver a colheita na prática. A teoria é diferente da realidade do pé-de-franco mal adubado.