Plutão Ainda É Planeta - (PDF) Plutão ainda é um planeta? | Saraiva Conteúdo
(PDF) Plutão ainda é um planeta? | Saraiva Conteúdo

O debate continua mesmo após 2006

A decisão da União Astronômica Internacional em 2006 de reclassificar Plutão como um planeta anão não resolveu nada. Pelo contrário, criou uma divisão que só cresceu. Alguns astrônomos aceitaram, outros nunca aceitaram, e o público em geral simplesmente se recusou a acreditar. A questão não é mais sobre dados — é sobre autoridade científica e tradição cultural.

plutão ainda é planeta: argumentos que resistem

Quem defende que Plutão permanece como planeta não está necessariamente ignorando a definição atual. O problema é que a definição da IAU de 2006 foi rejeitada por boa parte da comunidade planetária. Um dos nomes que propôs essa definição, Alan Stern, diretor da missão New Horizons da NASA, simplesmente recusou-se a aceitá-la e publicou suas razões abertamente. Isso é incomum em ciência. Geralmente as pessoas seguem a votação e encerram o assunto. Ele não seguiu. A posição alternativa sostiene que um planeta deve ser definido por sua própria natureza, não pelo contexto orbital. Se um corpo é esférico por gravidade própria, tem atmosfera, geologia ativa e órbita conhecida, ele é um planeta. Ponto. A condição de "limpar a vizinhança orbital", que aparece na definição oficial, faz sentido para o Sistema Solar interno. Nos Beltos de Kuiper, os corpos estão tão espalhados que "limpar a vizinhança" seria uma exigência irrealista para qualquer objeto ali presente.

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Eu trabalhei com dados orbitais de objetos transnetunianos durante alguns anos, e já vi o quanto a nomenclatura oficial complica a comunicação prática. Quando você fala "planeta anão", todo mundo entende. Mas quando você tenta explicar para estudantes ou para públicos leigos que Plutão foi despedido do status de planeta e agora é apenas "um tipo especial de rocha gelada", percebe que a linha entre educação e manipulador lingüística é fina demais. A definição da IAU foi apresentada como um esclarecimento técnico, mas soou como uma demissão para a maioria das pessoas. Existe também o aspecto histórico. Plutão foi descoberto em 1930 por Clyde Tombaugh. Durante quase setenta e cinco anos, ele foi o nono planeta do sistema solar. Livros didáticos, mapas celestes, e a memória de gerações inteiras de pessoas o tratavam como planeta. Uma decisão tomada por menos de mil astrônomos presentes em uma convenção, com quórum baixo e votos apertados, não apaga isso. A cultura científica não é construída apenas sobre consenso formal.

O New Horizons passou por Plutão em julho de 2015 e mostrou um mundo surpreendentemente ativo. Montanhas de gelo de água, possível oceano subsuperficial, plumas criovulcânicas, um coração de nitrogênio gelado chamado Tombaugh Regio. A missão foi batizada justamente para estudar Plutão como um mundo, não como um simples asteroide ou cometa. Os dados coletados reforçam a ideia de que Plutão merece a classificação de planeta no sentido mais intuitivo do termo. Hoje, organizações como a NASA e a maioria dos manuais astronômicos modernos tratam Plutão como um dos grandes mundos do sistema solar, independentemente da nomenclatura técnica. A própria NASA frequentemente se refere a Plutão simplesmente como "Plutão" nas comunicações públicas, sem o adjetivo "anão", o que sugere que a divisão oficial é mais política do que prática dentro das agênciasespaciais.

Se Plutão fosse encontrado hoje, sem o histórico de décadas de observação, ninguém duvidaria de classificá-lo como planeta. O fato de ele estar no cinturão de Kuiper e compartilhar órbita com outros objetos semelhantes é um argumento fraco quando se considera que Netuno também compartilha o espaço com troianos, e Júpiter com eles também. A diferença de tamanho entre Plutão e a Lua é pequena. A Lua é um satélite; Plutão poderia muito bem ter seu próprio sistema de luas e ser um planeta independente se estivesse mais próximo do Sol. Posição não define natureza. O que eu recomendaria para quem quer entender melhor essa discussão é começar lendo os artigos originais da definição de 2006 e as críticas subsequentes de Stern e outros. A ciência raramente é definitiva. Ela é um processo contínuo de questionamento. E Plutão segue sendo um dos objetos mais fascinantes que já estudamos, seja qual for o rótulo que coloquemos nele.