Pode Ser Nominal Ou Verbal - Concordância Verbal e Nominal - Material prático.pptx
Concordância Verbal e Nominal - Material prático.pptx

Como identificar quando uma forma verbal funciona como substantivo ou como verbo

Você provavelmente já viu isso acontecer e nem percebeu. O infinito impessoal, o gerúndio, o particípio — formas que parecem verbos mas em certa posição na frase se comportam como substantivos. Isso não é bug de português. É regra. E confunde muita gente porque a gramática tradicional explica isso de forma solta, como se todo mundo visse os mesmos exemplos. A chave é olhar para a função sintática, não para a forma morfológica. O morfema diz que é uma forma nominal do verbo. Mas a função na oração é que decide se ele atua nominalmente ou verbalmente. Vou explicar pelo caminho inverso do que os manuais costumam fazer: primeiro o teste prático, depois a definição.

Quando pode ser nominal ou verbal

O teste é simples. Tente colocar um artigo, um adjetivo ou um numeral antes da forma em questão. Se funcionar sem soar absurdo, a função é nominal. Se não funcionar, ou se o artigo soar completamente fora do lugar, a função é verbal. Vamos aos exemplos. "O fumar precoce causa problemas pulmonares." Aqui, "fumar" está precedido por artigo e modificado por adjetivo. Função nominal. Sujeito da oração. Agora compare com "Ele começou a fumar tarde." "A fumar" não leva artigo. "Tarde" é adjunto adverbial de tempo, não adjunto adnominal. "Fumar" aqui é verbo no infinitivo impessoal, função verbal.

Esse teste resolve uns 80 por cento dos casos. Os outros 20 são onde a coisa fica interessante. O gerúndio é especialmente traiçoeiro. "As crianças ficaram brincando na sala o dia todo." "Brincando" tem artigo? Não. Tem adjetivo? Não dá pra colocar facilmente. Função verbal, adjunto adverbial de modo ou estado. Agora: "A brincando das crianças chamou a atenção." Isso soa errado justamente porque o gerúndio, quando tenta exercer função nominal, precisa de reforço — artigo, plural, contexto. "A brincadeira das crianças" é o correto. O gerúndio sozinho não vira substantivo naturalmente.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

O particípio é outro campo minado. "Os trabalhos concluídos foram aprovados." "Concluídos" funciona como adjetivo, mas é um particípio com função adjetival, que é uma zona cinzenta entre nominal e verbal. Se você trocar por "que foram concluídos", a função verbal aparece. Se manter "concluídos" alone, a função nominal-adjetival domina. A fronteira é tênue e depende do verbo. "Escrever — escrito" funciona bem como nominal. "Ledo — lido" também. Mas "abrir — aberto" já trava mais fácil em certas construções. Aqui vai algo que poucos manuais destacam: o infinitivo flexionado. "Importa que os candidatos se apresentem cedo." "Apresentem" é verbo, claramente. Mas "A apresentação dos candidatos cedo importa." Aqui o substantivo "apresentação" substitui a forma verbal. O infinitivo flexionado nunca exerce função estritamente nominal. Ele é sempre verbal, mesmo quando parece substituível por um substantivo. Isso mata a ideia de que infinitivo flexionado = nome verbal. Não é. É verbo com flexão de pessoa.

Outro ponto que causa confusão recorrente: a preposição obrigatória antes do infinitivo. "Preciso de estudar mais." Errado. O verbo "precisar" exige preposição quando é transitivo indireto, mas o infinitivo que segue funciona como complemento verbal, não como nominal. A preposição não transforma o infinitivo em substantivo. Ela marca regência. "Estou pensando em viajar." "Em viajar" é complemento preposicionado do verbo "pensar". "Viajar" continua verbal. Já em "Penso que a viagem é importante", "viagem" é substantivo puro, função nominal plena. Citei antes um caso específico que me pegou recentemente num processo de revisão textual. Tinham escrito algo como "A realização dos testes realizados pelo setor foi concluída." O problema não era só a redundância — "realização" e "realizados" competindo no mesmo segmento. O problema real era funcional. "Realização" aqui poderia ser nominal (substantivo derivado) ou verbal (infinitivo substantivado). Dependia do contexto anterior do texto. Se o parágrafo todo tratava de ações, "realização" era forma nominal do verbo realizar, com função de sujeito. Se tratava de eventos ou documentos, era substantivo comum. Eu resolvi trocando para "A execução dos testes" quando o sentido era procedural, e para "Os testes realizados" quando o foco era o resultado. A escolha dependia de quê o texto estava falando, não de regras isoladas.

Existe um limite claro pra esse sistema de teste. Palavras como "dever", "poder", "querer" quando usadas como substantivos ("Meu dever é grande", "Teu poder é limitado") não passam no teste do artigo sozinhas, porque já são substantivos lexicalizados. O contexto é que decide. Você não testa "o dever" — você reconhece que "dever" já entrou no vocabulário como nome. O teste funciona para formas verbais ainda em transição, não para lexicalização completa. Outra armadilha comum é confundir orações subordinadas substantivas com funções nominais de formas nominais do verbo. "É necessário que venhas" tem oração subordinada substantiva subjetiva. "É necessário a tua vinda" tem "vinda" como substantivo derivado, função nominal. Diferente. Um é oração. O outro é termo da oração. A confusão aparece quando se tenta reduzir "que venhas" a "vinda" e se pensa que são equivalentes funcionais. São semanticamente próximos, mas sintaticamente distintos.

Se você quer praticar sem gastar tempo analisando exemplo por exemplo, o caminho mais direto é pegar textos de leis, relatórios técnicos e manuais — gêneros onde a densidade nominal é alta e a ambiguidade funcional é frequente. Leis usam muito o infinitivoimpessoal com função nominal disfarçada. "Caberal Autoridade competente decidir..." — "decidir" parece verbo, mas na estrutura normativa funciona quase como substantivo abstrato. A análise tradicional chama isso de infinitivo com valor de substantivo. Na prática, é infinitivo com função sintática nominal em contexto de norma. Não há outro jeito de ver além de testar com artigo e adjetivo mesmo nesses casos. Resumo prático sem dramatização: identifique a forma, aplique o teste do artigo, verifique a regência, considere o contexto lexical. Se ainda houver dúvida, substitua por um substantivo equivalente e veja se a estrutura aguenta. Se aguentar, a função era nominal. Se travar, era verbal. O resto é detalhe.