Podemos Dizer Que As Atuais Alterações Das Paisagens São Cataclismos - COP29: o que é, quais as causas e como a mudança climática afeta o ...
COP29: o que é, quais as causas e como a mudança climática afeta o ...

Transformações na paisagem: quando o horizonte deixa de ser familiar

Vi coisas mudarem nos últimos vinte anos que pareciam impossíveis na minha adolescência. Cresci numa região onde o relevo e a vegetação pareciam fixos, algo que pertencia a uma escala de tempo muito mais longa que a vida humana. Hoje olho para aquele mesmo horizonte e reconheço que estamos diante de alterações estruturais profundas, muitas vezes irreversíveis dentro da escala temporal humana.

Podemos dizer que as atuais alterações das paisagens são cataclismos?

A resposta curta é que depende do que entendemos por catástrofe. Se pensarmos num evento súbito, como um vulcão que destrói uma vila inteira em horas, então não, a maioria das mudanças atuais é gradual. Mas se considerarmos o impacto cumulativo, a perda de biodiversidade, a desertificação e a alteração dos regimes hídricos, aí a palavra catástrofe parece adequada. Não é um cataclismo único, é uma sucessão de pequenos desastres que se acumulam. Trabalho com mapeamento de uso do solo há mais de uma década. Num projeto no interior de São Paulo, acompanhei a substituição de mata atlântica por soja e eucalipto durante cinco anos consecutivos. O que era visível de carro começava a aparecer em fotos de satélite com apenas três meses de diferença. As nascentes de água, que eram abundantes na época em que a vegetação nativa existia, secaram completamente. Isso é catástrofe? A população local chama de seca. Eu chamo de catástrofe ambiental.

O problema é que esses processos acontecem lentamente demais para que o cérebro humano os perceba como emergência. Comparamos o presente com a memória pessoal, não com os dados históricos completos. Uma floresta que leva cem anos para crescer pode ser derrubada em um dia. Uma nascente que leva séculos para se formar desaparece em meses. A paisagem que vimos na infância já não existe mais, mas insistimos em tratá-la como normal.

O que está mudando nas nossas paisagens

As alterações mais visíveis são a urbanização desordenada, o avanço da agricultura sobre ecossistemas naturais, a fragmentação de habitats e a alteração dos cursos d'água. No Brasil, o cerrado está sendo convertido em terras agrícolas a uma taxa que preocupa especialistas. A faixa de transição entre o cerrado e a Amazônia, conhecida como ecótono, está sendo devastada e ninguém presta atenção suficiente a isso. Outro aspecto importante é a mudança climática. O regime de chuvas está se alterando em várias regiões. Onde antes chovia regularmente durante certo período do ano, agora temos enchentes seguidas de longos períodos de seca. Isso afeta diretamente a paisagem. Rios que antes fluíam o ano inteiro estão secando. Áreas que eram úmidas estão virando pastagens secas. A vegetação adapta-se, mas em muitos casos a velocidade da mudança supera a capacidade de resiliência dos ecossistemas.

Tem também a questão dos incêndios. Nos últimos anos, vi paisagens queimarem de forma que nunca tinha visto antes. Incêndios que passaram pelo chão da floresta e mataram árvores adultas. Incêndios que consumiram matéria orgânica suficiente para esterilizar o solo por décadas. Depois da chuva, o que brota não é a mesma vegetação. É algo mais raso, mais diverso apenas em espécies invasoras, menos complexo.

Como detectar essas mudanças na prática

Uma coisa que aprendi é que a melhor forma de perceber a transformação é comparar fotos antigas com o presente. Existem aplicativos que mostram imagens de satélite em diferentes épocas. Google Earth permite ver o progresso de uma área ao longo de anos. Se você tem uma propriedade rural ou mora perto de uma reserva, vale a pena usar essa ferramenta para entender o que está acontecendo nos arredores. Outro método é observar a fauna e a flora. O desaparecimento de determinadas espécies de aves ou insetos indica alteração ambiental. A presença de espécies exóticas ou invasoras sugere que o ecossistema está se equilibrando de outra forma. Plantas que antes eram comuns estão sumindo. Animais que antes transitavam livremente by now estão confinados a fragmentos florestais isolados.

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Há também a questão da água. O nível dos poços artesianos, a vazão dos rios, a umidade do solo. Se um poço que antes fornecia água abundantemente começa a falhar, isso é um sinal claro de alteração no ciclo hidrológico local. Não precisa de equipamento sofisticado para perceber. Basta registrar periodicamente e comparar.

As consequências que muita gente ignora

A perda de serviços ecossistêmicos é o conceito que resume tudo. Florestas filtram água, estabilizam solos, regulam o clima local, abrigam polinizadores. Quando a paisagem muda, esses serviços diminuem ou desaparecem. A agricultura precisa de mais irrigação porque a floresta que antes mantinha a umidade do ar foi removida. O solo precisa de mais fertilizante porque a mata que antes reciclava nutrientes sumiu. As enchentes aumentam porque não há mais vegetação para absorver o excesso de chuva. Um ponto que as pessoas não consideram é a perda de referencial. Nós nos baseamos na paisagem para tomar decisões. Sabemos onde construir porque já vemos como o terreno se comporta. Sabemos quando plantar porque observamos os sinais naturais. Quando a paisagem muda radicalmente, perdemos esse repertório. As práticas agrícolas tradicionais deixam de funcionar. Os calendários ecológicos se desorganizam. E a sociedade não está preparada para lidar com essa desorientação.

O que fazer quando a paisagem já mudou

A restauração ecológica é uma opção, mas exige tempo e recursos. Em áreas onde a degradação ainda não ultrapassou certo ponto de non-return, a regeneração natural pode recuperar parte da vegetação original se for protegida. Cercar uma área, eliminar o gado, controlar focos de incêndio. Em cinco a dez anos, você vê diferença. Mas isso funciona só enquanto houver sementes no solo ou propágulos nas proximidades. Se a fonte de regeneração foi destruída, precisa semear ou plantar. Em casos mais graves, como desertificação avançada ou solo compactado por uso intensivo, a restauração natural não basta. Precisa de intervenção técnica. Melhoramento do solo, plantio de espécies pioneiras, manejo hídrico. É um processo caro e lento, mas existem técnicas consolidadas. O problema é que poucas pessoas e instituições têm interesse em investir nisso a longo prazo.

Também é possível adaptar-se à nova realidade. Não adianta chorar a paisagem que tivemos. O que faz sentido é entender como a paisagem atual funciona e agir de acordo. Se o rio secou, aprender a captar água de outra forma. Se a chuva mudou de época, ajustar o calendário de plantio. Se certain species desapareceram, aceitar que o ecossistema se reorganizou de outro jeito e trabalhar com o que resta.

Um exemplo concreto que vivi

Em 2018, fiz um levantamento em uma propriedade no Triângulo Mineiro. A família havia se mudado para a cidade dez anos antes porque a água estava escassa. O poço artesiano tinha sido perfurado na década de 1990 e fornecia abundância. Em 2018, secou completamente. Ao analisar fotos de satélite, percebi que a mata ciliar ao redor do rio havia sido eliminada para ampliação da lavoura. O rio, que antes era perene, passou a ter fluxo intermitente. As nascentes que alimentavam o poço tinham desaparecido. A solução não foi fácil. Não adiantava perfurar outro poço mais fundo porque o aquífero também estava comprometido. O que fizemos foi recomendar o plantio de vegetação ripária ao longo do curso d'água, a construção de cisternas para captação de água da chuva e a adoção de sistemas de irrigação mais eficientes. Em três anos, a vegetação começou a se recuperar. O fluxo de água melhorou. Mas isso exigiu investimento financeiro e mudança de mentalidade da família. A maior barreira não era técnica, era psicológica. As pessoas insistem em tratar a paisagem como algo fixo, quando na verdade é dinâmica.

Conclusões que não quero dar

Não vou dizer que tudo está perdido, nem que ainda dá para voltar atrás facilmente. A realidade é mais complicateda. Algumas paisagens podem se recuperar. Outras não. O importante é entender o que está acontecendo e agir com base nessa compreensão, não na nostalgia. A paisagem que vimos na infância já foi. O que resta é o presente, e ele pode ser pior ou melhor dependendo do que fizermos agora. Se você quer acompanhar essas mudanças, comece observando. Tire fotos periódicas do mesmo ponto de vista. Registre o nível da água, a presença de animais, o estado da vegetação. Dados simples, coletados com constância, valem mais do que opiniões genéricas sobre o meio ambiente. E se puder contribuir para a preservação ou restauração de alguma área, faça. Não por esperança romantizada, mas porque é o que resta de responsabilidade prática.