O que realmente conta quando você lê um artigo
A maioria das pessoas pega qualquer artigo e começa a ler do início ao fim como se fosse um romance. Isso dá trabalho desnecessário. O primeiro ponto que precisa ser identificado é o objetivo. Sem isso, o resto vira perda de tempo. Quando eu estava fazendo mestrado, gastava pelo menos 40 minutos por artigo tentando entender o que o autor queria responder. Depois aprendi que dava para reduzir esse tempo para cerca de 5 minutos apenas lendo a introdução finalizada, a metodologia e o parágrafo de conclusão. O problema é que muitos artigos não deixam isso óbvio.
Podemos identificar como um dos objetivos de um artigo científico na estrutura tradicional
O objetivo geralmente aparece em três lugares. O primeiro é o último parágrafo da introdução, onde o autor costuma escrever algo como "este estudo visa..." ou "o objetivo principal é...". O segundo é o resumo, nas duas ou três últimas frases. O terceiro é a tabela de estrutura do artigo em si, que alguns periódicos exigem. Mas aqui está o detalhe que os iniciantes sempre perdem: o objetivo declarado não é necessariamente o objetivo real. Já encontrei artigos onde a promessa inicial era analisar o comportamento de X em condições naturais, e no método na prática eles usaram dados secundários de uma base governamental com décadas de defasagem. O leitor desatento assume que o objetivo é o que está no texto. A realidade é outra.
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Para contornar isso, eu sempre cruzo três fontes. Primeiro leio o objetivo declarado. Depois verifico o método passo a passo. Por fim, comparo com os resultados apresentados. Se houver divergência entre o que foi prometido e o que foi feito, o artigo tem um problema estrutural que precisa ser anotado. Esse processo me leva cerca de 8 minutos em média. Outra armadilha comum são os artigos de revisão sistemática. Neles, o "objetivo" é muitas vezes uma busca ampla demais. Eu já vi revisão com pergunta PICO mal definida que acabou incluindo 200 estudos sem critério de exclusão claro. Nesses casos, o objetivo funciona mais como uma intenção do que como uma delimitação real. Recomendo nesses momentos ignorar o resumo e ir direto para os critérios de elegibilidade no método.
Quando você está selecionando literatura para uma revisão ou para montar um estado da arte, usar esses três pontos de verificação evita que você gaste horas com artigos que na verdade não respondem à pergunta que você precisa. Isso economiza tempo e evita viés de confirmação, porque você para de levar o que o autor diz como verdade absoluta e passa a avaliar o que ele realmente fez.