O jeito certo de escrever: por ventura ou porventura
Essa dúvida aparece com frequência em revisões de texto, principalmente quando o conteúdo é formal. A resposta curta é que as duas formas existem, mas têm usos diferentes. Por ventura (separado) é uma locução adverbial que significa "acaso", "talvez", "porventura". Já porventura (junto) também é uma forma aceita e equivalente, presente no vocabulário padrão há bastante tempo.
Diferença prática entre por ventura ou porventura
Não há diferença de significado entre as duas grafias quando usadas como advérbio de dúvida. Ambas podem substituir "acaso" ou "talvez" na frase. A variação é mais de preferência estilística do que de regra rígida. Textos mais formais e jornalísticos tendem a usar a forma junta, porventura. Textos que buscam um tom mais coloquial ou que dão ênfase à ideia de "por ocasião de" podem preferir a forma separada. O que acontece na prática é que muitos revisores marcam "porventura" como erro e corrigem para "por ventura", ou vice-versa, sem fundamento. Isso gera confusão. Ambos estão corretos. O problema real aparece quando alguém tenta justificar uma escolha com base no que o dicionário diz, e os dicionários nem sempre são unânimes.
No meu caso, revisei um manuscrito há alguns anos em que o autor usava "porventura" em quase todas as ocorrências, e o revisor anterior havia marcado tudo como erro, substituindo por "por ventura". O resultado era um texto com repetição cansativa porque a forma separada quebrava o ritmo em frases longas. A solução foi manter "porventura" onde o autor havia usado e apenas ajustar os trechos em que a locução separada realmente fazia sentido sintático, como quando vinha acompanhada de preposição posterior.
Como decidir na hora de escrever
A regra prática que uso é a seguinte. Se a palavra funciona como advérbio de dúvida no meio da frase, pode usar qualquer uma das duas formas. Exemplo: "Você saberia, porventura, o horário da reunião?" ou "Você saberia, por ventura, o horário da reunião?" — ambas corretas. A forma junta tende a soar um pouco mais integrada ao fluxo da frase. A forma separada dá mais pausa e ênfase. Quando se trata de construção específica com valor temporal ou condicional, como "porventura de", aí a forma separada é mais natural. Exemplo: "Porventura de uma chance inesperada, ele aceitou o convite." Nesse caso, a forma junta soa estranha porque a locução prepositiva exige os componentes separados.
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O que pouca gente considera é o efeito sonoro. "Porventura" junto tem três sílabas tónicas que fluem diferente de "por ven-tu-ra" separado. Em textos literários, essa nuance pode fazer diferença na leitura em voz alta. Em textos técnicos, não faz diferença nenhuma.
Pegadinhas que merecem atenção
Existe um caso em que a confusão realmente gera erro: quando se confunde com a expressão "ao acaso" ou "quem sabe". Nenhuma das duas formas de "porventura" serve como sinônimo direto de "quem sabe" em todos os contextos. "Porventura" carrega um registro mais formal. Usá-lo em uma conversa do dia a dia soa artificial, independente da grafia. Outro ponto: a forma junta, porventura, às vezes é confundida com substantivo abstrato em textos antigos. Em português medieval e quinhentista, "porventura" já aparecia como forma lexikalizada. Não há motivo para tratar como inovação contemporânea. Está no Houaiss, no Michaelis, na versão online do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL.
Se você precisa de uma resposta definitiva para um trabalho acadêmico ou publicação formal, o caminho mais seguro é consultar o dicionário de referência da sua instituição. Alguns comitês editoriais ainda seguem critérios mais restritivos. Eu já vi editores exigirem a forma separada simplesmente porque o manual de estilo da casa manda assim, mesmo sem base normativa. Nesse cenário, seguir a norma interna resolve o impasse, mesmo que linguisticamente ambas sejam aceitas.
Resumo para usar como consulta rápida
Ambas as formas, por ventura e porventura, são corretas como advérbio de dúvida. A escolha depende do registro desejado e do contexto sintático. Use a forma separada quando houver necessidade de ênfase ou quando a estrutura exigir a locução prepositiva. Use a forma junta para fluidez textual e em registros mais formais. Evite substituir arbitrariamente uma pela outra sem analisar a frase completa. E, principalmente, não trate nenhuma das duas como erro gramatical — isso não é questão de certo ou errado, é questão de registero e preferência estilística.