Entendendo o potencial de ação cardíaco na prática
A maioria dos cursos de fisiologia ensina o potencial de ação cardíaco como um esquema de cinco fases bonitinhas no quadro. Na realidade, quando você vai analisar traçados ou modelar isso em simulação, a coisa é bem mais suja. O mioquítono ventricular tem uma fase 2 (platô) que dura cerca de 200 a 300 ms — isso é absurdamente mais longo que o neurônio, que disparo leva menos de 1 ms. Essa diferença existe por um motivo funcional claro: o coração precisa permanecer contraído tempo suficiente para ejectar o sangue. Se o potencial de ação fosse curto como o de um axônio, o músculo cardíaco entraria em tetanismo e você morreria em minutos. O que as pessoas costumam errar é achar que as cinco fases são compartimentos estanques. Elas se sobrepõem. A entrada de cálcio pela corrente L-type (I_CaL) começa ainda na fase 0 e continua durante todo o platô. O canal Kir1.1 (IK1) já está parcialmente aberto antes mesmo do disparo. A cinética dos canais não espera a fase anterior terminar para começar a agir.
potencial de ação cardiaco: fases e correntes iônicas
Fase 0 — despolarização rápida. Os canais de sódio voltage-dependent (Nav1.5) se abrem. O limiar fica por volta de -70 mV. A velocidade de subida (dV/dt máximo) em miócitos ventriculares saudáveis chega a 200-300 V/s. Isso é o que determina a condução intraventricular. Se Nav1.5 estiver comprometido — e muitas drogas antiarrítmicas de classe I fazem exatamente isso — a fase 0 desacelera e a condução pode bloquear. Fase 1 — repolarização inicial. Canal de potássio transitório outward (I_to) abre e fecha rápido. O cálcio ainda está entrando, mas o K+ saindo cria aquela pequena denteada logo após o pico. A amplitude da fase 1 varia muito entre espécies e entre camadas do miocárdio — epicárdio tem I_to forte, endocárdio quase não tem. Isso importa porque afeta a duração do platô.
Fase 2 — platô. Aqui é onde a coisa fica interessante. I_CaL (canais L-type de cálcio, Cav1.2) mantém a membrana despolarizada enquanto IKr e IKs (correntes de potássio retardadas) começam a abrir lentamente. É um equilíbrio frágil entre entrada de cálcio e saída de potássio. Qualquer desbalanceamento aqui altera o QT no ECG diretamente. Bloqueadores de IKr como dofetilida e sotalol alongam o platô. Em excesso, provocam taquicardia ventricular do tipo torsades de pointes. Fase 3 — repolarização final. I_CaL se inativa. IKr, IKs e IK1 (corrente de retificação inward, o canal Kir2.x) dominam. O potássio sai massivamente e o potencial volta ao nível de repouso por volta de -85 mV. O tempo dessa fase determina a duração total do potencial de ação, e consequentemente o intervalo QT.
Fase 4 — potencial de repouso. Manter -85 mV depende crucialmente da bomba Na+/K+ ATPase e do trocador Na+/Ca2+ (NCX). A de K+ extracelular é o fator mais crítico. Hipercalemia de 6 mM já reduz o gradiente e despolariza levemente o repouso, o que em estado misto inativa parte dos canais Nav e pode causar bloqueio de condução. O que ninguém conta nos resumos é que células do nó sinusal e do feixe de His funcionam de maneira completamente diferente. Elas não têm fase 4 estável — o "pacemaker current" (If, mediado porHCN4) despolariza a membrana gradualmente até o limiar. E a fase 0 nelas é mediated por cálcio, não por sódio. Se você aplicar a lógica do miócito ventricular nas células marcapasso, chega a conclusões totalmente erradas.
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Um problema que encontrei recentemente e que me pegou de surpresa: ao implementar um modelo de Hodgkin-Huxley modificado para miócitos (tipo Luo-Rudy), a simulação entrava em instabilidade numérica sempre que a concentração intracelular de cálcio ([Ca2+]i) ultrapassava 1 µM nos primeiros 50 ciclos. O código simplesmente explodia. O problema não era o modelo em si — era o passo de integração. Estava usando dt=0.01 ms, que parece mas é grande demais para a cinética ultra-rápida do NCX e dos buffers de cálcio nessa faixa de concentração. Mudei para dt=0.001 ms e adicionei um limite superior de [Ca2+]i de 2 µM com saturação suave. A simulação estabilizou após o ciclo 12 e ficou estável por milhares de batidas desde então. Se você estiver rodando simulações parecidas, não ignore o passo de integração — 0.01 ms é o padrão em muitos tutoriais online e é perigosamente grande para modelos com dinâmica de cálcio detalhada.
Pitfalls comuns e limitações
O modelo de Luo-Rudy original (1991) foi calibrado para células de ventrículo de cobaia, não de humano. Versões posteriores (LR1, LRd, ORd) corrigiram isso, mas mesmo o ORd — a versão mais atualizada para célulashumanas — falha em reproduzir com precisão o comportamento em bradicardia extrema ou em condições de isquemia. O modelo não incorpora adequadamente a acidose intracelular, a depleção de ATP ou a disfunção dos transportadores de volume. Se o seu interesse é modelar infarto ou arritmia pós-isquêmica, o modelo por si só não basta. Outro erro frequente é confundir período refratário absoluto com duração do potencial de ação. O potencial de ação dura talvez 300 ms, mas o período refratário eficaz pode ser significativamente maior devido à recuperação lenta dos canais de sódio (fase de recovered state). Isoproterenol encurta o potencial de ação mas pode paradoxalmente aumentar o período refratário em certas concentrações — o que é contrintuitivo mas explicável pela aceleração da inativação do Nav1.5 via fosforilação por PKA.
Para análise experimental real, a técnica de patch-clamp em célula única ainda é o gold standard. Mas se você está começando e quer apenas visualizar e interagir com o modelo, a plataforma CellML Model Repository (cellml.org) tem o modelo ORd completo em formato padrão, pronto para importar no Myocyte Simulator ou no OpenCOR. O formato é aberto, não precisa de licença. Baixe o arquivo .mlp do modelo ORd lá e importe no OpenCOR — leva uns 10 minutos para configurar as variáveis iniciais corretas (Vm=-86.2 mV, [Na+]i=10 mM, [K+]o=5.4 mM, [Ca2+]i=0.0001 mM) e rodar uma simulação de 2 segundos. A limitação mais honesta que posso listar: nenhum modelo computacional substitui dados experimentais. Modelos são aproximações paramétricas. Eles capturam o comportamento médio de populações de canais, não a heterogeneidade individual de cada célula. Se você está usando isso para pesquisa clínica, trate os resultados como indicativos, não como preditivos. A variabilidade interindividual em expressão de canais — especialmente hERG (IKr) — é grande demais para confiar cegamente em simulações isoladas.
O fundamento físico permanece o mesmo há décadas. O que muda são os detalhes dos canais, as cinéticas, os moduladores farmacológicos. Se você quer dominar o assunto, comece pelo modelo básico de Noble (1962), entenda cada termo da equação, e só então vá para as versões modernas. Pular direto para Luo-Rudy sem saber por que a corrente de cálcio tem aquele termo de portador duplo é como ler um manual de manutenção de avião sem saber o que é um motor a jato.