Como fazer a avaliação primária em primeiros socorros
A avaliação primária é aquela que você faz nos primeiros segundos de contato com um paciente. Eu vi muita gente travar nisso porque acha que precisa seguir um roteiro perfeito, mas na prática funciona de forma bem mais orgânica. Você chega, olha, e já começa a responder perguntas inconscientes: a pessoa respira? Está consciente? Tem sangramento óbvio? Aí vai estruturando mentalmente o que precisa fazer em seguida.
O que cobre a primeiros socorros avaliação primaria
O protocolo ABCDE é o padrão que vou explicar aqui, mas ele não é sagrado demais. Depende da situação, do cenário, de quantos socorristas estão disponíveis. Vou contar uma experiência minha pra ilustrar. Fui chamado num evento esportivo. Um atleta caiu e ficou imóvel no chão. A princípio parecia tudo normal, mas quando cheguei mais perto vi que ele estava ofegante e com os lábios levemente arroxeados. Apliquei o ABC e percebi que o D (distúrbio neurológico) estava comprometido antes mesmo do C (circulação) ser resolvido plenamente. O protocolo foi seguido, mas a ordem mental foi um pouco diferente do que eu esperava.
Isso acontece quando o paciente tem uma via aérea parcialmente obstruída. Se você só checar respiração superficialmente, pode perder sinais sutis de insuficiência respiratória. O truque é inspecionar bem a cavidade oral, ver se há corpos estranhos, sangue, ou edema comprometendo a passagem de ar.
Passo a passo da avaliação primária
A — Via Aérea
Abra a via aérea com a manobra testa-queixo. Coloque uma mão na testa da pessoa, pressione suavemente para cima. Com a outra mão, abra o queixo dela puxando levemente para frente. Se houver suspeita de trauma cervical, use a manobra mandibular em vez disso, puxando o ângulo da mandíbula para frente sem inclinar a cabeça. Verifique se há ruídos respiratórios anormais, secreções, ou objetos estranhos na boca. Retire apenas o que for visível e acessível sem introduzir os dedos profundamente na faringe.
B — Respiração
Observe a elevação do tórax. Conte mentalmente enquanto olha por 5 a 10 segundos. Se a pessoa não respira ou tem respiração agônica, inicie ventilação de resgate imediatamente. Se estiver respirando, posicione em decúbito lateral de segurança para manter a via aérea permeável. Um detalhe que muita gente ignora: o cheiro pode indicar algo. Cheiro de álcool, cetoacetona (diabético), ou até fumaça podem dar pistas importantes sobre a causa subjacente.
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C — Circulação
Palpe o pulso carotideo por no máximo 10 segundos. Se não houver pulso, inicie compressões torácicas. Se houver, avalie o tempo de preenchimento capilar — pressione a unhoa do dedo por 5 segundos e solte. O colorido deve retornar em menos de 2 segundos. Sangramentos ativos precisam ser controlados com compressão direta. Se não parar com compressão simples, considere uso de torniquete para membros, mas registre o horário exato de aplicação.
D — Déficit Neurológico
Avalie o nível de consciência usando a escala AVDI: Vocal, Dor, Inconsciente. Chame o nome da pessoa, aplique estímulo doloroso moderado se necessário, e observe se há resposta. Verifique também se há assimetria facial, força nos membros, e se há perda de consciência recente. Isso pode indicar AVC, hipoglicemia, ou traumatismo cranioencefálico.
E — Exposição e Ambiente
Exponha o paciente para verificar lesões ocultas, mas mantenha a temperatura corporal adequada. Cubra-o assim que possível. Revise o ambiente em busca de fatores de risco: eletricidade, produtos químicos, quedas, veículos.
Erros comuns na prática
O erro mais frequente que vejo em treinamentos é subestimar a importância da inspeção inicial. As pessoas querem "fazer algo" rápido e acabam pulando etapas. Outro problema é a falta de higienização das mãos antes do contato com o paciente, especialmente quando há fluidos corporais presentes. Também notei que muitos socorristas novatos têm dificuldade em avaliar o pulso carotideo em pacientes obesos ou com pescoço curto. Nesses casos, a verificação da pulsação femoral pode ser mais confiável como indicador de circulação central.
Quando a avaliação primária não é suficiente
Se o paciente apresentar deterioração rápida, múltiplos mecanismos de lesão, ou sinais de choque descompensado, a avaliação primária inicial será apenas o começo. Você precisará de monitorização contínua e provavelmente de suporte avançado. Em cenários com múltiplas vítimas, a triagem START pode ser mais eficiente do que a avaliação completa individual. Nesse caso, você classifica rapidamente quem precisa de atendimento imediato versus quem pode aguardar.
O mais importante é manter a calma, seguir o protocolo de forma sistemática, e registrar o horário das intervenções para fornecer informação útil à equipe de resgate que chegar depois.