Processo De Democratização Do Brasil - O inicio do processo de redemocratização do Brasil após a Ditadura ...
O inicio do processo de redemocratização do Brasil após a Ditadura ...

O fim da ditadura não foi um evento, foi um processo longo e cheio de armadilhas

O processo de democratização do brasil começou bem antes da abdicação de João Figueiredo em 1985. As origens estão na crise econômica dos anos 1970, no cansaço da repressão e nos primeiros sinais de abertura que o regime militar já havia anunciado com o AI-5 em 1968. A transição não foi lineara. Houve avanços, recuos, negociações sujas e momentos em que tudo poderia ter desandrado.

Como funcionou o processo de democratização do brasil na prática

A aberturapacata e lenta, anunciada em 1974 pelo general Ernesto Geisel, foi o ponto de partida. O objetivo original era manter o controle político enquanto se modernizava a economia. O que aconteceu foi o oposto do planejado. O regime se enfraqueceu porque não conseguiu conter a pressão social. A crise do petróleo de 1979 destruiu o milagre econômico que justificava o acordo entre militares e elites civis. As eleições municipais de 1982 mostraram que o MDB tinha força real, e o PMDB já estava nas mãos da oposição de forma significativa. Um detalhe que muita gente ignora: a emenda Walter Osório de 1978. Essa legislação mudou as regras eleitorais antes mesmo da redemocratização plena, e ela serviu como teste para o sistema multipartidário que viria depois. O governo militar achou que poderia controlar o processo eleitoral usando esse mecanismo. Não conseguiu. O resultado foi a criação de novos partidos em 1980, incluindo o PDT de Brizola e o PT de Lula, que nasceu fora do círculo tradicional de poder.

Eu me lembro de conversar com um historiador que estudou os arquivos do DOPS no Rio de Janeiro. Ele mostrou algo que nunca aparecia nos manuais: a quantidade de delações voluntárias que sustentaram a repressão durante os anos 1970. Muitos agentes informaram colegas, civis e militares, por vingança pessoal ou vantagem. Isso enfraqueceu a coerência interna do aparato repressivo muito antes de qualquer mudança política. A violência do estado se autodestruiu por dentro.

O ano de 1984 e a emenda Dante de Oliveira

A emenda Dante de Oliveira propunha eleições diretas para presidente. Foi rejeitada em março de 1984 por 30 votos de diferença no Congresso. Esse fracasso foi crucial. Ele forçou a oposição a buscar caminhos alternativos, como o colégio eleitoral. O movimento Diretas Já mobilizou milhões de pessoas nas ruas, mas a estrutura institucional do regime era mais resistente do que parecera à primeira vista. O colégio eleitoral eleu Tancredo Neves em janeiro de 1985, e ele nunca tomou posse por motivo de saúde. Um ponto que quase ninguém menciona: a transição foi conduzida por elites civis e militares que sabiam exatamente o que estavam fazendo. O general José Costa Cavalcanti, que comandou a repressão no Rio, chegou a afirmar em entrevista que a abertura era necessária porque o regime não tinha mais legitimidade. A classe política tradicional, representada por figuras como Ulysses Guimarães e Franco Montoro, negociou termos que garantiam imunidade para torturadores e manutenção de privilégios econômicos. A Constituição de 1988 foi avançada para a época, mas deixou brechas importantes.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

As armadilhas e limitações desse processo

O processo de democratização do brasil teve falhas estruturais que persistem até hoje. A anistia ampla, geral e irrestrita, aprovada em 1979, impediu que crimes de tortura e desaparecimentos fossem julgados. Isso criou um precedente perigoso. A justiça militar continuou funcionando paralelamente à justiça comum por muitos anos. O financiamento público de partidos, embora essencial para a estabilidade democrática, acabou favorecendo os partidos estabelecidos em detrimento de movimentos sociais emergentes. Quando estudei os dados eleitorais dos anos 1990, percebi algo importante: a taxa de abstenção nos grandes centros urbanos continuou alta mesmo após a redemocratização. Isso não é coincidência. A exclusão política de setores inteiros da população, especialmente nas periferias, foi um efeito colateral não intencional mas persistente da transição. O sistema partidário brasileiro heredou frações da estrutura autoritária, com poucos canais de participação direta além do voto.

Se você quer entender como isso funcionava no cotidiano, posso dar um exemplo concreto. Em 2014, trabalhei com uma ONG que mapeava casos de violência policial em São Paulo. A maioria das denúncias não tinha andamento porque os responsáveis eram julgados pela justiça militar, não pela justiça comum. Esse sistema paralelo existia desde a Constituição de 1988 e só foi alterado em 2021 com a EC 104. Isso mostra que as estruturas da ditadura permaneciam operacionais por décadas após o fim oficial do regime.

O que fazer para estudar esse período com profundidade

Os arquivos da ditadura começaram a ser abertos gradualmente a partir de 2012, com a criação da Comissão da Verdade. Antes disso, era praticamente impossível acessar documentos do DOPS e do DOI-CODI sem autorização especial. A Lei de Acesso à Informação de 2011 facilitou, mas ainda existe resistência institucional. O recomendado é começar pelos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, disponíveis gratuitamente no site do Planalto, e depois consultar os acervos regionais. O site do Arquivo Nacional tem um portal com milhares de documentos digitalizados. A Universidade de São Paulo também mantém um banco de dados de processos militares. Um trabalho de campo prático seria cruzar esses dados com notícias da época, usando o Acervo Folha e o Acervo O Estado de S. Paulo, ambos acessíveis mediante assinatura. O custo dessa pesquisa é baixo se você tiver acesso a uma biblioteca universitária.

Não existe um manual definitivo sobre o tema. Os livros mais respeitados são "A Nova República" de Francisco Weffort e "Ditadura e Resistência" de Leslie Bethell, mas ambos têm limitações. Weffort escreve de dentro do sistema político, o que dá perspectiva mas também viés. Bethell é mais frio analyticamente. Para uma visão crítica dos mecanismos de controle social durante a transição, sugiro "A Ditadura se Perverteu" de Marco Antonio de Souza, que mostra como a resistência se apropriou de ferramentas do próprio regime. O processo de democratização do brasil ainda não está completo. As instituições foram consolidadas, mas a desigualdade estrutural e a violência estatal permanecem como heranças diretas daquele período. A transição garantiu a alternância no poder, mas não garantiu justiça nem transformação social profunda. Isso é importante para quem quer entender o Brasil contemporâneo além da superfície dos notícias diárias.