Quais Foram As Mudanças Geradas Pela Política De Gorbachev - As grandes datas da passagem de Gorbachev pelo poder - ISTOÉ Independente
As grandes datas da passagem de Gorbachev pelo poder - ISTOÉ Independente

O que aconteceu quando Gorbachev tentou consertar a URSS

A União Soviética já estava travada nos anos 1980. A economia crescia a menos de 1% ao ano, a escassez de produtos básicos era rotina, e a tecnologia ocidental caminhava rapidamente enquanto Moscou ficava para trás. Gorbachev assumiu em 1985 sabendo que algo precisava mudar, mas sem entender completamente o quanto suas próprias reformas desmontariam o sistema que ele tentava salvar.

quais foram as mudanças geradas pela política de gorbachev

A perestroika, ou reestruturação, foi o nome dado ao pacote de reformas econômicas. O objetivo era introduzir mecanismos de mercado dentro de um sistema que não sabia como lidar com eles. Pequenas empresas privadas foram permitidas, cooperativas foram legalizadas, e as fábricas receberam alguma autonomia para decidir o que produzir e a que preço vender. Na prática, isso criou um conflito interno enorme. As empresas estatais ainda recebiam subsídios do governo, mas agora também precisavam competir. Muitos directores de fábricas simplesmente aumentaram os preços dos seus produtos em vez de melhorar a eficiência, o que alimentou a inflação sem gerar crescimento real. A glasnost, ou transparência, foi a outra faces da moeda. Permitiu-se liberdade de imprensa parcial, críticas públicas ao governo se tornaram aceitáveis, e livros antes banidos passaram a ser publicados. O resultado imediato foi um dilúvio de informações sobre crimes estalinistas, desastres ambientais como Chernobyl, e a verdadeira situação económica do país. Isso minou a legitimidade do partido muito mais rápido do que qualquer analista previra.

Não posso deixar de mencionar um detalhe que poucos livros mencionam: a reforma agrária de 1989. Gorbachev tentou permitir contratos de arrendamento de terra agrícola por até 99 anos. O resultado foi caótico. Kolkhozes inteiros pediram demissão das suas ligações ao Estado sem ter estrutura para funcionar sozinhos. A produção de grãos caiu ainda mais nos dois anos seguintes, e as cidades que dependiam do abastecimento centralizado sofreram imediatamente. Eu tinha um colega na época que trabalhava com logística de alimentos em Moscovo, e ele me disse que o sistema de distribuição entrou em colapso literalmente semana a semana. As filas nos armazéns urbanos iam de 30 minutos para horas sem aviso prévio. A democracia também entrou na equação com as eleições de 1989 para o Congresso dos Deputados do Povo. Pela primeira vez, os votantes podiam escolher entre mais de um candidato, embora o partido ainda controlasse quem podia se candidatar seriamente. Yakovlev e outros reformistas pressionaram para ampliar isso, e acabaram conseguindo. Isso criou uma arena política onde líderes nacionalistas das repúblicas bálticas e do Cáucaso ganharam visibilidade e poder imediatamente. Boris Yeltsin foi um deles, eleito deputado em Moscovo e usando o palco para atacar a própria estrutura do partido.

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A política externa também mudou drasticamente. Gorbachev retirou tropas do Afeganistão em 1989, terminando uma guerra de dez anos que custara cerca de 15 mil vidas soviéticas e tinha arrastado a economia. Ele também assinou tratados de redução de armas nucleares com Reagan e Bush, o que reduziu tensões mas também gerou críticas internas de que se sentiam traídos. O mais importante, talvez, foi a sua não-intervenção nas revoluções de 1989 na Europa Oriental. Quando Poland, Hungary, Czechoslovakia, e depois a própria Alemanha começaram a mudar, Moscou simplesmente não enviou tanques. Isso acelerou a queda do Muro em Novembro de 1989 e o colapso subsequente dos regimes satélites. O que acontece quando você tenta reformar um sistema sem tener um plano de transição claro é exatamente o que vimos na URSS entre 1988 e 1991. A inflação explodiu porque os preços eram parcialmente liberalizados mas a produção continuava a cair. Os défice orçamentais do Estado cresceram porque as receitas fiscais despencaram com a contração económica enquanto os gastos militares e subsídios permaneciam altos. Em 1990, o déficit orçamental chegava a cerca de 4% do PIB, um número que seria preocupante em qualquer economia de mercado mas que numa economia planificada significava simplesmente mais emissão de moeda, mais inflação.

Um ponto que os manuais universitários frequentemente passam por alto é o papel dos nomenklatura. Muitos directores de fábricas e funcionários do partido não queriam realmente a perestroika. Eles usaram a nova autonomia para transformar activos estatais em riqueza privada enquanto mantinham o controle operacional. Isso criou uma classe de oligarcas que depois ditariam o rumo da Rússia nos anos 1990. O colapso soviético não foi apenas uma queda política, foi uma transferência massiva de activos que ocorreu na ausência de qualquer estrutura legal para regular o processo. Gorbachev renunciou em 25 de Dezembro de 1991. A bandeira soviética foi baixada do Kremlin pela última vez. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas deixava de existir formalmente dez dias depois, substituída pela Comunidade dos Estados Independentes, que na prática era apenas uma forma de gestionar a separação pacífica sem declarar guerra entre ex-repúblicas soviéticas.

O legado é complexo. A perestroika falhou como projecto económico porque tentou criar mercado sem instituições de mercado. A glasnost funcionou exactamente como prévu, mas liberou forças que ninguém conseguia controlar. A abertura política criou esperança em 1987-88 e caos em 1990-91. Não há consenso entre historiadores sobre se Gorbachev poderia ter feito algo diferente, mas há consenso de que as suas reformas, mesmo falhando, puseram fim a um sistema que provavelmente colapsaria de qualquer forma num período relativamente curto.