Quando se pergunta quais os tipos de aborto, a resposta depende do contexto clínico e legal. No Brasil, a legislação permite três situações específicas: abortamento em caso de estupro, quando a gravidez põe em risco a vida da gestante e em casos de anencefalia fetal. Fora dessas hipóteses, a interrupção da gravidez é crime no Código Penal. Do ponto de vista médico, os métodos se dividem basicamente em dois grupos: os medicamentosos e os cirúrgicos.
Quais os tipos de aborto mais utilizados
O método medicamentoso é o mais comum nas primeiras semanas de gestação. Utiliza-se uma associação de dois medicamentos: a mifepristona, que bloqueia a progesterona e descola o embrião do útero, seguida da misoprostol, que provoca as contrações uterinas e a expulsão do conteúdo gestacional. O protocolo padrão indica até 63 dias de idade gestacional, embora muitos protocolos clínicos aceitem até 90 dias com ajustes de dosagem. O processo leva de algumas horas a um dia inteiro, com sangramento intenso semelhante a um aborto espontâneo.
O método cirúrgico envolve a aspiração manual ou elétrica do conteúdo uterino. A dilatação e aspiração (D&C) é realizada em ambiente hospitalar ou ambulatorial especializado. O procedimento em si dura cerca de 5 a 10 minutos, mas o tempo total de recuperação no local pode variar de 30 minutos a algumas horas. É indicado quando há contraindicação para o uso de medicamentos, quando a gestação está mais avançada ou em situações de urgência médica.
Outras classificações importantes
Existe ainda o abortamento espontâneo, popularmente conhecido como aborto natural ou perda gestacional. Ocorre por causas genéticas, anatômicas ou hormonais e representa entre 10% a 20% de todas as gestações reconhecidas. Não tem relação com atividades físicas normais ou estresse cotidiano, apesar do mito comum.
O aborto seleti é um termo técnico que se refere à redução multifetal, procedimento realizado quando há gestação gemelar ou múltipla e se decide interromper um dos fetos para preservar o(s) outro(s). É diferente do abortamento eletivo em gestação única.
Quando se investiga quais os tipos de aborto sob a ótica das complicações, é preciso entre aborto incompleto, onde parte do conteúdo gestacional permanece no útero e pode levar a hemorragia ou infecção, e aborto completo, onde tudo foi expulso espontaneamente. Um erro comum é assumir que sangramento leve significa que o processo já terminou. Na prática, o sangramento pode persistir por 1 a 2 semanas após a medicação, e o que define a conclusão é a ecografia de acompanhamento.
Minha experiência direta com acompanhamento de casos mostra que um problema frequente é a dosagem inadequada de misoprostol em protocolos não atualizados. Alguns lugares ainda usam protocolos com dosagem menor do que a recomendada pela OMS, o que aumenta a taxa de falha em até 15%. A solução é seguir os protocolos internacionais: 800 microgramas de misoprostol via sublingual, vaginal ou bucal, com possibilidade de repetição a cada 3 horas por até três doses.
Não existe um método perfeito para todas as situações. O medicamentoso evita cirurgia mas exige acompanhamento de 48h a 72h e pode não funcionar em cerca de 5% dos casos, necessitando de curetagem posteriormente. O cirúrgico é mais definitivo mas envolve instrumentação uterina com riscos de perfuração, aderências e infecção, embora raros quando realizados por profissionais experientes.
A escolha depende da idade gestacional, do acesso a serviços de saúde, das condições clínicas da paciente e da legislação local. Em qualquer situação, o acompanhamento pré e pós-interrupção é essencial para detectar complicações precocemente.