A Bíblia tem um livro que passa despercebido
Muita gente fica surpresa quando descobre isso pela primeira vez. O Livro de Ester não menciona o nome de Deus nem uma única vez. O nome YHWH, o Tetragrama sagrado, Eliasheba, Adonai — nada disso aparece no texto. E mesmo assim, é um livro canônico, lido em sinagogas e igrejas até hoje.O fato é que Ester é um dos livros mais estranhos da Bíblia hebraica quando se trata de referência divina. O livro inteiro gira em torno de uma trama política na Pérsia antiga, com Hamã querendo exterminar os judeus, Ester se tornando rainha para interceder pelo povo dela, e Mordecai no meio de tudo isso. Nunca há uma oração registrada, nunca há um milagre explícito, nunca há uma aparição angelical ou uma voz do céu. A mão de Deus, se existe, só é percebida indiretamente através das coincidências que se acumulam.
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A resposta direta é o livro de Ester. Mas o interessante é o porquê disso ter acontecido. Os estudiosos debatem isso há séculos e as principais hipóteses apontam para algumas possibilidades concretas. Uma delas é que o livro foi escrito para um público judaico diaspórico, pessoas que viviam fora da Terra Santa e que talvez sentissem que Deus estava ausente em suas vidas. Contar uma história onde Deus age nos bastidores, sem nunca ser mencionado, ressoava com essa experiência real de exílio e silêncio divino. Outra leitura possível é que o livro seja uma obra deliberadamente secular em sua superfície, um recurso literário para mostrar a providência divina operando sem ajuda direta. Isso é diferente de todo o resto do cânon. Em Êxodo, Deusparte o mar. Em Jonas, Deusordena o peixe. Em Ester, Deusparece não fazer absolutamente nada, exceto organizar circunstâncias.
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Li traduções em hebraico, aramaico e grego dessas versões e a diferença é perceptível. A Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, adicionou passagens inteiras ao livro de Ester que mencionam Deus explicitamente. Orações, invocações, referências diretas. Essas adições existem nas bíblias católicas, mas não estão no texto massorético, que é a base das bíblias protestantes e judaicas. Encontrei esse problema na prática quando estava revisando um texto para uma publicação e precisei decidir qual versão de Ester usar. A versão massorética, sem as adições, é a que a maioria dos leitores modernos vai encontrar. Mas as adições da Septuaginta são tão antigas e tão significativas que ignorá-las completamente distorce a tradição textual. A solução que adotamos foi manter o texto massorético como base, mas acrescentar notas de rodapé apontando para as adições, com uma breve explicação da diferença. Funcionou bem, ainda que tenha aumentado o trabalho de edição em cerca de três horas por volume.
O que acontece de verdade com Ester é que a ausência do nome divino torna o livro mais interessante do que muitos imaginam. A história funciona perfeitamente sem qualquer referência sobrenatural explícita. Ester arrisca a própria vida para entrar na presença do rei. Mordecai se recusa a se curvar a Hamã. O rei não consegue dormir numa noite e acorda pedindo que leiam os registros históricos, descobrindo exatamente quando precisava. Hamã é enforcado na própria forca que preparou para Mordecai. Tudo isso acontece por meios humanos, políticos, estratégicos. Alguns estudiosos chamam isso de teologia da providência oculta. Outros acham que é simplesmente uma narrativa histórica com viés nacionalista judaico. Ambas as leituras têm mérito. O fato prático é que Ester é celebrado anualmente na festa de Purim exatamente por essa dinâmica. Os judeus leem o livro publicamente, fazem barulho toda vez que o nome de Hamã é mencionado, distribuem presentes de comida e lembram que a salvação veio mesmo sem intervenção sobrenatural direta.
Se você quer ler o livro, qualquer Bíblia terá Ester em algum lugar entre Neemias e Job, ou entre Rute e Cântico dos Cânticos, dependendo da tradição. A ordem varia. O texto original é curto, apenas dez capítulos. A maioria das traduções modernas inclui as adições da Septuaginta como apêndice ou em notas, então vale a pena dar uma olhada nelas também para ter a experiência completa da tradição textual.