O gênero nas palavras do português não funciona como muita gente imagina
Achei que isso era simples até um colega de trabalho me perguntar na hora de preencher um formulário institucional: "como eu escrevo o feminino de peão?". A resposta depende de qual peão estamos falando, e a maioria dos dicionários não explica isso direito. Quando você usa "peão" no sentido de trabalhador rural ou operário braçal, o feminino é peoa. É uma palavra antiga, do latim pēnus, e existe em português há séculos. Ainda aparece em registros históricos e em textos jurídicos mais conservadores. Se você for redigir um documento oficial sobre direitos trabalhistas rurais, vai encontrar esse uso. Não é algo que todo mundo sabe, e isso causa problemas reais em preenchimentos de formulários.
Ja quando "peão" se refere à peça do xadrez, a situação muda completamente. Peças de jogos costumam ser invariáveis em muitos casos, mas o xadrez segue uma lógica diferente. Dizer "a peoa xadrez" soa estranho para a maioria dos falantes. Nesses contextos, o mais comum é manter "peão" mesmo ao se referir a uma peça feminina, ou usar a perífrase "a peça peão". Eu já vi manuais de xadrez em português usando as duas formas, e isso gera confusão até entre jogadores experientes.
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Qual o feminino de peão: a questão prática
Se a pergunta é estritamente gramatical, para o substantivo que designa pessoa, a forma feminina é peoa. O plural seria "peoas". Na prática, essa palavra caiu em desuso no português cotidiano. Muitas pessoas nunca ouviram "peoa" sendo usada em conversas normais. Você vai encontrar mais facilmente em textos do Direito Agrário, em documentos históricos ou em gramáticas mais antigas. Um problema que eu enfrentei diretamente: estava revisando um contrato de arrendamento rural e o autor usava "peoa" no texto. O revisor jurídico rejeitou, dizendo que a forma correta era "trabalhadora rural" ou "colona". Acontece que "peoa" está correto do ponto de vista gramatical, mas o meio jurídico contemporâneo prefere termos mais descritivos. Minha solução foi manter "peoa" entre parênteses na primeira menção e usar "trabalhadora rural" no resto do documento. Isso resolveu a questão sem precisar alterar o sentido.
Há também a variante "pedoa", registrada em alguns dicionários como forma alternativa. É menos frequente, mas existe. Não recomendo usá-la em textos formais, a menos que o contexto histórico ou regional justifique. Agora, se "peão" aparece no sentido de pião — a brincadeira infantil —, aí a coisa fica ainda mais complicada. Nesse caso, "peão" é um substantivo masculino que nomeia um brinquedo. Não faz sentido tentar feminilizá-lo, porque se trata de um objeto, não de uma pessoa. A confusão nasce justamente quando as pessoas automatizam o processo de flexão de gênero sem verificar primeiro qual o sentido da palavra no contexto.
O que eu diria para quem está estudando isso: verifique sempre o contexto antes de aplicar a flexão. O português tem várias palavras que mudam de gênero conforme o significado, e "peão/peoa" é um exemplo clássico. Um erro comum é achar que todas as palavras terminadas em "-ão" formam o feminino com "-oa". Palavras como "cidadão" viram "cidadã", mas "alemão" vira "alemã". Cada caso pede atenção.