Quanto Conhecemos Do Oceano - Principais Oceanos do Mundo | PDF | Oceano Atlântico | Mar
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O que realmente sabemos sobre o fundo do mar

A maior parte do planeta é coberta por água. Parece óbvio, mas quando você para pra pensar, a matemática não fecha: mapeamos Venus com mais detalhe do que nosso próprio oceano. A NASA tem imagens em resolução milimétrica de Marte, enquanto cerca de 80% do leito oceânico ainda não foi explorado por tecnologia direta. Não é falta de vontade, é questão de custo e logística. Um submarino autônomo que custa dois milhões de dólares pode cobrir alguns quilômetros quadrados por dia, mas o fundo do mar tem algo em torno de 361 milhões de quilômetros quadrados. A conta é simples e desanimadora.

Quanto conhecemos do oceano na prática

Eu trabalhei com dados de sonar multifrequência num projeto de mapeamento costeiro há uns cinco anos. O equipamento mais moderno, um batímetro multifeixe, consegue resolver objetos do tamanho de um carro a três mil metros de profundidade, desde que a água não esteja muito turva e o ruído eletrônico do navio seja controlado. Mas aí vem o problema: esses equipamentos só mapeiam faixas estreitas. Para ter cobertura global com resolução útil, precisaria de uma frota de centenas de navios operando simultaneamente durante décadas. O orçamento não existe. Ninguém paga isso. O que temos hoje são mapas como o EMODnet, o GEBCO, o Seabed 2030. São projetos ambiciosos, mas todos dependem de dados esparsos, interpolados, coletados aqui e ali ao longo de rotas de navios-cerca. A resolução média mundial é algo em torno de um quilômetro por pixel. Em águas profundas, pior ainda. No Mar do Caribe, onde a água é mais clara e o fundo mais acessível, conseguimos bons resultados. No Atlântico Sul, perto de dorsais oceânicas, os dados são quase inexistentes.

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Uma coisa que ninguém explica direito: sonar não vê tudo. Ele vê reflectividade acústica. Objetos que absorvem som, como alguns minerais ou sedimentos moles, podem desaparecer completamente. Já vi perfiladores subaquáticos mostrando "vazios" que depois se revelaram colonias de coral negro, extremamente densas e absorventes. O oposto também acontece: pedras de ferro no lodo parecem estruturas artificiais, como naufrágios ou pilhas de entulho. A interpretação exige conhecimento geológico e biológico, não só técnica. Outro detalhe que começa como vantagem e vira limitação: ROVs (veículos operados remotamente) atingem profundidades de seis mil metros, mas o cabo de conexão limita o raio de ação. Num projeto no Pacífico, usamos um ROV com cabo de três quilômetros. Precisávamos mapear uma área de dez quilômetros quadrados. Cada missão demandava planejamento cirúrgico, com trajetos pré-programados e margem de erro mínima. Uma correnteza inesperada podia arrastar o cabo contra uma formação rochosa e danificar o equipamento. A manutenção custava tempo e dinheiro, mas os dados valiam a pena.

Se você quer dados confiáveis, a alternativa é usar satélites de altimetria. Eles mapeiam a superfície do oceano e inferem a topografia do fundo através de variações gravitacionais. A resolução é baixa, algo em torno de cinco quilômetros, mas cobre áreas impossíveis de atingir com navios. O projeto SWARM da ESA, por exemplo, revolucionou o mapeamento de bacias oceânicas profundas. Mas satélites não veem detalhes. Estruturas menores que cinco quilômetros passam despercebidas. Precisamos de múltiplas técnicas, combinadas, para ter uma visão completa. Existe ainda o problema da profundidade. A média global é de três mil e novecentos metros. O ponto mais profundo, a Fossa das Marianas, atinge onze quilômetros. Um submarino como o Trieste, que atingiu esse ponto em 1960, levou trinta anos para ser reproduzido com tecnologia similar. Hoje temos o Limiting Factor, que fez a travessia três vezes entre 2019 e 2021. Cada mergulho custa algo em torno de duzentos mil dólares, só de operação. Os dados coletados são valiosos, mas o custo limita a frequência. Ninguém faz expedições semanais aessa profundidade.

Se você tem acesso a dados abertos, o Portal NOAA, o Projeto Seabed 2030, o GEBCO disponibilizam arquivos em formato GIS. A resolução varia conforme a região. Em águas rasas, como o Mar do Norte, conseguimos mapas com resolução de dez metros. Em águas profundas, como o Pacífico Central, a resolução cai para algo em torno de cinco quilômetros. A interpolação é necessária, mas introduz erros. Estruturas lineares, como canais submarinos, podem ser distorcidas ou completamente perdidas.