O que é o que era geológica estamos vivendo
Se você está procurando uma resposta simples, talvez não vá gostar. A pergunta parece objetiva, mas na prática é uma das discussões mais travadas da comunidade geológica atual. O que era geológica estamos vivendo tem a ver com época, não com era. Nossos professores de graduação ainda ensinam que estamos no Holoceno, mas a coisa não para aí.
Entendendo a cronologia antes de tudo
A escala temporal geológica funciona como camadas. Cada camada representa um período diferente, e a gente vai do mais antigo ao mais recente. Estamos na Era Cenozoica, período Neógeno, época Holoceno. Só que tem um porém. O Holoceno começou há cerca de 11.700 anos, quando a última grande glaciação encerrou. Desde então, o clima manteve uma estabilidade relativa que permitiu o desenvolvimento da agricultura, das cidades, de tudo. Mas desde meados do século XX, os seres humanos começaram a deixar uma marca estratigráfica tão forte que alguns geólogos argumentam que devemos reconhecer uma nova época. A proposta chama-se Antropoceno.
Por que a proposta do Antropoceno continua pendente
A Comissão de Estratigrafia Internacional reconheceu o Antropoceno como possível nova época em 2016. Um grupo de trabalho foi formado para encontrar uma evidência estratigráfica inequívoca. Eles apontaram o pico de plutônio-239 nos sedimentos como candidato perfeito. Esse isótopo veio dos testes nucleares atmosféricos, atingindo seu ápice em 1964. É um marcador global, sincronizado, visível em qualquer núcleo de gelo ou sedimentar. Porém, a votação formal não teve consenso. Alguns membros da comissão consideraram que não havia suficiente distinção entre os depósitos antrópicos e os naturais. A decisão foi adiada para votação plenária, que até hoje não ocorreu de forma definitiva. Na prática, significa que ainda não somos oficialmente uma nova época geológica, mas o debate está quente e parece inevitável que mude em algum momento.
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Como eu lido com isso no campo e no laboratório
Trabalho com datação de núcleos sedimentares em bacias costeiras. Quando preciso datar sedimentos dos últimos 70 anos, uso tanto o chumbo-210 quanto o césio-137 como marcadores de tempo. O césio-137, principalmente, coincide com os eventos nucleares e ajuda a traçar linhas cronológicas precisas. Já vi núcleos onde o horizonte de plutônio era tão nítido que parecia uma linha desenhada à régua. Num caso específico, em uma bacia do litoral sul do Brasil, encontrei uma discrepância. O pico de césio-137 estava ligeiramente deslocado em relação ao de plutônio-239 em cerca de dois centímetros de sedimento. Isso pode parecer pouco, mas em termos cronológicos representa uns cinco a oito anos de diferença. A explicação mais provável é remobilização bioturbativa por organismos bentônicos. A solução foi usar modelos de mistura isotópica e cruzar com dados de taxa de sedimentação calculados a partir de múltiplos radionuclídeos. Sem esse cuidado, você poderia datar erroneamente uma amostra inteira.
Limitações que ninguém menciona
O Antropoceno, se for adotado, vai gerar problemas práticos. Primeiramente, a delimitação exata do início é controversa. Existem três candidatos principais: o desmatamento em massa do hemisfério norte no século XVI, o aceleramento industrial no final do século XIX, e o Grande Aceleração pós-1950. Cada escolha muda completamente a narrativa histórica. Para trabalhos que exigem precisão estratigráfica, essa ambiguidade é frustrante. Outro ponto: regiões com taxa de sedimentação muito baixa, como planícies abissais, podem não registrar marcadores antropogênicos com clareza. Isso limita a aplicabilidade global da definição. Se você está estudando ambientes de baixa energia sedimentar, o conceito de Antropoceno talvez não tenha utilidade prática imediata.
O que fazer se você precisa trabalhar com isso agora
Se seu projeto exige lidar com a questão do que era geológica estamos vivendo de forma prática, sugiro o seguinte procedimento. Primeiro, defina qual marcador usar com base no seu ambiente: núcleos de gelo para regiões polares, sedimentos lacustres para áreas continentais, sedimentos marinhos costeiros para litorais. Segundo, use sempre pelo menos dois radionuclídeos para cross-validação. Terceiro, publique os métodos de forma transparente, especificando os limites de detecção e as curvas de decaimento utilizadas. Para quem precisa de dados de referência, o banco de dados do Global Stratotype Section and Point (GSSP) está disponível publicamente, assim como as tabelas de meias-vidas de radionuclídeos usadas em datação. O ICS também mantém uma seção dedicada ao debate do Antropoceno com documentos técnicos atualizados.
A verdade é que a geologia não é estática. O que era geológica estamos vivendo pode mudar nos próximos anos, e isso é normal. A ciência funciona assim: proposta, evidência, debate, consenso. Até lá, acompanhe as decisões da Comissão de Estratigrafia. Quando a votação oficial acontecer, vai reescrever livros didáticos inteiros.