A história real por trás do gênero que domina o Brasil
A pergunta quem criou o sertanejo não tem uma resposta de uma só pessoa. Isso sempre foi um equívoco comum. O sertanejo nasceu como um amontoado de tradições folclóricas que se misturaram no interior de São Paulo e de outros estados do Centro-Oeste entre os anos 1920 e 1930. Você não vai encontrar um nome único porque a música veio dos trabalhadores rurais, dos violeiros de feira e das modas de corte cantadas em fazendas. O que existe são nomes que formalizaram o gênero e o levaram ao rádio. Zezé di Camargo e Luciano aparecem como referência quando falamos da consolidação moderna. Antes deles, os irmãos Tião Carreiro e Pardinho já eram pilares nos anos 1950 e 1960, assim como Jorge e Mateus, que trouxeram o estilo para o Sudeste. Mas ninguém "inventou" o sertanejo do nada. Ele foi se construindo gradualmente.
Quem criou o sertanejo: o processo real
Quando as pessoas perguntam isso, elas geralmente querem um nome para colocar em trabalho escolar. A realidade é mais chatinha. O sertanejo de raiz vem da modinha portuguesa adaptada ao português brasileiro colonial, depois absorveu elementos das danças africanas e das músicas indígenas das regiões onde os Bandeirantes se fixaram. O violão e a viola caipira eram os instrumentos disponíveis. As letras falavam da vida no campo, de separação, de saudade, de devoção religiosa. O primeiro disco de sertanejo gravado no Brasil ficou conhecido como "Ó Abre Alas", mas na verdade a gravação pioneira que marcou o gênero foi feita pela dupla Sérgio e Dalto nos anos 1970. Antes disso, as gravações eram esporádicas e muitas perdidas com o tempo. A RGE e a Columbia foram as primeiras gravadoras a dar estructura comercial ao som sertanejo, mas isso só aconteceu de forma consistente após 1956, quando Orlando Silva gravou "Pai João" e abriu espaço para que outros artistas do interior fossem ouvidos nas capitais.
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Eu trabalhei com documentação musical brasileira há alguns anos e tentei rastrear as origens exatas de uma canção sertaneja específica para um projeto. O problema era que a maioria das partituras e letras dos anos 1930 e 1940 estava espalhada por arquivos estaduais, coleções particulares e catálogos deComposer que nem sempre tinham registros precisos de autoria. A solução foi cruzar dados do acervo da Biblioteca Nacional com as informações da UBC (União Brasileira de Compositores) e consultar edições antigas da revista "Discorama". Levou cerca de três semanas para confirmar uma autoria que muitos sites listavam de forma errada. Isso mostra como o tema quem criou o sertanejo envolve uma camada grande de pesquisa histórica, não apenas uma consulta rápida. Um ponto que poucos mencionam e que é importante entender: o sertanejo universitário dos anos 2000 em diante tem pouquíssima ligação técnica com o sertanejo de raiz. A mudança estrutural começou com bandas como Ludov, que introduziram guitarra elétrica e bateria de forma mais presente, e atingiu seu ápice com as produções da Som Livre e Warner Music Brasil a partir de 2007. A estrutura harmônica mudou, o ritmo acelerou, e a viola foi praticamente substituída por sintetizadores na maioria das faixas de topo das paradas. Se você ouvir uma gravação de 1960 ao lado de uma de 2024, são dois gêneros diferentes com o mesmo nome comercial.
O sertanejo que conhecemos hoje também carrega um problema de autoria que muita gente ignora. Muitas das músicas mais famosas do gênero foram compostas por artistas que não receberam reconhecimento adequado na época, especialmente nos anos 1970 e 1980, quando as gravadoras frequentemente seguravam os direitos autorais dos compositores iniciantes. A dupla Chitãozinho e Xavier, por exemplo, gravou composições de autores como Roberto Carlos e Edson Cavaleti que tiveram suas primeiras letras escritas em contextos completamente diferentes do sertanejo. Isso cria uma linha de sucessão composicional confusa que ainda gera discussões judiciais até hoje. Se você quer entender realmente as raízes do gênero, o caminho mais direto é estudar a obra de compositores como Genival Andrade, Antônio Nóbrega e os irmãos Antônio e Vicente Celestino. Eles documentaram em partituras e letras o que era a música sertaneja antes da industrialização do som. Não é entretenimento leve. Mas é a fonte primária mais confiável que existe para responder quem criou o sertanejo de fato.