Quem E O Heroi Dos Filmes De Faroeste - Quem é o herói no filme de faroeste? - Identidade 85
Quem é o herói no filme de faroeste? - Identidade 85

A estrutura do herói no cinema western

Muita gente pensa que o heroi dos filmes de faroeste é uma coisa só, mas não funciona assim. Tem o arquétipo clássico, aquele que veio dos romancezinhos do final do século XIX e que os estúdios pegaram nos anos 1930 para montar o molde. É o homem solitário, com um passado que não conta, que chega numa cidadezinha com problemas e resolve tudo com a pistola antes de seguir em frente. John Wayne em Stagecoach (1939) já mostrava isso, mas foi Clint Eastwood quem transformou essa figura em algo mais complexo, mais ambíguo, mais interessante.

quem e o heroi dos filmes de faroeste

Em termos práticos, se você for analisar os filmes com calma, vai perceber que o verdadeiro protagonista do western americano raramente é o "mocinho". O que a indústria sempre vendeu como heroísmo é, na maioria das vezes, um cara que age por conveniência pessoal, orgulho ou vingança, e só depois de matar muita gente é que alguém resolve enfiar um manto de virtude nele. Isso é especialmente evidente nos filmes de Sergio Leone, onde o "homem sem nome" não é herói de ninguém. Ele mata, rouba, deixa todo mundo se resolver. O público que decide se ele é bom ou ruim. O que acontece na prática quando você tenta categorizar esses personagens é que eles se recusam a se encaixar. Eu já passei horas revisando filmes tentando explicar a linha entre o anti-herói e o vilão em westerns dos anos 60 e 70, e a resposta honesta é: depende de qual cena você está assistindo. Em Por Um Punhado de Dólares, Clint Eastwood faz exatamente a mesma coisa do início ao fim — manipula dois bandos, fura acordos, mata por dinheiro. Mas a câmera gosta dele, a trilha sonora ajuda, e o espectador sai do cinema dizendo que ele era o cara certo. Isso não é acidente. É construção cinematográfica intencional desde o roteiro.

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Os iniciantes costumam confundir dois elementos básicos. Acham que o chapéu e o revólver fazem o western, mas o que realmente define o gênero é a relação do personagem com a lei e com a fronteira. O herói do faroeste existe num espaço onde a lei ainda não chegou ou já se foi. Quando o governo federal aparece em força, o filme muda de tom completamente. Isso é algo que diretores como Sam Peckinpah e Arthur Penn dominavam muito bem, enquanto outros simplesmente repetiam a fórmula sem entender o porquê. Outro detalhe que pouca gente percebe: o herói dos westerns clássicos dos anos 40 e 50 é quase sempre um homem branco, solteiro ou viúvo, com uma postura física muito específica — ombros largos, andar devagar, olhar direto. Isso virou padrão de casting e permaneceu assim até os anos 80, quando filmes como Unforgiven começaram a desconstruir fisicamente esse ideal. Clint Eastwood no filme de 1992 não é mais o homem forte e decidido. É um cara velho, cansado, que tenta não atirar e mesmo assim falha. A desconstrução levou quase trinta anos para acontecer, mas aconteceu.

O problema é que tentar resumir o heroi dos filmes de faroeste num único nome ou personagem é sempre uma simplificação errada. O gênero tem dezenas de variações regionais e temporais. O faroeste mexicano tem heróis completamente diferentes do faroeste americano. O spaghetti western italiano inverteu valores moralistas que os filmes de John Ford defendiam com unhas e dentes. E ainda tem o revisionismo dos anos 70, o neowestern contemporâneo, onde o conceito de "herói" praticamente desapareceu e sobrou só gente fazendo o que precisa pra sobreviver. Se você quer estudar o assunto de verdade, recomendo começar por uma cronologia visual, não por livros. Assistir a Stagecoach, depois Shane (1953), depois The Good, the Bad and the Ugly, depois High Noon, e por fim Unforgiven. A evolução do personagem é clara e não precisa de muita teoria. Você vê o herói passando de salvador da pátria para homem problemático em cinqüenta anos de cinema. O resto é conversa fiada.