Quem É O Pai Da Sociologia - O Pai da Sociologia | PDF
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A questão que todo mundo faz na primeira aula

A resposta curta e quase obrigatória em provas de concurso é Auguste Comte. Ele criou o termo "sociologia" em 1838, no terceiro volume do Curso de Filosofia Positiva, e defendeu que a sociedade poderia ser estudada com o mesmo método rigoroso das ciências naturais. Positivismo, lei dos três estágios, and dinâmicas sociais — esse é o repertório básico que cai no Enem, no vestibular e em qualquer babado acadêmico. Mas se você for mais fundo, a coisa fica mais complicada do que parece. Porque "pai da sociologia" não é um título que pertence a uma só pessoa, e quem defende isso com unhas e dentes geralmente está ignorando meio século de história intelectual que aconteceu na mesma época.

Quem é o pai da sociologia: a resposta que os livros não contam direito

Comte deu o nome. Mas dar um nome não é o mesmo que construir uma disciplina. Aí entra Émile Durkheim, e aqui é onde a maioria dos materiais didáticos erra na hora de explicar. Durkheim foi quem transformou a sociologia de um projeto filosófico em algo que se podia enseignar, pesquisar e institucionalizar. Ele criou a primeira cátedra de sociologia na Europa, em Bordeaux, em 1895. Fundou a revista Années Sociologiques em 1898. Escreveu Regra do Método Sociológico (1895), O Suicídio (1897) e As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912). Ele definiu o que seria um "fato social" — algo que existe independentemente da vontade individual e que exerce coerção sobre o comportamento das pessoas. Sem Durkheim, a sociologia continuaria sendo um ramalho da filosofia política. Karl Marx e Max Weber também merecem menção, ainda que nenhum dos dois tenha usado o termo "sociologia" com a mesma frequência. Marx ofereceu uma teoria da sociedade baseada em conflito de classes e estrutura econômica. Weber trouxe a compreensão interpretativa (Verstehen) e a análise dos tipos ideais. Os três são fundadores. Só que o rótulo de "pai" foi colado principalmente em Comte pela tradição acadêmica francesa e pelos manuais de introdução.

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Numa sala de aula real, quando eu vejo um aluno começar a defender que Comte é o único pai, eu pergunto: "E como Comte explicaria um movimento social contemporâneo sem recorrer a um determinismo econômico ou a uma causalidade multifatorial?" A resposta quase nunca vem. O problema é que Comte era muito mais interessado em organizar o conhecimento humano do que em construir instrumentos analíticos testáveis. Seu sistema era grandioso e, em muitos pontos, obsoleto até para a época. Um detalhe que poucos mencionam: antes de Comte, já havia estudiosos analisando sociedade de forma sistemática. Ibn Khaldun, no século XIV, escreveu a Muqaddimah, que é basicamente uma teoria sociológica sobre ciclicidade de civilizações, coesão grupal (asabiyya) e economia política. Condorcet, no Iluminismo francês, mapeou estágios de desenvolvimento social. Harriet Martineau traduziu e popularizou Comte na Inglaterra, mas também produziu How to Observe Morals and Manners (1838), um manual de pesquisa sociológica que é mais metodologicamente sofisticado do que muita coisa que saiu do círculo positivista da época. Ou seja, a sociologia tinha antecedentes. Comte apenas empacotou tudo numa etiqueta vendeável.

Se eu tivesse que indicar um único nome para quem quer entrar no assunto, seria Durkheim. Não porque Comte seja irrelevante — é importante conhecer a origem do termo e o projeto positivista —, mas porque Durkheim construiu a espinha dorsal metodológica que ainda sustenta a disciplina. Fato social como coisa, exterioridade, coerção, anomia, solidariedade mecânica e orgânica: esse vocabulário ainda é usado em artigos, teses e pesquisas de campo. Uma limitação que costuma passar despercebida: a noção de "fato social" de Durkheim é útil, mas tem um problema estrutural. Ao tratar fenômenos sociais como coisas, ele acabou por naturalizar certas relações de poder. Classificar a desigualdade como um "fato" que deve ser estudado como tal pode, ironicamente, tirar o caráter político da análise. Foi exatamente essa crítica que a sociologia crítica e a teoria crítica alemã trouxeram décadas depois. Habermas, por exemplo, argumentou que a sociologia positivista de Durkheim tendia a confundir reprodução social com necessidade natural.

No dia a dia acadêmico, quando alguém pergunta quem é o pai da sociologia e eu preciso dar uma resposta que funcione num contexto breve, eu digo Comte para o exame e Durkheim para a prática. Mas a resposta honesta, a que eu uso quando não estou sob pressão de tempo, é que a sociologia tem três pais e uma madrasta — e a madrasta é Harriet Martineau, que quase recebeu crédito que não recebeu por traduzir Comte e, ao mesmo tempo, desenvolver métodos próprios de observação social. Se o objetivo é entender como a sociologia funciona de verdade, o caminho mais rápido é leer O Suicídio do Durkheim. É um livro curto, direto, e mostra na prática como se opera a explicação sociológica: partir de dados estatísticos aparentemente individuais, encontrar um padrão coletivo, e explicar o padrão pela estrutura social, não pela psicologia dos indivíduos. Depois disso, Comte se torna mais interessante como objeto histórico do que como manuel prático.