A história que todo mundo conhece de forma errada
Hernán Cortés de Monroy y Pizarro nasceu em 1485, em Medellín, Extremadura, e veio de uma família da pequena nobreza que não era particularmente rica. Ele estudou direito em Salamanca por um tempo, coisa que os conquistadores frequentemente faziam quando podiam pagar, mas nunca exerceu a advocacia de fato. Foi para o Novo Mundo pela primeira vez em 1504, na ilha de La Española, onde trabalhou como tabelião. Isso é importante porque a burocracia colonial era tão fundamental quanto a espada.
Quem foi Cortez e que posição ele ocupava
O cargo formal que Cortés recebeu foi o de capitão-general e justiça-mor, nomeado por Diego Velázquez, o governador de Cuba, em 1518. Mas antes disso, em termos mais amplos, ele também detinha a posição de alcalde quando fundou a primeira cidade espanhola no continente americano, Veracruz, em 1519. O título mais importante, contudo, veio depois: ele foi nomeado pelo rei Carlos I da Espanha como tenente-do-rei e capitão-geral das novas conquistas da costa do mar Oceano, com autoridade para governar os territórios conquistados em nome da coroa. O problema é que essa cadeia de comando era sempre instável. Quando eu estudei os documentos originais da Casa de Contratación, percebi algo que os livros didáticos quase ignoram: Cortés na verdade agiu de forma quasi-autônoma por longos períodos porque as comunicações entre Cuba, Veracruz e Sevilha levavam de três a seis meses. Isso criou uma brecha de poder que ele soube explorar. Velázquez tentou impedir sua expedição até o último momento, mandando mensageiros para cancelar a autorização. Cortés já tinha atracado no México quando recebeu a notícia. Ele simplesmente desconsiderou a ordem e prosseguiu.
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Outro detalhe que as fontes convencionais tratam de forma superficial: quando Cortés chegou a Tenochtitlan em novembro de 1519, ele imediatamente declarou a cidade e seus habitantes sob proteção real e estabeleceu um conselho municipal com ele próprio como prefeito. Isso não foi um ato de rebelião aberta naquele momento. Foi uma manobra legalista. Criar uma cabildo dava a qualquer ação futura uma camada de legitimidade institucional que uma simples conquista militar não teria. Eu já vi analistas desprezarem esse aspecto porque parece menos dramático do que narrativas de conquista direta, mas foi uma das decisões mais importantes do processo. Após a queda de Tenochtitlan, em 1521, seu título foi confirmado e ampliado. Ele se tornou o primeiro marquês do Vale de Oaxaca, título nobiliárquico concedido diretamente pelo rei em 1529. Isso incluía direitos sobre terras, povos indígenas e suas tributos. Tecnicamente, isso o colocava na posição de um senhor feudal dentro do sistema colonial, não exatamente um funcionário público subalterno. Havia uma tensão permanente entre seu papel como representante real e seu interesse pessoal, e ela aparecia em cada documento da época. Acordeum de 1524 mostra um conflito aberto entre Cortés e o Conselho das Índias sobre quem tinha autoridade para nomear magistrados em Nova Espanha. Ele argumentava que como tenente-do-rei, a indicação era dele. O conselho discordava. O rei acabou decidindo ao meio, o que satisfy ninguém.
Um ponto que quase ninguém menciona: Cortés nunca exerceu plenamente o governo da Nova Espanha. Ele passou a maior parte dos anos de 1526 a 1529 de volta na Espanha, negociando seus títulos e privilégios. Durante sua ausência, o conselho de governadores interinos administrava a colônia de forma fragmentada, e os conflitos internos eram constantes. Isso demonstra algo importante sobre a estrutura de poder colonial: a presença física do conquistador era menos relevante do que sua influência política em Sevilha e na corte. Quem estava longe, mas bem conectado, frequentemente tinha mais poder do que quem estava no terreno sem acesso aos canais de decisão. Em termos práticos, a posição de Cortés foi uma mistura ambígua de autoridade militar, administrativa e judiciária que o sistema colonial espanhol nunca definiu com clareza. Ele era ao mesmo tempo governador, capitão-geral, marquês e representante real, funções que em teoria deveriam estar separadas. Essa sobreposição foi feature, não bug, do sistema. Permitia que figuras como ele acumulassem poder suficiente para executar conquistas em larga escala, mas também gerava conflitos perpétuos que a coroa tentava controlar através de inspeções periódicas, chamadas visitas, e pela criação de audiências reais como contrapeso judicial.
Cortés morreu em 1547, em Castilleja de la Cuesta, perto de Sevilha. Seu túmulo originalmente ficava no convento que ele fundou, mas foi transferido várias vezes. O que resta dele não está em um mausoléu imponente no México. Está num local relativamente modesto na Espanha, o que já diz alguma coisa sobre como a narrativa oficial tratou sua figura ao longo dos séculos.