Quem Foram Os Sumerios - OS SUMÉRIOS E A ESCRITA Os sumérios foram um dos primeiros povos a ...
OS SUMÉRIOS E A ESCRITA Os sumérios foram um dos primeiros povos a ...

Primeiros registros urbanos do mundo

Mesopotâmia, século IV a.C. — ou melhor dizendo, o que hoje é o sul do Iraque — os sumérios foram o primeiro grupo que construiu cidades grandes o suficiente para ser chamada de civilização sem depender de conquistas estrangeiras. A pergunta quem foram os sumerios aparece com frequência em fóruns e salas de aula porque a resposta não é simples, e a maioria dos livros didáticos ainda trata como se fossem apenas "os primeiros a escrever". Não foi só isso.

quem foram os sumerios: uma visão prática

Os sumérios eram um povo que desenvolveu a escrita cuneiforme, a roda aplicada à cerâmica e ao transporte, sistemas de irrigação em larga escala e governo organizado em cidades-estado como Uruk, Ur, Lagash e Nippur. Eles não formaram um império unificado. Cada cidade era independente, e as guerras entre elas eram frequentes. O período mais conhecido é o III milênio a.C., mas a presença humana na região é anterior a isso. O que diferencia os sumérios de culturas vizinhas da mesma época não é apenas a escrita. É a combinação de burocracia administrativa, arquitetura monumental e organização social complexa. A cidade de Uruk, por exemplo, tinha muralhas que segundo a tradição abrangeriam cerca de 4 km² de área urbana, o que seria extraordinário para a época.

Tenho lido textos acadêmicos e também material introdutório sobre Mesopotâmia antiga há anos, e o problema que sempre encontrei é a confusão entre língua suméria e acádio. A língua suméria é isolada, ou seja, não tem parentesco comprovado com nenhuma outra língua conhecida. O acádio, por sua vez, é semítico e substituiu o sumério como língua falada por volta de 2000 a.C., mas manteve o uso literário e religioso por séculos. Quando vejo alguém dizendo "os sumérios falavam acádio", simplesmente fecho a aba.

O que sabemos com certeza

A escrita cuneiforme surgiu por volta de 3400–3200 a.C. a partir de sistemas anteriores de contagem usando figurinos e selos cilíndricos. O objetivo inicial não era literatura. Era controle administrativo: registrar grãos, gado, distribuição de ração. A famosa Tábua de Kish, encontrada em escavações, mostra sinais proto-cuneiformes que ainda não foram totalmente decifrados. Isso é importante porque demonstra que a escrita evoluiu de forma gradual, não surgiu pronta. Sobre religião, os sumérios tinham um panteão organizado por cidades. Cada cidade-estado tinha seu próprio deus padroeiro. Enlil era central em Nippur, Inanna em Uruk, Enki em Eridu. Os templos, chamados zigurates, eram centros econômicos e religiosos. As sacerdotisas, especialmente a entu — uma figura de alto prestígio ligada ao templo de Inanna —, tinham poder político real.

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A literatura suméria inclui hinos, mitos como o Enuma Elish (embora essa versão mais conhecida seja babilônica) e relatos como a Epopéia de Gilgamesh, cuja versão mais antiga conhecida é suméria. Gilgamesh foi rei de Uruk e depois se tornou figura mitológica. A versione acádica que conhecemos veio de séculos depois.

Limitações do que conhecemos

Aqui está o ponto que poucos mencionam: quase tudo o que temos sobre os sumérios veio de escavações que começaram no século XIX, muitas vezes feitas por equipes europeias e americanas sem padrões modernos de conservação. Peças importantes foram levadas para museus em Paris, Londres, Berlim e Nova York. A documentação sobre proveniência nem sempre é confiável, e há artefatos cujos contextos arqueológicos originais se perderam. Além disso, a cronologia suméria tem variações entre as tabelas cromônicas. A cronologia média coloca o reinado de Gilgamesh por volta de 2700 a.C., enquanto a cronologia baixa situa por volta de 2500 a.C. Diferença de 200 anos que importa quando se tenta correlacionar com outras civilizações.

Outro ponto: a questão da origem dos sumérios permanece sem resposta definitiva. Havia teorias de origem iraniana ou caucasiana, mas não há consenso. A língua isolada e os traços culturais distintos sugerem um grupo que já estava na região antes da expansão semítica, mas os dados genéticos atuais ainda são insuficientes para traçar migrações com precisão.

Como estudar sumérios de verdade

Se você quer ir além do básico, o caminho é ler as traduções diretas das tampas cuneiformes, mas isso exige conhecimento de accádio e sumério clássico. Para iniciantes, o Catalogue of the Cuneiform Tablets do Museu Britânico e os textos reunidos no Cuneiform Digital Library Journal são bons pontos de partida. A obra Sumerian Grammar de Wilhelm von Soden é referências, mas técnica demais para leitura casual. Um problema prático que Encontro frequentemente: muitos materiais em português tratam os sumérios como uma entidade única e homogênea. Na realidade, houve diferenças significativas entre as cidades-estado ao longo do tempo. Lagash e Uruk tinham tradições jurídicas distintas. As listas reais de diferentes períodos mostram variações que indicam alianças, rivalidades e mudanças de poder que não aparecem em resumos gerais.

O período dinástico arcaico (2900–2350 a.C.) é onde os registros se tornam mais densos. Depois, Sargão de Akkad unificou as cidades sumérias sob domínio acádio por volta de 2334 a.C. Esse é o ponto em que "sumério" como entidade política deixa de existir, ainda que a língua e a cultura persistissem. Dizer que os sumérios "desapareceram" é impreciso. Eles foram absorvidos, mas sua herança linguística e institucional perdurou na Mesopotâmia por mais de dois milênios. O legado mais tangível está nos sistemas de numeração base 60, que usamos até hoje para medidas de tempo e ângulos. A divisão de horas em 60 minutos e graus em 360 tem origem direta nessa civilização. Não é curiosidade histórica. É algo que você usa toda vez que marca uma reunião ou mede algo.