O estômago e a produção de suco gástrico

O suco gástrico é produzido nas glândulas da mucosa gástrica, especificamente nas chamadas fossas gástricas que desembocam na superfície interna do estômago. As células responsáveis são distribuídas em três regiões principais: o fundo, o corpo e o antro. Cada uma contribui com componentes diferentes.

Quem produz o suco gástrico

As células principais, também conhecidas como células zimoogênicas, ficam na região do fundo e corpo do estômago. Elas sintetizam e secretam o pepsinogênio, que é a forma inativa da enzima pepsina. Quando o pepsinogênio entra em contato com o meio ácido, ele se converte em pepsina ativa, responsável pela quebra de proteínas em peptídeos menores. As células parietais, ou células oxinticas, são as que produzem o ácido clorídrico (HCl). Essas células ficam mais concentradas no fundo e corpo gástrico também. Elas bombeiam prótons de hidrogênio para o lume estomacal usando a enzima H+/K+ ATPase, uma bomba de íons que consome ATP. Ao mesmo tempo, secretam o fator intrínseco, essencial para a absorção de vitamina B12 no íleo terminal anos depois.

As células mucosas superficiais e as células do pescoço das glândulas produzem o muco gástrico, uma camada protetora que impede que o próprio ácido digira a parede do estômago. As células G, localizadas predominantemente no antro, secretam gastrina, um hormônio peptídico que estimula as células parietais a produzirem mais HCl. Na prática, o processo funciona assim. O aroma, a vista ou o sabor da comida ativam o sistema nervoso parassimpático via nervo vago. Isso libera acetilcolina nas terminações nervosas próximas às células parietais e às células G. A acetilcolina estimula a secreção de ácido diretamente e também induz a liberação de gastrina. Quando o alimento chega ao estômago, a distensão da parede gástrica ativa reflexos locais que reforçam essa secreção. A presença de peptídeos e aminoácidos no conteúdo estomacal também é um estímulo direto para as células G.

O pH do suco gábrico pode cair para valores entre 1 e 2 durante a fase digestiva ativa. Isso significa uma concentração de íons hidrogênio cerca de três milhões de vezes maior do que no sangue. As células parietais têm mecanismos internos robustos para manter esse gradiente. A bicarbonato é liberada para o sangue nesse processo, um fenômeno conhecido como alcalose pós-prandial, que geralmente passa despercebida mas pode ser mensurável em exames de sangue. Eu já atendi casos de pacientes com hipocloridria relativa que não respondiam a suplementos de betaina HCl porque a causa raiz era o uso crônico de inibidores da bomba de prótons, não uma deficiência primária na secreção. Ajustar a medicação com acompanhamento médico resolveu muito melhor do que qualquer protocolo caseiro. Esse é um ponto que muita gente não considera: a produção de suco gástrico pode estar suprimida farmacologicamente sem que a pessoa perceba.

O fator intrínseco precisa existir para a absorção de B12, e pessoas que fazem gastrectomia parcial ou total frequentemente desenvolvem deficiência de B12 porque perdem as células parietais. A suplementação oral comum não funciona nesses casos, já que a absorção depende do complexo fator intrínseco- B12 se ligando a receptores na íleo. Injeções de B12 ou nasal são o padrão de tratamento real. Também vale notar que a gastrina não age apenas localmente. Ela entra na corrente sanguínea e atinge células parietais distantes, ampliando o sinal de secreção ácida. Esse é o motivo pelo qual lesões pépticas podem aparecer em regiões além do estômago, como no duodeno proximal, quando a produção de ácido está desregulada por fatores como infecção por Helicobacter pylori ou uso excessivo de AINEs.