O termo que todo mundo usa e poucos sabem a origem
A resposta curta é Auguste Comte, mas a realidade é bem mais chata do que isso. Comte popularizou o termo em 1838, no volume quatro da sua obra Curso de Filosofia Positiva, substituindo uma expressão anterior que ele mesmo tinha criado: "física social". Até aí tudo bem, seria só mais um detalhe de história das ideias se não fosse o fato de que ele não foi o primeiro a colocá-la no papel.
quem usou o termo sociologia pela primeira vez
Antes de Comte, houve pelo menos dois autores que empregaram a palavra escrita. Pierre-Louis Leroux, jornalista e filósofo belga-francês, usou "sociologie" em 1824 num artigo publicado na revista Mercure de France. A palavra apareceu novamente em 1826, quando Émile de Jouffroy d'Essars, um médico e escritor suíço, também utilizou o termo numa obra intitulada Cours des sciences morales d'une point de vue philosophique. Nenhum dos dois deu muito cabo do recado. Leroux não desenvolveu um programa teórico significativo com o conceito, e Jouffroy o mencionou de passagem, como algo ainda em construção. Comte, por sua vez, pegou a palavra e construiu uma arquitetura inteira em torno dela. Ele definiu sociologia como o estudo positivo da sociedade, algo que deveria seguir o mesmo método das ciências naturais, mas adaptado ao domínio social. Dividiu o campo em duas subdivisões: estática social, que estuda a ordem e as estruturas, e dinâmica social, que estuda a mudança e o desenvolvimento. Essa divisão por si só já orientaria todo o pensamento sociológico dos séculos seguintes.
O que muita gente não entende é que Comte não inventou a disciplina do zero. Ele estava respondendo a um problema concreto que a Europa do pós-Revolução Francesa e da Revolução Industrial enfrentava: como organizar o conhecimento e a sociedade de forma racional, sem recorrer à teologia ou à metafísica. O positivismo dele nasceu disso. Não era abstração de gabinetista, era uma tentativa de dar conta do colapso das velhas ordens sociais. Há um detalhe importante que passa despercebido em resumos de manual. O próprio Comte, nas primeiras edições do Curso, usava "física social" como nome da disciplina. Foi só na quarta edição, em 1838, que ele passou a usar "sociologia". O termo veio de duas raízes latinas e gregas: "socio", de socius (companheiro, parceiro), e "logia", de logos (estudo, tratado). Nada poético. Era pura etimologia aplicada a um projeto científico.
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Outro ponto que raramente aparece: a recepção do termo foi lenta. Durkheim, que consolidaria a sociologia como disciplina acadêmica no final do século XIX, demorou para adotar oficialmente o nome. Ele preferia falar em "ciência das instituições, de suas origens e do seu funcionamento". Só depois é que "sociologia" se tornou o rótulo padrão nas universidades europeias e americanas. Isso mostra que a nomenclatura não vence por si só. Precisa de institucionalização, de revistas, de cargos, de programas de pós-graduação. Comte nunca viu sua criação se formalizar como disciplina universitária. Ele morreu em 1857, e a sociologia só ganharia corpo décadas depois. Se você está investigando essa questão para um trabalho acadêmico, um cuidado que eu recomendaria é não tratar a linhagem do termo como uma disputa de paternidade. Leroux, Jouffroy e Comte não estavam competindo. Estavam todos tentando resolver o mesmo problema: como pensar a sociedade de modo sistemático. A diferença é que Comte articulou um programa que surviveu. Os outros dois foram notinhas de rodapé.
Um erro comum é citar Comte como o único fundador e ignorar completamente o contexto anterior. A história intelectual funciona por camadas. O que parece uma inovação radical quase sempre tem predecessores que o autor seguinte ignora ou menospreza. Comte tinha razão em criticar muitos dos seus contemporâneos, mas ele também esqueceu de reconhecer Leroux e Jouffroy. Isso é típico de fundadores de campo: eles precisam criar uma narrativa de ruptura para se legitimar. Se o seu interesse é mais prático, para uma pesquisa ou leitura, os textos-base são o Curso de Filosofia Positiva, volumes três e quatro, disponíveis em edições críticas francesas e em traduções para o português pela Editora UNESP. Os textos de Leroux estão dispersos em artigos de periódico, o que torna o acesso mais trabalhoso. Jouffroy é ainda mais obscuro, publicado em obras pouco circuladas do século XIX.
A moral da história é simples: Comte usou o termo de forma definitiva e construiu algo sólido com ele. Antes dele, outros tinham soltado a palavra no papel, mas ninguém tinha feito nada com ela que perdurasse. Isso acontece o tempo todo na história das ideias. A invenção de um nome é fácil. O difícil é transformar esse nome numa tradição de pesquisa.