Como resolver questões de colocação pronominal de verdade
A maioria dos estudantes trava na próclise porque aprendeu a lista de atraentes decorando e esperando que funcione. O problema é que as bancas adoram questões onde mais de um fator atraente aparece ao mesmo tempo e a "regra" se contradiz. Já vi gente errar questão da FGV justamente por aplicarem o que aprenderam na faculdade sem perceber que o contexto da frase mudava tudo. Vou explicar primeiro o método que funciona, porque só decorar lista não resolve nas provas difíceis.
Questões de colocação pronominal: o que realmente importa
A regola básica é simples: o pronome oblíquo átono fica antes do verbo quando há fator de atração (palavra que atrai), pode ficar livremente antes ou depois em situação neutra, e vai depois do verbo quando não há atração e o verbo inicia a oração. O que as bancas querem testar não é se você sabe que "não" atrai. Isso todo mundo sabe. Elas querem testar se você consegue identificar quando um fator de atração é anulável por outro, ou quando a atração não se aplica porque o verbo está em forma nominal.
Aqui vai algo que praticamente todo mundo erra: a palavra "mais", quando usada como advérbio de intensidade precedido de negativa, funciona como fator de atração. "Não... mais" atrai o pronome. Mas se o "mais" vier antes do "não", a atração some. Olhe estes exemplos: Não me diga mais nada. (fator de atração presente)
Mais me dizia coisas do que ouvia. (fator de atração ausente, pronome pode ficar antes) O segundo caso é contra-intuitivo porque a intuição grita que "mais" deveria atrair sempre. Não é assim. O advérbio precisa estar negado para exercer atração pronominal. É um detalhe que faz diferença em questões da Cespe e da FGV.
Quando o pronome fica atrás mesmo sem motivo aparente
O encrenqueiro aqui é o início de oração. Se a oração começa com verbo no infinitivo flexionado, com verbo no imperativo afirmativo, ou com verbo no futuro do presente/subjuntivo (formas nominais essencialmente), o pronome vai para depois, sem chance de próclise, mesmo que tenha palavra de atração na oração anterior. Isso porque o fator de atração precisa estar dentro da mesma oração que o verbo regido pelo pronome. Um exemplo clássico de pegadinha:
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"Embora me deseje bem, ele nunca ajudou." A conjunção "embora" não atrai. O "me" precisa ficar na oração principal. Isso é trivial. Mas quando a questão coloca:
"Quando me virei para olhar, não vi ninguém." Aí muitos alunos travam porque "quando" também é fator de atração. O "me" fica antes do "virei" porque "quando" está na mesma oração. A armadilha aparece quando trocam o verbo:
"Virei-me para olhar quando ninguém apareceu." Agora o "me" poderia, em tese, ser atraído por "quando", mas como o verbo principal já iniciou a oração sem fator de atração antes dele, o pronome permanece na ênclise. A ordem dos elementos importa mais do que apenas listar palavras atrativas.
Na prática, eu uso um fluxo decisivo rápido: primeiro identifico se o verbo está em forma nominal (infinitivo não flexionado, gerúndio, particípio, imperativo afirmativo). Se sim, ênclise obrigatória, ponto final. Se não, verifico se há fator de atração na mesma oração antes do verbo. Se sim, próclise. Se não, mesóclise ou ênclise dependendo da flexão verbal. A mesóclise é outro terreno perigoso. Ela só acontece com futuro do presente ou futuro do pretérito do indicativo, quando não há fator de atração. Se houver qualquer palavra atraente antes do verbo, a próclise vence e a mesóclise desaparece. Já perdi pontos em simulado por não notar que "já" era fator de atração e tentar aplicar mesóclise numa oração como "Já lhe direi o que farei". O certo é "Já lhe direi".
A exceção que todo mundo esquece
Pronomes oblíquos átonos que representam a 3ª pessoa do singular ou plural não sofrem influência de certos fatores de atração quando estão vinculados a substantivos próprios ou quando o sujeito é explicitamente citado antes. Isso é confuso até para quem lê gramática há anos. O que acontece é que, em construções com sujeito pronome pessoal do caso reto seguido de verbo no futuro, a atração de advérbios como "agora" pode ser questionável em variações mais cultas. A banca pode considerar aceitável tanto "Agora lhe entregarei" quanto "Agora entregar-lhe-ei", dependendo do nível de formalidade que a questão exige. Na minha experiência corrigindo provas, a solução mais segura é sempre priorizar a próclise quando houver qualquer fator de atração identificado, porque a banca provavelmente espera isso. A menos que o verbo esteja claramente em forma nominal, nesse caso a ênclise é a única opção válida.
O maior erro que vejo estudantes cometerem é tentar aplicar uma única regra fixa sem primeiro mapear a estrutura sintática da frase. A colocação pronominal depende da oração, do tipo verbal e da posição relativa dos fatores de atração. Se você fizer esse mapeamento antes de responder, erra muito menos do que quem decora listas e tenta encaixar tudo de qualquer jeito.