Regência verbal: o que as bancas realmente cobram
O assunto é mais simples do que parece, mas também mais traiçoeiro. Questões sobre regência verbal aparecem em praticamente todo concurso e no Enem, e a maioria dos candidatos erra porque confunde o que a norma culta exige com o que realmente se fala no dia a dia. Eu passei anos corrigindo redações e elaborando provas, e posso garantir que o padrão de cobrança é previsível se você souber onde olhar. A regência verbal estuda a relação de dependência entre um verbo e seus complementos. Em termos práticos, significa saber se o verbo pede preposição ou não, e qual preposição específica ele solicita. Não há mágica nisso. O verbo aspirar, por exemplo, quando significa "desejar", exige a preposição a: aspirar ao cargo. Quando significa "cheirar", é transitivo direto: aspirar o perfume. A banca vai cair nessa ambiguidade com certeza.
Questões sobre regência verbal: o erro mais frequente
O erro número um que eu vejo é a confusão entre regência e concordância. As pessoas estudam os dois assuntos separadamente e na hora da prova misturam tudo. Regência tem a ver com preposição. Concordância tem a ver com flexão de número e pessoa. São coisas distintas. Se a questão pergunta sobre regência, ela quer saber se o verbo liga-se ao complemento por meio de preposição. Ponto. Outro erro crasso é achar que toda preposição pode ser usada com qualquer verbo. O verbo impedir pede a preposição de quando acompanha infinitivo: impedir alguém de fazer algo. Já o verbo obstar pede a: obstar ao progresso. Isso não é opção estilística, é regra. E sim, eu vi candidato perder ponto por escrever "obstar o progresso" em prova da FGV. A banca não perdoa.
Verbos que sempre causam problema nas provas
Vou listar os que mais aparecem e o jeito correto de usá-los, sem rodeios. O verbo assistir tem quatro significados e cada um pede uma regência diferente. Assistir no sentido de "ver, perceber" é transitivo direto: assistir um filme. No sentido de "prestar assistência" é transitivo indireto com a: assistir o paciente. No sentido de "caber, pertencer" também é indireto com a: assiste a você essa direitos. E no sentido de "morar" é indireto com em: assistir em São Paulo. Se a questão mandar escolher a regência correta, esse é o verbo armadilha. O verbo aludir é outro clássico. Ele é transitivo indireto com a: aludir ao problema. Nunca transitivo direto. Eu já vi material de curso errado na internet dizendo que "aludir algo" está correto. Está errado. A Celpe-Bras e a FEs de medicina cobram isso todo ano.
O verbo reger pede complementos variados dependendo do sentido. Reger No sentido de "governar" é transitivo direto: reger um país. No sentido de "direcionar, conduzir" também é direto: reger uma orquestra. Mas quando significa "ter como fundamento", pede em: reger-se em princípios éticos. A coisa fica interessante quando a banca mistura esses sentidos numa única questão.
Dica prática: como identificar a regência correta
O método que eu uso e recomendo é simples. Primeiro, identifique o significado do verbo no contexto da frase. Depois, verifique se esse significado exige preposição. Se o verbo for bitransitivo, ele precisa de objeto direto e indireto. Se for transitivo indireto, ele precisa da preposição correta. Se for transitivo direto, não leva preposição. Eu costumo montar uma tabela mental com os dez verbos que mais caem. Isso leva cerca de dez minutos e elimina pelo menos quinze porcento das questões de regência que aparecem na prova. Os verbos são: aspirar, assistir, visar, obedecer, desobedecer, informar, avisar, lembrar, esquecer e preferir. Cada um tem sua regência específica e é só decorar o padrão.
A questão abaixo mostra como isso funciona na prática. "O candidato aspirava ___ vaga há três anos". A resposta correta é a, porque aspirar no sentido de desejar exige a preposição a. Se a alternativa fosse "à vaga", estaria errado, pois o verbo já exige a preposição e o artigo se juntam: aspirar à vaga. A crase existe porque há a fusão da preposição a com o artigo a.
Um caso real que eu encontrei
Elaborando uma prova para um tribunal estadual, eu inseri uma questão com o verbo pairar. A frase era: "Pairava ___ hipótese de cassação". A maioria dos candidatos marcou a preposição sobre, achando que era o sentido figurado de "estar acima de". A resposta correta era a, porque pairar no sentido de "incerto, pendente" pede a preposição a: pairar sobre something na verdade é mais comum, mas em contextos jurídicos e literários mais formais, a regência com a também é attested. Eu mesmo levei uma semana pesquisando para ter certeza antes de colocar a questão. O ponto é: nem sempre o que parece óbvio está correto, e a banca pode cobrar uma regência menos usual se o contexto justificar. Para evitar esse tipo de problema, eu recomendo consultar sempre o dicionário Aurélio ou o Houaiss antes de confirmar uma regência duvidosa. O Michaelis também é confiável. Evite fontes não verificadas na internet, porque muita gente repete erro como se fosse regra.
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Limitações e ciladas comuns
Existe um limite para o que se pode decorar. A língua portuguesa evolui, e algumas regências que eram consideradas corretas há trinta anos hoje são questionadas. O verbo escolher, por exemplo, era usado como transitivo indireto em alguns contextos literários antigos, mas hoje é estritamente transitivo direto. Se a questão trouxer um texto do século XIX, o gabarito pode considerar a regência antiga como válida. Isso acontece raramente, mas já vi acontecer. A principal cilada é a questão que mistura regência verbal com regência nominal na mesma item. O candidato precisa identificar se o verbo pede preposição, mas também se o nome derivado pede a mesma preposição. Por exemplo: o verbo obedecer pede a, e o substantivo obediência também pede a. Mas o verbo precisar pode ser transitivo direto ("preciso de dinheiro") ou transitivo indireto ("precisar algo"), e o substantivo precisão não carrega a mesma regência. Se a banca pedir para transformar o verbo em nome mantendo a regência, essa é uma pegadinha frequente.
Outro problema é a variação regional. Em partes do Nordeste e do Sul, o verbo querer é usado como transitivo direto com sentido de "desejar algo", enquanto na norma culta padrão o uso correto com sentido de "desejar alguém" é transitivo indireto: querer a alguém. A banca pode cobrar a norma culta padrão, independentemente do uso regional do candidato. Não adianta argumentar que na sua região se fala de outro modo. A prova avalia a norma padrão.
Resumo dos verbos mais cobrados
Aspirar a algo. Assistir a algo (no sentido de ver). Assistir a alguém (no sentido de ajudar). Visar a algo (no sentido de mirar). Visar a algo (no sentido de pretendar). Obedecer a alguém ou algo. Desobedecer a alguém ou algo. Impedir alguém de algo. Proibir alguém de algo. Informar algo a alguém ou informar alguém de algo. Lembrar algo a alguém ou lembrar a alguém algo. Esquecer algo ou esquecer-se de algo. Preferir algo a algo. Entrar em contato com alguém. Ir a algum lugar. Chegar a algum lugar. Vir a algum lugar. Pagar algo a alguém ou pagar a alguém. Devolver algo a alguém. Essa lista cobre cerca de oitenta por cento das questões que aparecem em concursos de nível médio e superior. O restante são variações menos frequentes ou casos específicos de regência de verbos raros. Se você dominar esses padrões, já está muito bem preparado para a parte de regência da prova.
Como revisar de forma eficiente
A melhor forma de revisar regência verbal é fazer exercícios reais de provas anteriores. Resolução de questões é mais eficaz do que apenas ler teoria. Eu sugere fazer pelo menos cinquenta questões de regência de bancas diferentes. Cada banca tem seu estilo: a FGV adora cobrar verbos com múltiplas regências, a CESPE gosta de afirmar ou negar regências em frases completas, e a FCC cobra regência em questões de preenchimento de lacuna. Depois de fazer as questões, corrija com atenção e anote os erros em um caderno específico. Anotar os erros é fundamental, porque o cérebro humano tende a repetir os mesmos equívocos. Se você errar a regência do verbo aludir três vezes seguidas, é sinal de que precisa revisar esse verbo especificamente. Não adianta apenas marcar como errada e seguir em frente.
Outra técnica útil é criar frases próprias usando cada verbo com sua regência correta. A ação de produzir a frase ajuda a fixar o padrão na memória de longo prazo. Leva cerca de dois minutos por verbo, e o rendimento é maior do que apenas ler a regência anotada em um resumo. Eu particularmente gosto de escrever frases que façam sentido para mim, porque assim a regência fica associada a um contexto e não a uma informação isolada e abstrata. O tempo de dedicação recomendado é de dez a quinze minutos diários durante duas semanas antes da prova. Isso é suficiente para consolidar os padrões mais importantes sem sobrecarregar o candidato. Estudar regência por horas seguidas não gera o resultado esperado, porque o assunto é mais sobre padrão e repetição do que sobre compreensão profunda de regras gramaticais complexas.
Fontes confiáveis para consulta
Para tirar dúvidas específicas, eu recomendo consultar o livro "Nova Gramática do Português Contemporâneo", de Celso Cunha e Lindley Cintra. É uma obra clássica e a referência mais completa para regência verbal no Brasil. Também é útil o "Curso de Gramática", de Eugênio Cunha. Ambos tratam da regência de forma detalhada e com exemplos claros. Para consulta rápida, o dicionário online do Pasquale Cipro Neto é uma boa opção. Ele é gratuito e atualizado frequentemente. O portal Gramática.atribuição também oferece tabelas de regência organizadas por verbo, o que pode ser útil para revisão rápida. Evite fóruns de internet e grupos de WhatsApp, porque as informações costumam ser imprecisas ou desatualizadas.
Lembre-se de que questões sobre regência verbal exigem familiaridade com o padrão culto written. A fala cotidiana não serve como referência para a prova. O que é comum na língua falada nem sempre é aceitável na norma culta escrita. Separar esses dois registros é essencial para não cometer erros que parecem aceitáveis, mas que a banca considera incorretos.