Relevo Do Continente Africano - Sobre o relevo do continente africano é CORRETO afirmar que: A- Seu ...
Sobre o relevo do continente africano é CORRETO afirmar que: A- Seu ...

O que você precisa saber antes de abrir qualquer mapa do relevo africano

A maioria dos materiais que eu vejo por aí trata o relevo do continente africano como se fosse uma lista de biomas e altitudes soltas, mas a realidade é muito mais complicada do que isso. África não tem um padrão topográfico único. Ela é gigante e fragmentada, e o relevo muda drasticamente de região para região com base em processos geológicos que aconteceram em épocas completamente diferentes.

Entendendo o relevo do continente africano na prática

O continente africano é essencialmente uma sequência de escudos cristalinos antigos cobertos por bacias sedimentares, com uma cadeia de riftes cortando quase tudo pela metade. Quando você trabalha com dados de elevação da África, a primeira coisa que percebe é que os modelos digitais de elevação (MDEs) têm qualidade extremamente irregular. No norte, perto do Saara, você tem dados LiDAR e SRTM razoavelmente bons. Nas regiões centrais da bacia do Congo e no sopé do Atlântico, os dados são frequentemente incompletos ou interpolados de forma grosseira. Eu cheguei a precisar mapear corridas de escoamento superficial em uma área entre a Tanzânia e Moçambique e descobri que o SRTM da NASA tinha uma resolução de 90 metros, mas a interpolacao era tão ruim que rios que existiam no terreno simplesmente não apareciam no modelo. O que eu fiz foi cruzar com dados do ALOS PALSAR, que tem resolução de 25 metros naquela região, e corrigir manualmente os trechos onde o fluxo não batia com a drenagem real. Isso me custou duas semanas extras de trabalho.

O relevo do continente africano se divide em algumas estruturas principais que todo mundo conhece, mas raramente entendem direito. Temos os planaltos do Escudo Africano, que formam o base mais antiga do continente com mais de 1 bilhão de anos, compostos de gnaisse, granito e xiste. Essas formações compõem grande parte do sul e leste africano, com altitudes médias entre 1.000 e 2.000 metros, mas com picos isolados que ultrapassam 4.000 metros, como o Monte Kilimanjaro e o Monte Quênia, que são vulcões jovens nascidos sobre aquela base antiga. Depois vem a Falha do Rift Oriental, que é a estrutura mais importante topograficamente e geologicamente. O vale do Rift separa a placa Somali da placa Nubiana e cria uma zona de relevos dramáticos com falésias, montanhas vulcânicas e lagos profundos. A altitude varia brutalmente ali, de vales a 100 metros abaixo do nível do mar no Lago Assal, até picos acima de 5.000 metros. Se você estiver planejando qualquer tipo de análise hidrológica ou de engenharia nessa faixa, os dados de elevação são ainda mais problemáticos porque o relevo é extremamente irregular e os modelos tendem a suavizar demais os declives.

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As grandes bacias sedimentares ocupam o centro e o noroeste do continente. A bacia do Congo é a maior delas, com espessuras de sedimentos que chegam a vários quilômetros, e o relevo ali é predominantemente suave, com formas arredondadas e baixa declividade. Já as bacias do Norte, ligadas ao deserto do Saara e ao Sahel, têm um padrão de hamada e reg, com planícies pedregosas e leitos de rios efêmeros que só aparecem em certas épocas do ano. Modelos de elevação convencionais praticamente ignoram essas áreas porque a cobertura vegetal é quase nula e o sensoriamento remoto por radar tem dificuldade com solos extremamente secos e claros. As planícies costeiras formam uma faixa estreita ao redor de grande parte do litoral africano, mas com exceções importantes. A costa sul da África, especialmente na região do Cabo, tem relevos mais acidentados com escarpas que descem diretamente para o oceano. Já a costa leste, do Quênia até a Namíbia, possui planícies mais largas e baixas. No noroeste, o Atlas marroquino e argelino introduz um sistema montanhoso jovem, de origem alpina, que é completamente diferente do resto do continente e segue a mesma lógica de formação dos Alpes e dos Cáucos.

Dados e ferramentas para trabalhar com o relevo africano

Para quem precisa baixar dados topográficos confiáveis, a melhor opção gratuita continua sendo o SRTM, disponível pelo USGS Earth Explorer ou pelo site do CGIAR. Mas se você trabalha com precisão real, o ALOS PALSAR ou o Copernicus DEM são alternativas melhores, especialmente para a região do rift e para a bacia do Congo. O Copernicus DEM tem resolução de 30 metros e cobre todo o continente de forma mais consistente do que o SRTM. Se o seu trabalho envolve modelagem hidrológica ou deslizamentos, eu recomendo usar o QGIS com o plugin SAGA Hydrology para extrair redes de drenagem a partir dos MDEs. O processo costuma levar entre 15 e 40 minutos dependendo da resolução e da extensão da área, enquanto manualmente você levaria horas sem obter resultado tão limpo. O problema é que mesmo com essas ferramentas, a qualidade final depende inteiramente da qualidade do dado de entrada, e em muitas partes da África central e ocidental os dados simplesmente não existem com boa resolução.

Um detalhe que poucos mencionam: a altitude média da África é de cerca de 700 metros, o que a torna o segundo continente mais elevado depois da Antártida, mas essa média esconde uma diversidade enorme. Regiões como o Chade e partes do Saara estão abaixo de 500 metros, enquanto Etiópia e Etiópia Oriental ultrapassam facilmente 2.000 metros em vastas extensões. Tratar o relevo africano como homogêneo é um erro comum que gera análises completamente distorcidas. A outra armadilha é assumir que o relevo define o clima. Em partes da África oriental, por exemplo, áreas de alta altitude ficam mais próximas do Equador e por isso têm climas temperados apesar da latitude, enquanto vales profundos do rift podem ser extremamente quentes e secos mesmo em latitudes moderadas. O relevo influencia a distribuição de chuvas de forma diretamente oposta ao que se espera em outros continentes devido à interação com os ventos alísios e a correntes oceânicas.

Se você está começando agora com isso, não vá direto para softwares complexos. Baixe um MDE do Copernicus para uma área pequena e conhecida, como a região de Addis Abeba ou Nairobi, processe e compare com imagens de satélite atuais para validar. Isso leva uma tarde e evita que você repita erros que eu levei anos para aprender a evitar.