Relevo Escarpado - -Treviso (SC): Aspecto do relevo escarpado e recoberto por floresta na ...
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Processando relevo escarpado em SIG: o que funciona quando os modelos tradicionais falham

A maioria dos manuais de geoprocessamento trata o relevo escarpado como um problema secundário. Na prática, ele é onde a maior parte dos dados de elevação se desfaz. Cálculos de fluxo, acumulação e modelagem hidrológica entram em colapso em encostas com mais de 35 graus de inclinação, e a literatura raramente explica o porquê de forma direta. O problema começa com a resolução do modelo digital de elevação. Um MDE com célula de 30 metros no INPE ou no SRTM funciona razoavelmente bem em terrenos suaves. Em relevo escarpado, essa mesma célula pode abranger uma variação vertical de 40 a 80 metros dentro dela própria. O resultado é um terreno que parece suave nos dados mas é uma parede na realidade. Você não consegue confiar em nenhum fluxo calculado nesse contexto sem tratamento prévio.

Configurando o relevo escarpado para análise

O passo inicial é escolher a fonte de elevação certa. O ALOS World 3D de 30m é melhor que o SRTM em cobertura vegetal densa, mas ainda assim sofre com artefatos de sombreamento em vertentes íngremes. Se o orçamento permitir, o LiDAR aéreo com resolução inferior a 1 metro resolve o problema na raiz. Quando não é possível, o caminho é trabalhar com o que existe aplicando filtros específicos. A primeira edição que eu faço é corrigir os vales secos. Dados ópticos e radar frequentemente geram linhas de drenagem artificiais em encostas íngremes porque a sombra do sensor cria falsos negativos de elevação. Eu uso uma combinação de despiste de depressões com suavização direcional, direcionando o filtro ao longo da curva de nível e não no plano horizontal. Isso preserva cristas ees enquanto reconstrói a drenagem.

Um problema específico que encontrei foi em uma bacia nos Campos de Jordão, SP. O MDE original mostrava um vale central com padrão dendrítico perfeito, mas quando sobrepujei com fotos aéreas de 2018, percebi que o "vale" era um artefato de sombra do sensor no lado de sotavento de uma crista. O fluxo modelado apontava para um ponto que no terreno era apenas uma encosta de 50 graus. A solução foi identificar os pixels com ângulo de incidência superior a 60 graus e interpolar a partir dos vizinhos de barlavento usando krigagem com variograma anisotrópico orientado pelo declive. Depois da correção do MDE, o cálculo de fluxo exige parâmetros diferentes. O método D8 padrão do ArcGIS ou do QGIS superestima a acumulação em encostas íngremes porque força toda a água para uma única direção de maior declive. O D8pi ou o MFD (Multi-Flow Direction) do TauDEM distribuem o fluxo entre múltiplos vizinhos e produzem resultados mais realistas. Em relevo escarpado, a diferença entre usar D8 e MFD pode mudar completamente o traçado da rede de drenagem calculada.

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O erro que todo mundo comete com declividade

A armadilha mais comum é aplicar threshold de acumulação de fluxo iguais para todos os tipos de terreno. Um valor de 1000 células para definir curso d'água em planície funciona. O mesmo valor em relevo escarpado gera milhares de linhas de drenagem fantasmas. A regra prática que eu uso é ajustar o threshold proporcionalmente ao gradiente: quanto maior a declividade média da bacia, maior o threshold precisa ser. Em bacias com declividade média acima de 25 graus, eu dobro ou triplico o threshold padrão antes de fazer qualquer extração. Outro detalhe que poucos mencionam é o efeito de borda. Em terrenos muito acidentados, as bordas do MDE frequentemente contêm pixels com declividade máxima teórica (45 graus ou mais) que são apenas artefatos de corte da faixa de dados. Ignorar isso gera acúmulos de fluxo a borda que não existem no terreno real. A solução é aplicar um buffer de 3 a 5 células nas bordas com valores de no-break antes de processar, e depois recortar o resultado final.

Para visualização em relevo escarpado, o hillshade simples do QGIS geralmente deixa o terreno ilegível. O truque é combinar duas incidências de luz: uma em 315 graus (noroeste) com elevação de 45 graus para a estrutura geral, e outra em 135 graus com elevação de 20 graus para preencher as sombras profundas dos vales. A sobreposição com blend multiply ou overlay deixa o terreno legível sem perder o contraste das vertentes mais íngremes. O custo disso tudo é tempo de processamento. Métodos MFD e correções anisotrópicas podem levar de 3 a 8 horas em áreas de 500 km² com MDE de 30m, dependendo da máquina. Se o prazo for apertado, o D8 com threshold elevado e correção manual dos artefatos mais óbvios é o atalho que eu uso quando não dá para esperar. Funciona em 80% dos casos, mas você perde precisão na definição de divisores de terra.

Se o seu objetivo é mapeamento de risco de deslizamento em relevo escarpado, considere que os modelos baseados apenas em declividade falham consistentemente. A litologia e a espessura do solo são tão determinantes quanto o ângulo de encosta. Dados geológicos regionais e índices de umidade do terreno (TWI calculado corretamente) fazem mais diferença que qualquer refinamento do MDE. Eu já vi mapas de susceptibilidade que ignoraram isso e mapearam encostas de 15 graus como alta risco simplesmente porque o solo era raso, enquanto passaram por alto setores de 40 graus com colúvio espesso que eram estabilizados. A fonte de dados gratuita mais confiável atualmente para o Brasil é o DEM Global do UFG com resolução de 30m, derivado do SRTM com correções topográficas. Para áreas críticas onde a precisão importa, o Projeto RADAMBRASIL ainda oferece dados de qualidade superior para diversas regiões, principalmente nas coberturas terrestre e terrestre com interpolação a partir de curvas de nível originais.