A História Real por Trás do Filme
O filme Nise: O Coração da Loucura, lançado em 2019 e dirigido por Rosemberg Carvalho, acompanha a trajetória da psiquiatra Nise da Silveira no Hospital Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. A trama se passa entre as décadas de 1940 e 1950, quando a psiquiatria brasileira ainda era dominada por práticas como eletrochoque, insulina em choque e lobotomia como tratamento padrão. O papel de Nise é desempenhado por Alice Braga.
Resumo do filme Nise o coração da loucura
Nise chega ao Engenho de Dentro com uma ideia simples mas revolucionária na época: os pacientes não precisam apenas ser contidos ou tratados com drogas agressivas. Ela percebe que, ao dar materiais artísticos aos internos — tintas, pincéis, argila —, consegue acesso a um canal de comunicação que a palavra não alcança. Os primeiros pacientes são céticos, até porque na prática clínica ela enfrentou resistência imediata da diretoria do hospital. Um caso específico foi o do paciente conhecido como "João Boneca", um homem que havia sido internado por dez anos sem emitir uma única palavra e que começou a esculpir peças em madeira usando apenas uma faca, algo que Nise documentou com atenção meticulosa. O governo de Getúlio Vargas, através de Lourival Fontes, interveio na instituição. Nise foi afastada do cargo de diretora e seu trabalho foi desmantelado sistematicamente. O filme mostra isso de forma cru, sem romantizar. Ela acabou sendo obrigada a deixar o Engenho de Dentro, mas levou consigo grande parte do acervo de arte produzida pelos pacientes, que seria posteriormente a base do que hoje é o Museu de Imagens do Inconsciente, mantido pela Fundação Nise da Silveira no Rio.
A questão central do filme não é a arte como terapia ocupacional qualquer. É a afirmação de que o sofrimento mental pode ter linguagem própria. Enquanto a psiquiatria ortodoxa da época via delírio como sintoma a ser suprimido, Nise via como conteúdo a ser compreendido. Isso fez toda a diferença nos resultados práticos que ela observava no dia a dia.
O Que o Filme Mostra Sobre a Prática Clínica
O ponto mais importante que vale a pena notar é a tensão entre a abordagem humanizada e o modelo biomédico que predominava. Nise se recusava a usar eletrochoque rotineiramente, e isso gerava atrito com colegas e superiores. Ela documentava as obras produzidas, catalogava, expunha. O movimento dos primeiros museus de arte branqui, como o termo que ela cunhou era chamado, tinha um viés antipsicapatrização que beirava o radical para os padrões da época. Uma coisa que o filme não enfatiza suficientemente, mas que os registros históricos mostram com clareza, é a quantidade de pacientes que foram reinternados repetidamente antes de findarem estabilizados pelo trabalho terapêutico com arte. A arte não era solução mágica. Era uma ferramenta. O tempo médio de resposta variava muito — alguns pacientes mostravam interesse inicial nas primeiras sessões, outros levavam meses até sequer tocar em uma tinta. Houve relatos documentados de pacientes que permaneciam completamente estáticos diante dos materiais durante semanas, e essa resistência era tratada como informação clínica, não como fracasso do método.
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Outro aspecto relevante é a representação das condições de trabalho no hospital. O Engenho de Dentro tinha milhares de internos, recursos escassos, superlotação crônica. Nise montou sua ala experimental praticamente com materiais improvisados. Isso não é dramatização — os documentos da época confirmam que ela pedia doações, usava restos de ateliê, fazia contatos com artistas locais para conseguir suprimentos. A logística era precária e isso afetava diretamente a continuidade do tratamento.
Pontos Fortes e Fracos do Filme
O filme funciona bem como introdução ao tema. Alice Braga entrega uma interpretação contida, sem gestos excessivos, o que combina com a personagem histórica. As cenas de arte são registradas de forma respeitosa, sem transformar os pacientes em coadjuvantes de um processo artístico qualquer. A trilha sonora, de Antonio Naccache, é discreta e cumpre seu papel sem dominar as cenas. No entanto, há limitações evidentes. A narração é bastante linear e focada majoritariamente no conflito institucional de Nise com a direção do hospital e com os órgãos de saúde pública da época. Isso deixa de lado aspectos importantes da trajetória dela, como suas relações com teóricos da psicanálise, seu diálogo com a cultura popular e os movimentos de reforma psiquiátrica que se desenvolveram após sua morte. A figura de Paulo Madeira, interpretado por Selton Mello, tem peso narrativo mas sua relação com Nise é simplificada para fins dramáticos. Na realidade, as dinâmicas entre os profissionais da época eram muito mais complexas e fragmentadas do que o filme retrata.
A cena que mostra a exposição de arte no Palácio do Catete também traz uma liberdade criativa considerável. A imprensa da época registra que exposições foram realizadas, mas a sequência filmada consolida eventos que aconteceram em momentos distintos em uma única cena dramática. Para fins educativos, isso funciona, mas quem quiser se aprofundar precisa consultar fontes primárias.
Por Que Assistir
O resumo do filme Nise o coração da loucura aponta para algo essencial: a obra cinemática funciona como porta de entrada para discutir um dos capítulos mais importantes da história da saúde mental no Brasil. Nise da Silveira foi contemporânea de nomes como Franco Basaglia na Itália e R.D. Laing no Reino Unido, mas desenvolveu seu trabalho em condições materialmente muito mais precárias e sob um regime político que não favorecia críticas institucionais. O fato de ter sobrevivido e deixado legado institucional é, em si, um dado significativo. Para quem trabalha ou estuda na área de saúde mental, o filme oferece reflexões concretas sobre vigilância, autonomia e o risco de reduzir o sujeito à doença. Para o público geral, é um documento histórico acessível que mostra como mudanças paradigmas acontecem, geralmente a custo pessoal alto para quem os propõe.
O Museu de Imagens do Inconsciente permanece aberto no Rio de Janeiro e recebe visitas com mediação educacional. As obras expostas lá são as mesmas que o filme trata como fundamento da prática de Nise. A diferença é que, no museu, elas não precisam de roteiro nem de legenda — falam por si mesmas.