A questão da crase em períodos com dias da semana
O assunto de crase sempre gera discussão em qualquer fórum de português, e o caso dos dias da semana é um dos que mais confusão causa. A regra básica diz que crase ocorre na fusão da preposição "a" com o artigo definido feminino "a". Quando falamos de "segunda a sexta", a coisa complica porque depende de como você enxerga esses substantivos.
segunda a sexta tem crase ou não tem?
A forma mais aceita e predominante no Brasil é "de segunda a sexta", sem crase. O motivo é simples: quando os dias da semana aparecem isolados, sem o substantivo "feira" depois, eles funcionam como advérbios de tempo, e advérbios de tempo não admitem artigo definido. Sem artigo, não há o que fundir com a preposição. Nesse sentido, a preposição "a" que aparece em "de segunda a sexta" é apenas uma preposição de deslocamento temporal, não um artigo. Porém, existe a outra vertente. Se você escrever "de segunda à sexta", está implicitamente entendendo "segunda-feira" e "sexta-feira" como substantivos femininos, e aí sim a regra do artigo se aplica. A crase apareceria porque teríamos a preposição "a" (de "refiro-me") mais o artigo "a" que acompanha "sexta-feira". Gramáticos como Celso Pedro Luft e Bechara reconhecem essa possibilidade em contextos mais formais, mas na prática editorial brasileira a versão sem crase é majoritária.
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Na minha experiência revisando contratos e manuais técnicos, encontrei um problema específico que vale mencionar. Tínhamos um contrato que dizia "as entregas ocorrerão de segunda à sexta das 8h às 17h". O cliente insistia na crase em "à sexta" mas não punha crase em "às 17h". Quando questionei, a justificativa foi que "sexta" era feminino mas "horário" era masculino por padrão. A análise técnica mostrou inconsistência: se "sexta" merece artigo por ser feminino, então "segunda" também merece, e o correto seria "de segunda à sexta" com crase nos dois. Mas se a intenção era tratar como advérbio de tempo, não deveria ter crase em nenhum dos dois. A solução que adoptámos foi padronizar tudo sem crase: "de segunda a sexta das 8h às 17h". Essa consistência interna resolveu a objeção do revisor jurídico. O que poucos sabem é que a regência do verbo influi directamente na decisão. Se o verbo exige preposição "a" — como "chegar", "voltar", "referir-se" — e o complemento é um dia da semana, aí sim a crase pode ser legítima. Exemplo: "A loja funciona de segunda a sexta" versus "Voltaremos à segunda-feira". No segundo caso, a crase é inevitável porque "segunda-feira" é um substantivo feminino explícito. O erro comum é aplicar o mesmo tratamento aos dois casos sem distinguir se o dia aparece sozinho ou acompanhado de "feira".
Outro ponto que merece atenção: a expressão "às segundas" e "às sextas" (no plural) quase sempre leva crase porque aqui estamos falando de recorrência, e o artigo definido é natural. "Reuniões às segundas-feiras" também. A diferença está na generalização versus na especificação temporal. Quando você diz "trabalho de segunda a sexta", está delimitando um intervalo. Quando diz "trabalho às segundas", está indicando frequência. São estruturas diferentes com regras diferentes. Na prática, se você estiver num documento formal e quiser evitar qualquer contestação, a recomendação é usar "de segunda a sexta" sem crase. É a forma mais segura, mais comum e amplamente aceite pela maioria dos manuais de redação institucional. A versão com crase existe, mas coloca você numa zona onde o corrector pode questionar, especialmente se o texto tiver outras construções que não sejam consistentes com essa escolha.
Também convém saber que em textos jornalísticos brasileiros a tendência é ainda mais rígida na rejeição da crase. Agências como a Agência Brasil e o guia de estilo do UOL indicam explicitamente "de segunda a sexta" como a forma preferencial. Isso não significa que a outra esteja gramaticalmente proibida, mas num ambiente profissional a uniformidade com a norma dominante reduz atritos desnecessários durante a revisão.