Segundo Gatti 2002 A Pesquisa É O Ato - 2002 - Décio Gatti Júnior - Apontamentos Sobre A Pesquisa Histórico ...
2002 - Décio Gatti Júnior - Apontamentos Sobre A Pesquisa Histórico ...

O que é e como funciona na prática

Segundo Gatti propôs em 2002 que a pesquisa não é um processo separado do ato de pesquisar em si — ela é o próprio ato. Isso parece simplista até você tentar aplicar isso num projeto real de campo, com sujeitos humanos, cronograma apertado e revisores exigindo rigor metodológico. A ideia central dele desloca a pesquisa de uma sequência linear (planejar, coletar, analisar, concluir) para uma postura contínua em que o pesquisador está sempre atuando, sempre produzindo conhecimento pela ação, não pela aplicação prévia de um método engessado. Isso muda completamente a forma como se conduz uma pesquisa qualitativa, principalmente se você trabalha com educação, políticas públicas ou pesquisas-ação. A diferença prática é que você não espera "coletar dados" para só então pensar. Você já está pensando enquanto observa, enquanto conversa, enquanto anotana caderno de campo. O registro, a reflexão e a ação acontecem simultaneamente.

segundo gatti 2002 a pesquisa é o ato

A expressão aparece em textos e artigos que discutem a produção do conhecimento científico sob essa ótica. Gatti argumenta que o pesquisador não é um espectador neutro que aplica técnicas, mas um agente envolvido desde o primeiro momento. O ato de pesquisar é, portanto, inseparável da experiência vivida. Isso tem implicações diretas na ética da pesquisa, na relação com os sujeitos e na própria escrita final. Na prática, isso significa que o diário de campo não é um anexo — é o instrumento principal. A reflexão durante a coleta não é luxo, é obrigatoriedade. E a análise não começa depois da coleta; ela começa quando você sai da rua e tenta entender o que acabou de acontecer.

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Encontrei esse conceito pela primeira vez enquanto orientava um mestrado em educação que envolvia acompanhamento de professores em escolas públicas. O problema era que o orientador antigo do estudante queria seguir o roteiro clássico: três meses de observação, dois de entrevista, um de codificação. O sujeito já estava exausto, com a escola em meio a reformas, e os professores recusavam as entrevistas gravadas porque "nunca tinham sido perguntados nada que fizesse sentido". Passei uma semanaGatti24—————— Isso não aparece em nenhum manual de metodologia tradicional. Manuais falam de triangulação, de validade, de fidedignidade. Gatti fala de algo mais incômodo: o pesquisador como parte constitutiva do fenômeno. Não é sobre eliminar viés, é sobre reconhecer que o viés é o ponto de partida, não o obstáculo a ser superado.

Um detalhe prático que pouca gente menciona: quando você adota essa postura, o processo de aprovação pelo CEP (Comitê de Ética em Pesquisa) fica mais complexo. Os pareceristas costumam pedir um protocolo rígido, com etapas definidas. Eu tive que escrever um procedimento específico onde eu pedia para incluir uma seção chamada "Reflexividade como Método", explicando que o diário reflexivo seria parte integrante da coleta de dados. Demorou três semanas para aprovar. Valeu a pena, mas prepare-se para isso. Há também um risco real de transformar tudo em subjetivismo puro. Já vi pesquisador usar Gatti como desculpa para não fazer Nenhuma sistematização, produzir um texto de 120 páginas sem nenhuma estrutura analítica e chamar de "pesquisa-ação". Isso não é pesquisa. É diário sem direção. O truque é manter a reflexividade SEM perder o rigor. Como? Anotando explicitamente cada decisão metodológica no diário, justificando por que certas questões foram feitas e outras ignoradas, e devolvendo os achados preliminares para os sujeitos na forma de rodas de conversa. Isso é o que Gatti chamaria de "pesquisa como ato coletivo", não como autoexpressão.

Outra coisa que ninguém conta: a análise de dados nesse modelo não usa software de qualitative como NVivo da mesma forma. O software ajuda, sim, mas o trabalho pesado é feito nas entrelinhas do diário. Eu desenvolvi o hábito de reler todas as notas de campo antes de cada nova saída de campo, sublinhando com cores diferentes o que era observação, o que era interpretação minha, e o que era fala do outro. Isso separa camadas que o software nunca consegue distinguir. Leva mais tempo no início, mas economiza semanas de retrabalho depois. Se você está começando agora, recomendo ler Gatti diretamente, mas também buscar obras de autores como José Carlos Libâneo e Maria Malta Campos, que aplicaram essas ideias no contexto brasileiro da pesquisa educacional. O caminho não é fácil, e muitos pesquisadores formados em tradições positivistas levam de seis meses a um ano para se adaptar de verdade à postura de "pesquisa como ato". Mas depois que funciona, a pesquisa deixa de ser uma tarefa alienante e passa a ter sentido — o que, ironicamente, é exatamente o que Gatti pretendia.