O problema que ninguém resolve direito: semi nova ou seminova
A dúvida aparece sempre da mesma forma. Alguém posta um anúncio de carro, ou de eletrônico, ou de móvel, e fica na dúvida se escreve com espaço ou junto. O tema é simples na teoria, mas na prática ganha nuances que a maioria dos dicionários não esclarece de forma direta. Vou explicar do jeito que funciona de verdade, porque a regra do Acordo Ortográfico deixou brechas que todo mundo interpreta de um lado.
Quando escrever semi nova (separado) e seminova (junto)
A regra oficial diz que o prefixo "semi-" se grafava com hífen em todas as ocasiões antes do Acordo de 1990. Depois do acordo, a coisa mudou e agora depende se há ou não fusão lexical. A parte que as pessoas pulam é entender o critério de fusão. Quando "semi-" significa literalmente "metade", "parcial", "incompleto" de forma descritiva e não consolidada, mantém-se separado: semi nova, semi aberto, semi transparente. Quando o termo já entrou no uso comum como um conceito único, funde-se: seminova, semicírculo, semidesportivo.
O problema é que "seminovo" está nessa zona cinzenta. Na prática, o termo se consolidou no português brasileiro para designar algo que está em ótimo estado mas não é novo — principalmente no mercado de usados. Por isso, a forma junta seminova é a mais aceita e mais usada hoje em dia, tanto em dicionários quanto em veículos de imprensa. Se você escreve "um produto semi novo", está tecnicamente correto segundo a lógica da separação, mas soa estranho para a maioria dos leitores. Já "produto seminovo" soa natural e é o padrão do mercado.
A regra prática que eu uso no dia a dia
Eu trabalho com redações e revisões, então todo dia vejo essa dúvida acontecer. O caminho mais seguro que eu adotei é simples: use seminova (junto) quando estiver falando de produtos, veículos, imóveis ou qualquer item que está em estado intermediário entre novo e usado. Use separado (semi nova) apenas quando estiver descrevendo algo que está de fato na metade de um processo ou condição — por exemplo, "a obra ficou semi nova" não funciona porque aqui não se trata de um produto usado, mas sim de algo que foi parcialmente restaurado. Nesse caso, o sentido é diferente e a separação faz mais sentido. Outro ponto que as pessoas não consideram: o gênero e o número se aplicam ao adjetivo, não ao prefixo. Então é "veículos seminovos", "peças seminovas", "imóveis seminovos". O prefixo não varia, só a palavra principal.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Um caso específico que me deu trabalho
Recentemente revisei um catálogo de automóveis onde o anunciante usava "semi noves" em plural. Erro duplo: escrevia separado e ainda concordava de forma estranha. O correto seria "carros seminovos". A confusão principal ocorre porque muita gente acha que "semi" é um substantivo que pode pluralizar, quando na verdade é um prefixo invariável. Eu costumava corrigir isso mandando o texto de volta com a observação de que "semi" não varia e que o correto é o adjetivo após o prefixo que recebe a flexão. Outro caso que me pegou foi com "semi nova carga" num texto técnico sobre logística. Aqui, "semi nova" estava certo porque se tratava de uma carga parcialmente nova, ou seja, havia uma ideia de grau, não de categoria consolidada. Não era um produto seminovo do mercado de usados. A diferença é sutil, mas importante. Sem contexto claro, a tendência é errado — e os corretores automáticos quase sempre erram nesses casos porque não entendem o sentido.
O que os dicionários mais confiáveis dizem
O Houaiss registra "seminovo" como entrada consolidada. O Aurelio também traz a forma junta. O Michaelis segue a mesma linha. Ou seja, do ponto de vista normativo, a forma seminova é a predominantemente aceita. A forma separada não está necessariamente errada em todos os contextos, mas perde força quando se trata do uso consolidado no Brasil. Existe ainda a forma com hífen, "semi-novo", que alguns manuais ainda citam como variante aceitável, mas que caiu em desuso após o acordo. Não recomendo usá-la se o objetivo for seguir a norma corrente.
Erros comuns que eu vejo toda hora
Além do "semi noves" que mencionei, tem o erro de tratar "seminova" como substantivo. "Vendemos seminovas" — errado. O correto é "vendemos veículos seminovos". "Seminova" não pode funcionar como substantivo sozinho no português padrão. Outro erro frequente é trocar a ordem: "nova semi". Isso não existe. O prefixo sempre vem antes.
Também vejo gente escrever "sem nova" com espaço entre "sem" e "nova", confundindo o prefixo com a preposição "sem". São coisas completamente diferentes. "Sem nova" significa "sem novidade", não tem nada a ver com o conceito de produto em estado intermediário.
Resumo prático
Na dúvida entre semi nova ou seminova, use seminova (junto) na grande maioria das situações, especialmente em textos comerciais, anúncios e descrições de produtos. Mantenha a forma separada apenas quando o sentido for claramente de "parcialmente" em um contexto que não remeta à categoria consolidada de usado com qualidade próxima de novo. E nunca, em hipótese alguma, flexione o prefixo.