Como identificar quando uma palavra está sendo usada no sentido próprio ou no figurado
Essa é uma daquelas coisas que todo mundo acha que domina e, na prática, erra com frequência. O conceito básico é simples, mas a aplicação real não segue sempre o padrão que ensinam nas escolas. Vou explicar do jeito que funciona de verdade, não da maneira como aparece em dicionários didáticos.
O que é sentido próprio e figurado das palavras na prática
Sentido próprio é quando a palavra designa exatamente aquilo que ela normalmente nomeia. Sentido figurado é quando ela é deslocada para outro domínio de significado. Parece óbvio até você se deparar com exemplos que não são tão claros assim. Aqui está algo que pouca gente menciona: o sentido próprio nem sempre é o primeiro registro no dicionário. As palavras frequentemente mudam com o tempo, e o que era originalmente figurado pode se tornar o uso padrão. "Pé de uma montanha" e "braço de uma cadeira" são exemplos clássicos de metáforas lexicalizadas que já estão no senso comum. Ninguém pensa que isso é figura de linguagem mais. É sentido próprio consolidado.
Já tive um problema bem específico com isso recentemente. Estava revisando um texto técnico onde o autor usava "nó" referindo-se a pontos de congestão em redes de computador. Alguns avaliadores apontaram como uso figurado inadequado em um documento técnico. A questão é que "nó" em teoria dos grafos e redes já é terminologia estabelecida. Não é metáfora, é termos técnicos convencionados pela área. O que eu fiz foi consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e dicionários técnicos de computação, comprovando que o uso já é convencionalizado na área. Documentos técnicas costumam aceitar esses neologismos sem questionamento quando há registro na literatura especializada. O truque que funciona na hora da análise é o teste da substituição literal. Se você pegar a palavra no contexto e tentar substituí-la pelo seu significado original sem destruir a frase, provavelmente está diante de sentido figurado. Se a substituição funcionar ou a frase precisar ser reformulada por completo para manter o sentido, aí você tem sentido próprio.
Outra dica prática que serve para a maioria dos casos: o sentido figurado quase sempre depende do contexto imediato. A mesma palavra pode estar em sentido próprio numa frase e figurado na outra. "Ele tem um coração mole" versus "Coração é um órgão muscular". A diferença não está na palavra, está na construção em torno dela.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Erros comuns que todo mundo comete
O primeiro erro é assumir que todo uso não literal é figurado. Existem categorias intermediárias. A metonímia, por exemplo, troca o nome de algo por outro que está relacionado a ele de forma contígua, não por semelhança. "Li Machado de Assis" significa ler as obras dele, não a pessoa física. Isso não é sentido figurado no sentido estrito, é uma figura de linguagem diferente com regras próprias. O segundo erro é tratar sentido próprio como fixo e imutável. Dicionários de referência listam os sentidos em ordem cronológica ou de frequência, mas essa ordenação varia conforme a obra. O sentido mais frequente hoje nem sempre é o original historicamente. "Animal" vinha de "animus" (alma, sopro vital) e só depois passou a designar seres vivos em geral. No português contemporâneo, o uso corrente é o próprio para a maioria dos falantes, mesmo que a origem etimológica fosse diferente.
O principal problema que vejo na prática é com palavras polyssemicas, aquelas que têm múltiplos sentidos convencionados. "Banco" pode ser instituição financeira, móvel, ou conjunto de peixes. Cada um desses usos é próprio dentro do seu domínio. Um texto sobre educação financeira usando "banco" para instituição não está empregando sentido figurado. Está usando o sentido próprio daquele campo semântico. O mesmo vale para "casa" como residência versus "casa" como estrutura governamental (Casa Civil, Casa da Moeda).
Como resolver caso de dúvida
Se você está analisando um texto e não tem certeza, o caminho mais seguro é verificar três coisas em sequência. Primeiro, consulte dois dicionários de referência: o Houaiss ou o Aurélio para o português brasileiro, e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se o texto for de tradição lusófona. Compare as definições listadas. Segundo, verifique o contexto imediato. A frase ao redor da palavra isolada quase sempre revela qual sentido está ativo. Terceiro, pergunte-se se aquele sentido é convencionalizado na área discursiva em questão. Textos jurídicos, médicos e técnicos criam campos de polissemia própria que não se sobrepõem ao uso cotidiano. O que esse método não faz bem é lidar com poesia e literatura literária. Nesses gêneros, o sentido figurado pode ser intencionalmente ambíguo ou abrir para múltiplas interpretações simultâneas. Nesse caso, a distinção entre próprio e figurado perde parte da utilidade analítica porque a ambiguidade é o efeito desejado. Não adianta forçar uma resposta única quando o autor construiu o verso propositalmente polissêmico.
Para fins de análise textual em contextos acadêmicos e profissionais, o importante é ser consistente na classificação e transparente sobre os critérios usados. Se há ambiguidade, anote-a. Forçar uma categorização binária onde ela não se aplica gera más análises, não boas análises. A regra final é mais simples do que parece: sentido próprio conecta a palavra ao seu referente convencional no contexto ativo; sentido figurado conecta a palavra a outro referente por meio de uma relação de semelhança, contiguidade ou outro tipo de transferência sistemática. O trabalho inteiro está em reconhecer qual relação está operando em cada caso concreto.