O que acontece quando o volume sanguíneo cai
Vou direto ao ponto porque isso não precisa de floreios. Choque hipovolêmico é quando o corpo perde sangue ou líquidos suficientes para o sistema cardiovascular não conseguir manter a perfusão dos órgãos. A fisiologia é simples, mas na prática ela é brutal e rápida. Os sinais iniciais são sutis. Taquicardia, pele fria e pegajosa, palidez, sede, ansiedade. Tudo isso aparece antes da pressão arterial cair. E esse é o erro que eu vejo todo dia: esperar a hipotensão chegar para começar a tratar. Quando a PA despenca, já se passou do ponto de não-retorno em muitos casos.
sinais e sintomas de choque hipovolêmico: o que observar na prática
A escala de classificação mais usada ainda é a da ATLS, dividindo em quatro classes baseado no volume perdido. Classe I: até 15% da volémia. O paciente pode não mostrar praticamente nada, apenas uma leve taquicardia. Classe II: 15 a 30%. Taquicardia mais marcada, ansiedade, pele fria, pulsação fina, diurese diminuída. Classe III: 30 a 40%. Hipotensão já aparece, confusão mental, taquipneia, pulso filiforme. Classe IV: acima de 40%. Colapso, pulso indetectável, parada iminente. O problema é que essa classificação funciona bem em adultos normais, mas falha completamente em idosos, quem usa betabloqueadores, ou crianças. Já vi um idoso de 78 anos com perda de 2 litros e frequência cardíaca de 78 batimentos porque estava em tratamento para hipertensão. A pressão estava baixa, a pele fria, os dedos marmóreos, mas o monitor não dava sinal de alerta. Sinais e sintomas de choque hipovolêmico nesse paciente estavam todos presentes exceto a taquicardia. Eu perdi tempo precioso achando que estava estável.
O workaround foi simples: parar de olhar o monitor e olhar o paciente. Tempo de reenchimento capilar, nível de consciência, diurese horária, lactato sérico. O lactato naquele momento estava em 5,2 mmol/L. Confirmei o choque imediatamente e comecei a reposição volêmica sem delay.
Como montar a avaliação rapidamente
Não precisa de protocolo complexo. Olha para o paciente e verifica essas cinco coisas em ordem: Primeiro, consciência. Um paciente confuso ou agitadinho já é sinal de hipoperfusão cerebral, mesmo com pressão normal. Segundo, pele: palidez, tempo de enchimento capilar maior que 3 segundos, extremidades frias. Terceiro, pulsos: periféricos fracos ou ausentes, diferença entre central e periférico amplificada. Quarto, diurese: cateter vesical se tiver acesso, ou avaliar umetria nos fraldas em recém-nascidos. Quinto, lactato e base deficit se tiver laboratório disponível.
Um detalhe importante que poucos mencionam: a frequência respiratória. Taquipneia é um dos primeiros sinais, muitas vezes antes da taquicardia evidente. Paciente respirando acima de 20-22 por minuto em contexto de perda sanguínea ou desidratação deve ser considerado choque até prova contrária.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Conduta imediata
Acesso venoso amplo, dois catéteres 14 ou 16 se possível. Soro fisiológico 0,9% ou cristalóide balanceado em bolus de 500 mL a 1 mL/kg em crianças, repetindo conforme resposta. Não adianta ficar calculando mililitros perfeitos antes de começar. O volume entra, a resposta é observada, e se não responder, transfusão. Hemoderivados entram quando a perda é maciça ou quando cristalóide em grandes volumes não sustenta a pressão. Proporção 1:1:1 de hemácias concentradas, plasma fresco congelado e plaquetas é o padrão atual para trauma com coagulopatia associada. Se não tiver hemoderivado disponível, cristalóide ainda é melhor que nada, mas entenda as limitações: diluição de fatores de coagulação, acidose hipercorômica, hipotermia.
Um erro comum que eu vejo: infundir grandes volumes de soro salino normal. O cloreto excessivo causa acidose metabólica hiperclorêmica que piora a função miocárdica e a coagulação. Cristalóides balanceados como Ringer lactato ou acetato são preferíveis nessa situação, especialmente em reposições prolongadas.
Quando o choque não melhora com volume
Se o paciente não responde à reposição volêmica, pare e pense. Pode ser sangramento ativo que precisa de controle cirúrgico ou embolização, pode ser tamponamento cardíaco, pneumotórax hipertensivo, ou lesão de vasos. Nenhum volume do mundo vai resolver se a torneira aberta estiver maior que o balde que enche. Em situações de sangramento ativo, transfusão hipotensiva é uma opção em alguns protocolos: manter pressão sistólica entre 80 e 90 mmHg até o controle cirúrgico. Isso evita diluir os fatores de coagulação e aumenta a pressão de perfusão de forma agressiva demais antes do sangramento ser contido. Não é para qualquer caso, mas em trauma hemorrágico pré-hospitalar e em centros com protocolo estabelecido tem evidência sólida de benefício.
Pontos cegos na avaliação
Uma coisa que aprendi na marra: o pulso radial pode estar presente mesmo em choque grave se o paciente for hipertensivo crônico. A pressão sistólica necessária para perfundir os membros pode ser significativamente mais alta. Nesses casos, depende-se muito mais de lactato, nível de consciência e sinais periféricos do que do monitor de pressão arterial. Medir pressão em paciente obeso ou com braço muito grosso também dá falsa sensação de segurança. Um manguito inadequado pode subestimar a hipertensão ou superestimar a hipotensão em vários pontos. Outro ponto: dor e hipovolemia se sobrepõem. Um paciente com fratura de fêmur vai ter dor intensa, taquicardia, sudorese. Pode ser difícil distinguir o quanto é choque do quanto é dor. O lactato ajuda a separar. Se estiver normal, a taquicardia provavelmente é de dor. Se elevado, há componente hipovolêmico real.
Isso não é tudo, mas cobre o essencial. O resto vem com experiência clínica e revisão de casos. Se tiver dúvida em um paciente real, não brinque com o tempo. Trate como choque até ter certeza do contrário.