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Skate nos anos 80: o que funcionava e o que não funcionava

O skate dos anos 80 foi marcado por uma transição brutal no Brasil. A gente cresceu vendo vídeos importados da Califórnia e tentava replicar o que via na TV, mas o chão aqui não era o mesmo. O concreto das praças era áspero, as calçadas tinham buracos que ninguém consertava, e a maioria dos decks que encontrávamos nas lojas eram de má qualidade. Eu comecei a andar em 1984, numa garagem velha que meu tio transformou em rampa caseira com tábuas de construção e um pouco de criatividade. Na época, encontrar peças originais era praticamente impossível. O que a gente usava vinha do Paraguai ou era construído caseiro mesmo. Tenho lembranças específicas de tentar montar um truck Bronson com peças brasileiras que não encaixavam direito, gastando horas ajustando parafusos que nunca ficavam firmes. A solução que encontrei foi trocar o parafuso padrão por um mais longo e colocar uma arruela grossa entre o truck e o deck. Funcionava, mas exigia ajuste constante.

O que realmente funcionava no skate dos anos 80

Os decks mais confiáveis eram os de maple canadense importado, como Venture, Blind e Santa Cruz. Mas a maioria das garagens brasi-leiras andava com decks nacionais, feitos de madeira nacional que inchava com a chuva e empenava rápido. O truque era deixar a prancha secar bem antes de usar e passar uma demão de verniz marítimo por baixo para proteger da umidade. Em relação aos trucks, os Bronson eram os mais resistentes, mas os de fibra também davam conta do recado. O problema é que os bushings de fibra desformavam muito rápido se você fosse pesado. Eu costumava trocar a cada dois meses, senão a board virava umaPanela na hora da manobra.

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Rodas de poliuretano puro eram duráveis demais e escorregavam muito. As rodas de uretano importadas, como a Dwindle ou a Zephyr, eram o sonho de consumo. Mas a realidade era rodar com o que tinha disponível. As rodas BR de São Paulo eram as mais comuns e, com o tempo, descobrimos que esfriá-las no freezer antes de skatar aumentava consideravelmente a aderência em superfícies lisas.

Dores e limitações que ninguém conta

Não vou fingir que o skate dos anos 80 no Brasil era fácil. As lesiones eram constantes, principalmente nos joelhos e no tornozelo. A falta de equipamento de proteção adequado fazia com que quedas simples resultassem em ferimentos sérios. Eu mesmo quebrei o punho direito em 1987 depois de uma queda feia numa rampa improvisada. Outro ponto importante é que a infraestrutura de skate era praticamente inexistente. As únicas opções eram praças, garagens e ramps caseiros. As praças públicas tendiam a ser monitores por outros usos, então a gente precisava ser criativo e encontrar ângulos que funcionassem.

Se você quisesse evoluir de verdade, o caminho era viajar para grandes centros como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde haviam spots melhores e uma comunidade mais ativa. Fora isso, a gente ficava isolado, sem referência técnica adequada. Hoje em dia, com a internet e os vídeos disponíveis, fica fácil criticar aquela geração. Mas a realidade era outra: a gente se virava com o que tinha e aprendia na prática, erro após erro. O skate dos anos 80 deixou uma marca importante porque foi onde muitos de nós começamos a entender o que significa ter paixão por algo mesmo quando tudo parece contra você.