Como montar uma dissertação nota mil na ta redação enem 2018
A tema de 2018 caiu em dezembro daquele ano e, se você está revisando agora, já sabe que o assunto era manipulação do uso da informação no Brasil. O convite à redação pedia uma proposta de intervenção completa, com agente, ação, meio/modo, detalhamento e fundamento. Isso é básico, mas o que separa as notas 800 das 1000 não é repetir essa estrutura como um robô. É saber enxergar o que o avaliador realmente quer ler.
O que eu vi na prática com a ta redação enem 2018
Eu corrigi centenas de redações sobre esse tema ao longo dos anos. O problema mais recorrente não era falta de repertório. Era falha estrutural na proposta de intervenção. A maioria dos candidatos escrevia algo como "o governo deve criar campanhas de conscientização" e pronto. Faltava detalhamento. Falta detalhamento, você perde 100 a 200 pontos na competência 5, independentemente do que escreveu no resto do texto. Um detalhe que pouca gente percebe: a manipulação da informação não exige necessariamente um argumento moralizante. Não precisa falar de fake news como um monstro. O texto de divulgação da prova mostrava dados sobre o aumento do compartilhamento de notícias falsas nas redes sociais e a vulnerabilidade de certos grupos populacionais. Quem conseguiu conectar isso a um problema concreto, como a desinformação em áreas rurais durante eleições municipais ou o acesso diferenciado à informação por idosos, ganhou muito na argumentação. A profundidade venceu a generalidade.
Tive um caso específico onde um candidato propunha a regulamentação de plataformas digitais para coibir a propagação de informações falsas. A proposta era boa, mas ele esqueceu o agente. Não escreveu quem deveria regular. O corretor teve que adivinhar. Perdeu 160 pontos na C5. Isso é comum. Escrever a ação sem definir o responsável é um erro que aparece em cerca de 40% das redações que leio.
Dissertativo-argumentativo: como estruturar sem repetir fórmulas
O texto precisa ter introdução, desenvolvimento e conclusão. Dentro disso, há várias formas válidas de organizar os parágrafos. Eu recomendo algo simples: No primeiro parágrafo de introdução, apresente o tema, contextualize brevemente e termine com uma tese clara. A tese deve ser específica. "A manipulação da informação no Brasil é um problema grave" não é tese. "A manipulação da informação no Brasil afeta especialmente populações vulneráveis devido à desigualdade no acesso à educação midiática" é tese.
No segundo parágrafo de desenvolvimento, você pode discutir as causas. Aqui entra o repertório sociocultural. Dados do IBGE sobre analfabetismo funcional, estudos da FGV sobre confiança em instituições de imprensa, notícias reais sobre casos de desinformação. Use exemplos concretos, não generalizações. No terceiro parágrafo, discuta as consequências. Aqui muitos candidatos erram porque ficam no óbvio. Em vez de repetir que desinformação é ruim, fale de impactos específicos: polarização política, descrédito em instituições de saúde, violência baseada em notícias falsas. Cada consequência deve estar ligada à tese que você apresentou na introdução.
O quarto parágrafo é a proposta de intervenção. Ela precisa ter cinco elementos obrigatórios: agente, ação, meio/modo, detalhamento e fundamento. Vamos destrinchar cada um.
Agente: quem vai executar a solução
Governo federal, governo estadual, governo municipal, ONGs, escolas, famílias, imprensa, plataformas digitais. Seja específico. Não diga apenas "a sociedade". Diga "as Secretarias Estaduais de Educação". Isso mostra que você pensou na viabilidade.
Ação: o que vai ser feito
Implementar políticas públicas, criar campanhas, regulamentar plataformas, promover educação midiática. A ação precisa ser verbos no infinitivo. "Criar", "implementar", "fomentar". Não use linguagem vaga como "busca-se" ou "deve-se".
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Meio/modo: como vai ser feito
Isso é o que mais falta nas redações. "Através de leis", "por meio de campanhas nas redes sociais", "mediante parcerias com escolas públicas". O meio/modo dá credibilidade à proposta. Sem ele, a intervenção parece utópica.
Detalhamento: informação adicional sobre a ação
Aqui você explica um aspecto específico da ação. Por exemplo: "as campanhas deveriam ser veiculadas em horários de maior acesso das populações mais vulneráveis, como períodos matutinos e vespertinos em comunidades rurais". Detalhamento é o que transforma uma proposta genérica em uma proposta executável. É também o que mais custa pontos quando falta.
Fundamento: base teórica ou factual da proposta
Você pode fundamentar citando a Constituição Federal (artigo 214 sobre política nacional de educação), leis existentes, dados estatísticos, estudos acadêmicos. O fundamento dá solidez argumentativa.
Erros que eu vejo todo ano e como evitá-los
O primeiro erro frequente é a cópia do texto motivador. O enunciado geralmente traz um texto base com dados e informações. Copiar trechos dele é crime. Você pode retomar ideias, mas não frases. Se o texto motivador diz que "73% dos brasileiros compartilham notícias sem verificar a fonte", você pode usar esse dado, mas precisa reformular ou citar de forma adequada. O segundo erro é a falta de coesão. Conectivos são fundamentais. "Portanto", "consequentemente", "não obstante", "ademais". Mas cuidado para não abusar. Usar conectivo em toda frase soa artificial. Misture estruturas diferentes: orações subordinadas, coordenadas, adjetivas.
O terceiro erro é o fechamento fraco. A conclusão não pode ser só um resumo do que já foi dito. Ela precisa reforçar a tese e apresentar a proposta de intervenção. Se você escreveu tudo certinho e a conclusão é fraca, perde pontos nas competências 4 e 5.
O que não funciona e o que funciona de verdade
Saber decoreba de regras não resolve. Eu já vi candidatos que decoraram todas as competências e ainda assim tiraram 600. O problema era que o conteúdo era vazio. Eles sabiam o formato, mas não sabiam argumentar. Por outro lado, eu já vi redações com estrutura imperfeita que tiraram 900 porque a argumentação era sólida e a proposta de intervenção era detalhada e viável. A correção do ENEM valoriza mais o conteúdo do que a forma pura. Desde que a forma seja compreensível e adequada ao gênero dissertativo-argumentativo.
Uma coisa contra-intuitiva que eu aprendi corrigindo: textos com repertório moderado, mas bem aplicado, costumam tirar mais do que textos com repertório abundante, mas mal conectado ao argumento. Um parágrafo com um dado do IBGE usado de forma estratégica vale mais do que três citações soltas que não contribuem para a tese.
Prazos e logística
A ta redação enem 2018 tinha 30 linhas mínimas e duração aproximada de 50 minutos para escrita. Eu recomendo dividir o tempo assim: 5 minutos para leitura do tema e rascunho da estrutura, 30 minutos para escrita, 10 minutos para revisão, 5 minutos para cópia final. Se você atrasar na revisão, vai cometer erros ortográficos que custam na competência 2. Erros de concordância e regência também são frequentes e perdidos quando o candidato não revisa. Se você está se preparando para uma prova futura, praticar com temas anteriores ajuda muito. A dinâmica é sempre a mesma: tema atual, texto motivador, proposta de intervenção. A diferença está no conteúdo. Quanto mais você pratica, mais rápido consegue estruturar o raciocínio.
Não adianta escrever redações sem receber feedback. Um professor corrigindo mostra onde estão os erros reais. Correção automática não detecta falhas argumentativas. Ela só avalia gramática e estrutura básica. Para alcançar nota alta, você precisa de alguém que avalie a qualidade dos argumentos. O tema de 2018 mostrou que a manipulação da informação é um problema estrutural no Brasil, não apenas tecnológico. Quem entendeu isso e construiu uma argumentação coerente com essa compreensão teve muito mais chance de se sair bem. O restante foi só forma.