Como abordar a redação do ENEM 2017
A proposta foi um tanto abstrata, o que costuma confundir quem está começando a treinar. O tema pedia que você discutisse os desafios para a manutenção e conquista da autonomia e independência intelectual do Brasil. O segredo aqui não é tentar abraçar o tema inteiro de uma vez só, mas recortá-lo em problemas concretos que permitam argumentação estruturada. Eu já vi candidato escrever 30 linhas sem jamais citar um problema real, só conceitos soltos flutuando no vácuo. Isso não funciona.
temas para enem 2017 — a proposta em si
O tema oficial era: "Desafios para a manutenção e a conquista da autonomia e da independência intelectual do Brasil". Note que ele não fala de autonomia econômica ou política. Foca especificamente no âmbito intelectual. Se você desviar para outro tipo de independência, a banca pode reprovar por fuga ao tema.
Entendendo o que a banca quer
"Autonomia intelectual" significa a capacidade do Brasil de pensar por si mesmo, de produzir conhecimento sem depender exclusivamente de referências estrangeiras. "Independência intelectual" vai nessa mesma linha, mas com um tom mais ativo: a conquista de um espaço próprio de produção cultural e científica. A palavra "desafios" indica que a redação precisa identificar obstáculos e propor intervenções. A estrutura padrão da dissertação-argumentativa pede isso: problema, análise, proposta. Um erro comum é tratar autonomia intelectual como se fosse só sobre cultura, arte ou literatura. Pode ser, mas também abrange ciência, tecnologia, educação, produção acadêmica, mídia. Eu conheço gente que ficou presa no argumento da "dependência cultural dos EUA" e esqueceu que precisava propor algo concreto no final. A proposta de intervenção é obrigatória, então deixe espaço para ela desde o início do rascunho.
Problemas recorrentes na hora de escrever
O principal desafio que eu observei na correção de milhares de redações é a superficialidade. O candidato identifica o problema como "o Brasil não produz tecnologia" e para aí. Não tem análise. Não tem dados. Não tem conexão com a tese. O texto fica no nível do senso comum, que a banca rebate facilmente. Outro ponto que todo mundo erra é a falta de repertório sociocultural legitimado. Citar um filósofo ou um dado estatístico que não faz parte do debate acadêmico ou jornalístico consolidado simplesmente não conta. Eu já vi gente citar "segundo estudos recentes", o que é vago e não agrega valor. Use fontes que possam ser verificadas, como dados do IBGE, relatórios da UNESCO, leis específicas, autores consagrados.
Eu particularmente tive dificuldade com um candidato que queria usar o conceito de "colonialismo cultural" de Theodoro Adorno, mas não dominava o conceito. Acabou usando de forma equivocada e o texto perdeu credibilidade. A lição é: se vai usar repertório, certifique-se de saber o que está dizendo. É melhor três frases bem fundamentadas do que dez citações soltas que não se conectam.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Como estruturar o texto na prática
Eu costumo recomendar a seguinte espinha dorsal, que funciona para esse tipo de tema: Na introdução, apresente a tese em uma frase clara. Algo como: "A manutenção da autonomia intelectual brasileira depende do enfrentamento de sérios desafios estruturais, especialmente na educação e na produção científica nacional." Isso delimita o campo de argumentação.
No desenvolvimento 1, discuta um dos desafios. Pode ser a dependência de manuais e teorias estrangeiras nas universidades brasileiras. Dê um exemplo concreto, como a predominância de obras de autores europeus nos cursos de filosofia e sociologia, em detrimento de pensadores brasileiros. Cite a lei 10.639/03 como contraponto que ainda não foi plenamente implementado. No desenvolvimento 2, apresente outro desafio ou uma consequência do primeiro. A falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento é um ângulo válido. Dados do CNPq mostram que o gasto com P&D no Brasil fica abaixo da média dos países do BRICS. Isso se conecta diretamente com a incapacidade de produzir conhecimento autônomo.
Na proposta de intervenção, detalhe agente, ação, meio, modo e fim. Por exemplo: o Ministério da Educação, em parceria com universidades públicas, deveria revisar os currículos dos cursos de humanas para incluir autores brasileiros em pelo menos 50% da ementa, com fundo específico de incentivo à produção acadêmica nacional.
O que não fazer
Não caia na armadilha de ser panfletário. Redações com tom de discurso político ou apologético perdem pontos na competência 5. Mantenha o registro formal e impessoal. Evite expressões como "infelizmente" ou "não dá mais pra aguentar". A linguagem deve ser neutra e objetiva. Também não adianta encher linguiça com sinônimos ou repetir a mesma ideia com palavras diferentes. A banca nota isso imediatamente e desconta na competência 2. Se você tem algo a dizer, diga de uma vez. Se não tem, deixe de escrever.
Um último problema que eu vejo constantemente: o candidato tenta cobrir tudo e acaba não cobrindo nada. O tema é amplo, mas sua redação não precisa ser um tratado sobre todos os aspectos da autonomia intelectual brasileira. Escolha dois bons argumentos e desenvolva-os com profundidade. Um tema restrito bem explorado vale mais do que cinco menções superficiais. O tempo médio de produção de uma redação nota 1000 nesse tema fica entre 50 minutos e 1 hora, considerando planejar, escrever e revisar. Se você levar mais do que isso, provavelmente está gastando tempo demais na introdução ou reescrevendo trechos que já estavam bons. Pratique com cronômetro antes da prova.