Coleta de urina para detecção de sangue (hematúria): guia prático
O exame de urina tipo 1 com teste de fita para detecção de sangue é o método padrão nos laboratórios clínicos. A fita reage com a hemoglobina presente na urina, seja ela de hemácias íntegras ou rompidas. Isso é importante porque a fita detecta tanto a hematúria macroscópica quanto a microscópica. Coletar a amostra corretamente faz toda a diferença. O ideal é usar o coletor esterilizado de urina de primeiro jato. A pessoa deve limpar a região genital, urinar o início do jato no vaso sanitário, receber a parte intermediária no coletor e finalizar no vaso novamente. O volume ideal fica entre 10 e 50 mililitros. A amostra precisa ser encaminhada ao laboratório em até duas horas, ou então conservada em geladeira entre dois e oito graus Celsius por no máximo vinte e quatro horas.
O que significa o termo tecnico para sangue na urina
A expressão técnica correta é hematúria. Quando aparece no laudo como trace, mais de um, mais de dois ou mais de três, está se referindo à quantidade de hemácias detectadas na urina. A numeração corresponde à concentração aproximada por campo microscópico. Um trace pode significar menos de cinco hemácias por campo. Mais de três geralmente indica presença significativa e precisa ser investigada. É comum os pacientes confundirem hematúria com hemoglobinúria. A fita de urina não faz essa distinção. Ela detecta o grupo heme da hemoglobina. Pode ser de hemácias intactas ou de hemácias rompidas liberando hemoglobina livre. Para saber a origem, é necessário fazer a microscopia da urina sedimento urinário.
No meu trabalho, já vi vários casos em que o resultado da fita veio positivo para sangue, mas a microscopia mostrou zero hemácias. Aí era hemoglobinúria verdadeira, frequentemente ligada a hemólise intravascular. Em outro episódio, peguei uma amostra de uma paciente com relato de menstruação. A fita estava muito positiva. Ao conversar, percebi que ela tinha coletado durante o período menstrual, o que gerou contaminação com sangue menstrual. Refez a coleta fora do ciclo e o exame voltou negativo. Contaminação menstrual é um dos maiores responsáveis por resultados falso positivos de hematúria. O processo de análise tem etapas que precisam ser seguidas. Primeiro, a fita é mergulhada na urina por exatamente um segundo. Depois, espera-se o tempo indicado pelo fabricante, geralmente entre sessenta e cento e vinte segundos. O tempo de leitura varia conforme a marca da fita. Ler antes do tempo gera falso negativo. Ler depois gera falso positivo por oxidação da reação.
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A microscopia do sedimento urinário exige preparo adequado. A urina deve ter densidade entre um ponto zero e quinze e pH entre cinco e oito para manter as hemácias com morfologia preservada. Se a urina estiver muito diluída ou muito alcalina, as hemácias podem lisar e desaparecer, dando resultado falso negativo na microscopia mesmo quando a fita está positiva. Nessa situação, a solução é centrifugar uma alíquota e usar corante como verde de metila para confirmar a presença de hemácias rompidas. Já me deparei com um caso em que a fita acusava sangue moderado, mas o sedimento estava silencioso. O paciente estava tomando aspirina em dose alta para prevenção cardiovascular. A aspirina pode causar micro sangramento renal sem gerar hemácias inteiras visíveis no campo. A microscopia convencional não captava. Aí fizemos a coloração com azul de metileno e conseguimos visualizar os restos de hemácias deformadas. O diagnóstico foi confirmado como nefropatia por uso crônico de anti-inflamatórios não esteroidais.
Outro ponto que muita gente não leva em conta é a interferência de substâncias oxidantes. Descarte de banheiro com hipoclorito, presença de antibióticos como gentamicina em altas concentrações, ou até mesmo contaminação da amostra com desinfetante pode alterar a reação da fita. Nesses casos, o recomendado é recolher a amostra com cuidado e pedir para o laboratório executar a microscopia de sedimento como método confirmatório. A interpretação clínica também depende do contexto. Hematúria assintomática em adulto acima de quarenta anos pede investigação urológica completa, incluindo citologia urinária e imagem das vias urinárias. Hematúria associada a proteinúria e cilindros eritrocitários sugere origem glomerular, como glomerulonefrite. Nesse caso, o encaminhameto deve ser para nefrologia, não urologia.
Se você precisa solicitar o exame, peça o exame de urina tipo 1 com sedimentoscopia. Esse é o pacote completo que permite diferenciar hematúria de hemoglobinúria e avaliar a morfologia das hemácias. Fita isolada tem utilidade limitada e pode levar a conclusões equivocadas se usada como único critério. Há também a possibilidade de fazer a urinálise automatizada em analisadores de triagem. Esses equipamentos leem a fita eletronicamente e reduzem a variabilidade subjetiva da leitura humana. Ainda assim, quando o resultado é duvidoso ou clinicamente relevante, a microscopia manual continua sendo o padrão ouro para confirmação.
Se você acabou de coletar a amostra e ainda não enviou ao laboratório, guarde-a na geladeira se for demorar mais de uma hora para chegar. Não congele. A congelação rompe as hemácias e prejudica a análise morfológica no sedimento. Leve a amostra em recipiente fechado, protegida da luz direta e em temperatura estável.