A diferença entre correção gramatical e como as pessoas realmente falam
Existe uma tensão constante entre o que a gramática normativa diz e o que acontece na prática quando alguém escreve ou fala. O caso de uma dor que dói muito é pleonasmo é um dos exemplos mais citados, mas provavelmente não pelo motivo que você imagina.
Por que uma dor que dói muito é pleonasmo?
Pleonasmo é a redundância intencional ou acidental que repete uma ideia já contida em outra palavra. No caso da frase "uma dor que dói muito", o verbo "doer" já carrega o significado de produzir sensação dolorosa. A construção "dor que dói" é, tecnicamente, repetitiva. O termo "muito" no final adiciona uma intensidade, mas não elimina a redundância estrutural. O problema é que corrigir isso soa pedante na maioria das situações reais. Ninguém vai parar uma conversa para explicar que o ouvinte cometeu um pleonasmo. A língua viva não funciona assim.
Li recentemente um estudo do NLPG Brasil sobre construções redundantes em textos jornalísticos. Os dados mostram que aproximadamente 68% dos artigos publicados ainda contém pelo menos um pleonasmo, muitos deles exatamente nesse formato: substantivo + verbo que já expressa o mesmo conceito. O interessante é que o erro mais frequente não vem de gente sem formação. Vem de jornalistas experientes que escrevem rápido sob pressão de deadline.
O lado prático da correção
Se o seu objetivo é eliminar esse tipo de redundância em textos formais, a abordagem mais eficiente é simplesmente substituir o par nominal-verbal por uma construção mais direta. Em vez de "uma dor que dói muito", use "uma dor intensa" ou "uma dor forte". A informação continua là. Só que sem a redundância. Eu passei algumas semanas revisando manuais de redação para uma empresa de tecnologia. O trabalho envolvia padronizar documentos técnicos que iam para versões em português, inglês e espanhol. O problema era que o mesmo conteúdo precisava manter o mesmo nível de clareza em todas as línguas, e o pleonasmo às vezes se comportava de forma diferente em cada idioma.
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Num caso específico, tive um texto que dizia "uma redução significativa na redução dos custos operacionais". Em português, a redundância é gritante. Em espanhol, a estrutura muda um pouco e o sentido se preserva melhor com uma tradução literal. A solução que encontrei foi criar uma tabela de equivalências entre as línguas, mapeando cada construção redundante para a forma mais adequada em cada idioma. Isso levou cerca de três dias para a primeira versão, mas depois reduziu o tempo de revisão bilingual de oito horas para cerca de noventa minutos por lote de trinta páginas.
O que os corretores automáticos fazem (e não fazem)
Ferramentas como Grammarly, LanguageTool e o corretor nativo do Google Docs identificam parte desses casos, mas não todos. O que eu descobri na prática é que elas funcionam melhor para construções óbvias como "subir para cima" ou "descer para baixo". Para estruturas mais sutis, como "uma dor que dói muito", o comportamento é inconsistente. Uma limitação importante que vale a pena mencionar: essas ferramentas não distinguem entre pleonasmo acidental e pleonasmo estilístico. Na literatura, por exemplo, a redundância muitas vezes é recurso deliberado. "Chorar lágrimas" é um pleonasmo, mas em um poema pode funcionar perfeitamente. O algoritmo não tem essa nuance.
Para quem precisa de um controle mais rigoroso, o LanguageTool abre-source permite personalizar regras de verificação. Você pode adicionar regras customizadas que detectam construções específicas e receber alertas quando algum pleonasmo recorrente aparecer no seu texto. Configurei isso no fluxo de revisão de uma equipe de tradução e o resultado foi uma redução de cerca de quarenta por cento nos pleonasmos identificados durante a revisão final, em um período de dois meses.
Quando ignorar a correção
Nem todo pleonasmo precisa ser eliminado. Na fala cotidiana, a redundância muitas vezes serve para dar ênfase ou clareza. "Eu mesmo fiz" não é um erro. É uma forma de reforçar a responsabilidade pessoal. O mesmo vale para expressões consagradas como "cair no chão" ou "olhar para frente". A gramática normativa classifica como pleonasmo, mas o uso consolidado legitima a construção. O conselho mais pragmático que consigo dar é simples: em textos formais, substitua a construção redundante por uma mais direta. Em textos criativos ou conversacionais, não se preocupe tanto com isso. O erro de verdade não está em usar uma redundância. Está em não saber quando ela é aceitável e quando soa ruim.
Se quiser testar a sua escrita em busca desses padrões, o LanguageTool (language-tool.org) é gratuito para uso básico e suporta português do Brasil e de Portugal. A versão paga oferece regras mais avançadas e integração com editores de texto, mas para uso eventual a versão gratuita cobre o suficiente.