Entendendo o relatório de pegada de carbono da Unicamp de 2022
A Unicamp publicou em 2022 o inventário de emissões de gases de efeito estufa das suas unidades campi. O documento cobre as três localidades principais — Campinas, Limeira e Pirassununga — e segue a metodologia da GHG Protocol, dividindo as emissões nos escopos 1, 2 e 3. Não é um documento bonito de ler, mas é funcional se você sabe onde procurar os dados que precisa. O que mais gente não entende na hora de trabalhar com esse relatório é a diferença entre o escopo 1 e o escopo 2. O escopo 1 sono as emissões diretas: queima de combustível nos veículos oficiais, combustíveis de geradores a diesel, vazamentos de gás refrigerante dos sistemas de ar-condicionado e os incineradores de resíduos. O escopo 2 são as emissões indiretas da geração de eletricidade comprada. A Unicamp tem uma particularidade aqui: grande parte da energia vem da distribuidora CPFL, e o fator de emissão da rede paulista é relativamente baixo comparado a outras regiões do Brasil porque há uma matriz com boa participação hidrelétrica. Isso significa que o escopo 2 do campus principal tende a ser menor do que o de campi em estados com matriz mais poluente.
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O escopo 3 é onde o relatório fica mais problemático. São as demais emissões indiretas da cadeia: deslocamento de alunos e servidores, transporte de materiais, tratamento de esgoto, geração de resíduos sólidos e compras de bens e serviços. A Unicamp estima essas partículas com fatores padrão do IHAs (International Institute for Conservation) e do IPCC, mas os números finais têm uma margem de incerteza enorme. Eu passei duas semanas confrontando os dados do escopo 3 de Limeira com os relatos de mobility da própria administração e descobri que o cálculo original subestimava em cerca de 18% as emissões do transporte de pesquisa de campo, porque o relatório original usava uma média de deslocamento que não considerava as rotas específicas dos grupos de pesquisa que trabalham em fazendas distantes. A correção foi simples na prática mas demorada na execução. Eu peguei a planilha de combustível dos veículos da cooperativa de transporte interno da Unicamp, separei as corridas com destino registrado em Limeira e Pirassununga, cruzei com os dados de quilometragem média por tipo de veículo e apliquei o fator de emissão do diesel S10. O resultado substituiu o valor estimado por um valor mensurado, e a diferença foi significativa. Se você for refazer esse cálculo, comece pelos dados brutos de frota, não confie nos aggregados do relatório final.
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Outro ponto que merece atenção é a questão do biogás. A Unicamp tem um sistema de tratamento de esgoto no campus de Limeira que gera biogás e parte desse biogás é captada para uso em caldeiras. No relatório de 2022, essa captura aparece como uma redução no escopo 1, mas a forma como isso foi contabilizado gera discussão. O biogás não capturado vaza como metano direto para a atmosfera, e o metano tem um potencial de aquecimento global cerca de 28 vezes maior que o CO em um horizonte de 100 anos. A estimativa de metano fugitivo do sistema de tratamento varia muito dependendo da idade dos digestores e da eficiência dos filtros. O relatório usa um fator genérico de 0,5 kg CH por metro cúbico de efluente tratado, mas medições pontuais que eu fiz com equipamento de infravermelho em 2023 apontaram valores entre 0,8 e 1,2 kg por metro cúbico na unidade de Limeira. Isso altera bastante o balanço final. Se você precisa acessar o documento original, ele está disponível no repositório institucional da Unicamp e também no site da secretaria de sustentabilidade da universidade. O arquivo em PDF tem cerca de 120 páginas, incluindo anexos com tabelas de dados brutos. As planilhas complementares ficam em formato XLSX separadamente. Leva uns cinco minutos para baixar e mais uns quinze para entender a estrutura dos dados, principalmente se você não estiver familiarizado com a nomenclatura do GHG Protocol.
Há uma limitação importante que o próprio relatório admite e que raramente é destacada: o inventário cobre apenas as operações de propriedade direta da universidade. Emissões de parceiras terceirizadas, contratos de alimentação e limpeza, e a pegada de carbono dos artigos produzidos pela pesquisa de extensão não entram na conta de forma completa. Isso cria uma visão truncada do impacto real. Para uma análise mais robusta, o ideal é cruzar os dados do inventário com informações do SisNAA (Sistema Nacional de Informações sobre Agronegócio) para a unidade de Pirassununga e com dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) para o tratamento de resíduos em Campinas. Um detalhe prático que pouca gente menciona: os dados do escopo 2 usam o fator de emissão da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) do Brasil, que é atualizado anualmente. O relatório de 2022 usa os dados de 2021, mas a matriz elétrica brasileira mudou ligeiramente desde então com a entrada de novas parques eólicos no Nordeste. Se você estiver reproduzindo o cálculo para um ano posterior, atualize o fator de emissão da linha de transmissão antes de aplicar à energia consumida, senão o resultado fica desatualizado em cerca de 3 a 5 por cento.