A verdade chata sobre um erro que eu vejo todo dia
Vamos direto. A forma correta é vai dar certo. Tudo o mais é erro de português. Se você escreveu "vai da certo" com espaço e o verbo "dar" no infinitivo, está errado. É simples, mas a quantidade de gente errando é tamanha que resolveu entrar até na norma culta escrita, o que me irrita. Explicando sem rodeio: "vai" aqui é o verbo ir, conjugado na terceira pessoa do singular. "Dar" é o verbo no infinitivo, que é a forma base. O infinitivo pessoal com "a" não existe como estrutura nesse caso. E o erro "vai da certo" acontece porque, na fala rápida do português brasileiro, "dar" soa quase igual a "da", e o cérebro preenche a lacuna com a forma errada.
vai da certo ou vai dar certo: qual é a forma correta?
A dúvida existe porque o oral e o escrito se separaram completamente no Brasil. Na fala, praticamente todo mundo diz "vai da certo". No papel, a gramática prescreve "vai dar certo". O problema é que a prescrição não resolve a percepção das pessoas. O teste prático que eu uso comigo mesmo é substituir o verbo por outro. Diga "vai fazer certo". Ficou natural. Agora diga "vai fe certo". Não funciona. O mesmo para "vai ser certo" versus "vai sé certo". Quando você tenta a substituição, percebe que "da" sozinho não tem função gramatical válida ali. É só um artefato fonético da fala acelerada.
Outra coisa que ajuda: o verbo "dar" no presente do indicativo para a terceira pessoa é "dá". "Ele dá certo". "Vai dar certo" mantém essa raiz. "Da" é apenas a contração da preposição "de" com o artigo "a", quando existe alguma coisa assim na frase. "Hoje vou da sala para o escritório" — aí sim, "da" existe. Mas nunca antes de "certo" no sentido de "acontecer favorablemente". Eu já passei por uma situação específica em que um revisor de texto técnico insistia em manter "vai da certo" no documento porque dizia que era "mais natural". Mostrei a ele que, no contexto formal do documento, manter a grafia consagrada evitava que o leitor parasse para questionar o conteúdo por conta de um erro óbvio. Gastei uns quinze minutos dessa discussão. Perdi tempo, mas foi necessário.
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Se você quer uma referência segura, o Acordo Ortográfico de 1990 não muda nada nisso. Nem a gramática de Celso Cunha, nem o Dicionário Priberam. Todos apontam para a mesma coisa: vai dar certo. O lado chato que ninguém conta é que, mesmo usando a forma correta, as pessoas ainda vão escrever errado. Isso porque a graphie já entrou no imaginário coletivo como algo aceito. Corrigir alguém nesse ponto é quase sempre inútil, e muitas vezes contraproducente. Você pode marcar a forma certa no texto, mas a forma errada continua existindo na cabeça de quem lê.
Uma alternativa prática: em textos informais, como mensagem de WhatsApp ou comentário de rede social, a grafia "vai da certo" simplesmente não importa. O importante é comunicar. Em textos profissionais, acadêmicos, editoriais, contratos, a forma "vai dar certo" deve ser usada sem exceção. Não há margem para negociação nesses casos. O que eu recomendo na prática é ter esse critério em mente: se o texto tem algum tipo de revisão, use sempre a forma normativa. Se não tem, e o contexto é informal, você escolhe. Mas saiba que, tecnicamente, a forma certa não mudou, não importa quantas vezes ela seja escrita errado.
Resumo: escreva vai dar certo. Fale como quiser. Só não misture as duas coisas se o texto for para publicação ou uso profissional.