O que acontece quando você realmente coloca isso em prática
A base legal já existe há décadas no Brasil. A LDB e as DCNEIs deixam claro o que se espera. O problema é que a transcrição da lei para a rotina diária de uma sala de educação infantil esbarra em uma dificuldade prática: formação continuada dos educadores e estrutura das instituições. Eu já vi projetos pedagógicos bonitos no papel que desmanchavam na primeira semana de aula porque o professor não tinha referência concreta do que fazer com uma criança de dois anos que ainda não fala direito. A educação infantil de qualidade reconhece a criança como sujeito histórico e de direitos, isto é, alguém que pensa, sente, comunica e constrói conhecimento desde o primeiro momento de vida. Não é sobre tratar a criança como um adulto em miniatura. É sobre entender que ela tem agência real e que o ambiente precisa ser desenhado para que essa agência se manifeste. O erro mais comum que eu vejo é transformar esse princípio em decoração de parede. Quadrozinhos com citações da BNCC, mas com prática de fileiras, atividade fotocopiada e crianças esperando a vez do professor para fazer qualquer coisa.
a educação infantil de qualidade reconhece a criança como
Sujeito de direitos, protagonista das experiências e construtora do próprio conhecimento. Essas três coisas funcionam junto. Quando você tira uma delas do eixo, o resto cai. Já tive uma situação concreta em que uma coordenadora pediu para eu observar uma turma de maternal com o olhar voltado especificamente para a questão da criança como protagonista. Eu entrei na sala e vi uma atividade de pintura muito bem organizada: cada criança tinha sua folha, seus giz de cera, seu lugar na mesa. Parecia perfeito. Parecia errado. As crianças pintavam exatamente o que eu esperava que pintassem. Nenhuma surpresa. Nenhuma exploração material que fosse além do esperado. A intervenção que eu fiz foi simples: tirei as folhas do centro das mesas e coloquei rolos de papel kraft estendidos no chão, junto com potes abertos de tinta guache, pincéis de diferentes tamanhos e até esponjas. Em quinze minutos, o que era uma atividade dirigida virou exploração coletiva. Uma criança começou a fazer marcação com o próprio corpo. Outra descobriu que misturar azul com amarelo dava verde. O professor da sala ficou apreensivo no início, achando que era bagunça. Dois meses depois, ele estava propondo situações semelhantes sem precisar de supervisão externa.
O detalhe que poucas pessoas destacam é que reconhecer a criança como sujeito não significa simplesmente soltar e deixar fazer. Isso seria um equívoco grave. O ambiente precisa ser propositalmente planejado. Os materiais precisam estar acessíveis. Os tempos precisam ser ampliados. As crianças precisam ter espaço para errar, repetir, abandonar uma atividade e voltar para ela dias depois. Eu já vi muitos professores acreditarem que dar mais liberdade automaticamente gera mais aprendizagem. Na prática, o que acontece é o oposto quando o professor não acompanha as explorações com registro e com questionamentos que estimulam o pensamento da criança. Aqui vai algo que talvez não seja óbvio: o reconhecimento da criança como sujeito exige que o educador também se reconheça como aprendiz. Isso soa estranho para quem está acostumado com a lógica tradicional de ensino. Mas observe uma sala onde as crianças estão realmente investigando. O professor precisa estar disposto a dizer "eu não sei" quando uma criança faz uma pergunta que ele não consegue responder no momento. Ele precisa registrar as hipóteses das crianças sem corregê-las imediatamente. Ele precisa aceitar que o plano que ele desenhou pode não funcionar e que isso não é fracasso.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Um ponto que costuma gerar confusão é a relação entre brincar e aprendizagem. A BNCC trata o brincar como eixo estruturante, mas na prática muitas instituições separam as duas coisas. Brincadeira no parque, atividade na sala. O que a pesquisa demonstra de forma consistente é que a fronteira entre brincadeira e trabalho pedagógico intencional é extremamente fina. Quando uma criança constrói uma torre com blocos e ela cai repetidamente, ela está testando hipóteses sobre equilíbrio, peso e estrutura. Se o professor intervém apontando a solução, ele mata a investigação. Se ele apenas observa sem registrar, ele desperdiça uma oportunidade pedagógica real. O meio-termo é fazer perguntas que estimulem o raciocínio: "O que você acha que aconteceu?", "Como você poderia fazer para ela não cair?", "Vamos testar outra base?". O tempo também é uma variável crítica. Crianças pequenas precisam de tempo para processar, para experimentar, para mudar de atividade, para se envolver profundamente com algo. Turmas superlotadas com jornadas reduzidas e rotinas fragmentadas inviabilizam praticamente qualquer proposta que vise o reconhecimento da criança como sujeito. Eu trabalhei em uma instituição onde a rotatividade de profissionais era alta e a carga horária das crianças era de apenas quatro horas diárias. Nessas condições, investir em atividades estruturadas e fechadas era mais eficiente no curto prazo, mas também mais vazio no longo prazo. A saída que funcionou foi reduzir o número de propostas diárias e aumentar a duração de cada uma, deixando espaço para a repetição e a aprofundamento.
Outro aspecto que merece atenção direta é a avaliação. Reconhecer a criança como sujeito significa avaliar de forma diferente. Não se trata de dar notas ou conceitos. Trata-se de documentar processos, registrar evoluções, identificar interesses e necessidades. O portfólio fotográfico, os registros de observação, os cadernos de anotações do professor são instrumentos válidos quando usados com intencionalidade. O erro comum é transformar esses registros em produto para os pais verem, sem que influenciem de fato o planejamento pedagógico. Um registro que não volta para a prática é apenas burocracia. A família também entra nessa equação de maneira direta. Quando a escola reconhece a criança como sujeito, ela precisa comunicar isso às famílias. Muitos pais chegam com a expectativa de que a educação infantil seja sinônimo de alfabetização precoce ou de atividades que produzam um produto visível para levar para casa. Esse choque cultural é real e precisa ser enfrentado com dados e com escuta. Eu já vi coordenadores evitarem conversas difíceis com famílias porque achavam que isso geraria conflito. O resultado foi que as famílias continuavam pressionando por atividades acadêmicas precoces, enquanto a escola mantinha sua proposta em segredo. A solução mais eficaz que eu encontrei foi organizar encontros periódicos onde as famílias podiam assistir a crianças explorando o ambiente e, em seguida, ouvir explicações concretas sobre o que estava acontecendo e por quê.
Se você está pensando em implementar ou aprimorar essa abordagem na sua instituição, comece por um ponto simples e viável. Escolha uma sala, ajuste o ambiente físico para tornar os materiais acessíveis, reduza o número de atividades dirigidas e observe o que acontece. Anote. Discuta com a equipe. Ajuste. Repita. Não adianta tentar transformar toda a instituição de uma vez. A mudança de cultura pedagógica leva tempo e exige consistência, não intensidade esporádica. O que eu posso afirmar com segurança é que o reconhecimento da criança como sujeito não é um luxo ou um ideal distante. É uma condição necessária para que a educação infantil cumpra seu papel formativo de verdade. Onde isso não acontece, as crianças passam anos em instituições que tratam seus corpos sem tratar suas mentes. E isso tem consequência direta no desenvolvimento cognitivo, emocional e social delas.