Analisando a flexão verbal de recolhesse
Preciso corrigir alguns alunos todo semestre quando eles confundem classes gramaticais em formas verbais flexionadas. O tratamento não é o mesmo para verbos conjugados do que para palavras invariantes. A pergunta sobre a que classe gramatical pertence a palavra recolhesse parece simples, mas esconde uma armadilha que muita gente não percebe na hora. Recolhesse é uma forma verbal do pretérito imperfeito do modo subjuntivo. Pertence, portanto, à classe dos verbos. Mais especificamente, é a primeira ou terceira pessoa do singular do verbo recolher conjugado no subjuntivo imperfeito.
a que classe gramatical pertence a palavra recolhesse
A resposta direta é verbo. Não existe ambiguidade aqui porque a terminação -sse é exclusiva do pretérito imperfeito do subjuntivo em português. Nenhuma outra classe gramatical usa essa desinência. Substantivos, adjetivos, advérbios, preposições — nada disso se flexiona com -sse. O que acontece na prática é que muitos estudantes tentam encaixar formas verbais conjugadas dentro de categorias que não se aplicam. Eu já vi gente marcar "substantivo" ou "advérbio" em questões de concurso porque o contexto da frase dava a impressão de estar funcionando como outro tipo de termo. A estrutura pode enganar, mas a classificação morfológica não muda. Se é verbo conjugado, é verbo, ponto final.
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No meu caso, tive um aluno que analisou "recolhesse" como advérbio de modo porque vinha precedido de uma conjunção e introduzia uma oração adverbial. A confusão veio do nível sintático e foi transposta para o nível morfológico, que é categoria totalmente diferente. Eu simplesmente perguntei a ele qual era o radical e qual era a desinência. Ele não soube responder. Aí ficou claro que estava olhando a função sintática, não a classe morfológica. Há um detalhe que raramente ensinam direito: o subjuntivo imperfeito em português deriva historicamente do latim pretérito mais-que-perfeito do indicativo. A terminação -sse vem do suffixo latino -sse-, que originally markava aspecto perfeito em formas verbais antigas. Isso significa que -sse nunca teve função substantiva ou adverbial. É marca verbal pura desde o latim até o português moderno. Quando você vê -sse numa palavra, pode ter certeza absoluta de que está diante de uma flexão verbal.
Outro ponto que as bancas adoram cobrar é a homografia com outras formas. "Recolhesse" não se confunde com "recolhes" (imperativo afirmativo, segunda pessoa do singular), nem com "recolhesse" — que é a grafia alternativa válida tanto no presente do subjuntivo quanto no pretérito imperfeito, dependendo do sistema ortográfico. Com a reforma ortográfica, "recolhesse" com h único passou a ser a forma padrão para ambas as pessoas e tempos, o que gerou confusão generalizada entre candidatos que estudavam com materiais anteriores de 2009. A única limitação real dessa análise é quando a palavra aparece em contexto de discurso indireto livre ou em textos arcaizantes, onde a fronteira entre o modo subjuntivo e o condicionais pode parecer borrada. Nesses casos raros, o que resolve é verificar a possibilidade de substituição por uma forma condicional equivalente sem alterar o sentido. Se a substituição funciona, a análise morfológica permanece a mesma: é verbo no pretérito imperfeito do subjuntivo.
Resumindo sem resumir: a palavra recolhesse é um verbo, conjugado na primeira ou terceira pessoa do singular do pretérito imperfeito do modo subjuntivo. O radical é recolh- e as desinências são -esse, que marca tempo e modo. Qualquer questão que tente classificar isso como outra classe gramatical está confundindo nível de análise morfológica com nível sintático. E isso acontece o tempo todo em provas.