O que aconteceu com o português nos e-mails e cartas de negócio
Eu ainda me lembro de receber os primeiros manuais de redação comercial que minha equipe tinha que seguir. "Vimos por meio desta comunicar a Vossa Senhoria...", "na data deste", "em face do disposto". Você lia aquilo e pensava: isso foi escrito por um robô ou por alguém que estava copiando um modelo de 1978 sem entender nada do que dizia. O fato é que a linguagem da correspondência comercial mudou bastante nesses últimos anos, e essa mudança não veio de algum decreto. Veio de pessoas comuns tentando se comunicar de forma mais direta no dia a dia.
atualmente a linguagem da correspondência comercial livrou-se das expressões
As expressões arcaicas que antes eram obrigatórias estão simplesmente desaparecendo. "Rogo-vos", "venho mui respeitosamente", "sirvo-me do presente para" — tudo isso caiu em desuso. Não porque alguém decidiu abolir formalidade, mas porque esses formatos atrapalhavam a comunicação real. Quando você lê um e-mail e gasta mais tempo decifrando o que o remetente está dizendo do que entendendo a mensagem em si, algo está errado. Na prática, o que eu vejo agora nas empresas é um padrão muito mais limpo. Em vez de "Vimos, por meio deste, informar Vossa Senhoria de que o pagamento foi efetuado", alguém escreve: "Informamos que o pagamento foi realizado". A informação é a mesma. O tempo de leitura cai pela metade. E o destinatário não precisa fazer esforço para saber se a pessoa está sendo profissional ou se está apenas demonstrando conhecimento de um manual que ninguém usa mais.
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Isso gera um problema interessante que poucas pessoas mencionam. Quando você elimina todas essas expressões protocolares, como medir o nível de formalidade adequado? Eu já passei por uma situação em que um cliente de alto valor entrou em contato reclamando de um tom de e-mail que considerou "desrespeitoso". A verdade era simples: eu tinha usado um padrão direto e funcional, mas o cliente estava acostumado com um tipo de tratamento mais tradicional. Ele não via diferença entre informalidade e falta de educação. Eu resolvi isso apenas ajustando o nível de tratamento conforme o perfil do destinatário — algo que eu levei anos para aprender na prática. Outro ponto que muita gente não considera é que a simplificação não significa abandonar a estrutura. Um e-mail comercial ainda precisa ter elementos claros: identificação do assunto, contexto, ação esperada e prazo. O que muda é a forma como você empacota essas informações. Em vez de usar conectivos engessados, você organiza o raciocínio logicamente. E isso exige mais atenção, não menos.
Uma armadilha comum é acreditar que simplificar é sinônimo de ser casual demais. Nada disso. A correção e a precisão continuam sendo obrigatórias. O que sai de cena são as fórmulas vazias que não agregam informação alguma. Você pode ser direto e educado ao mesmo tempo. Pode ser formal sem soar como um documento jurídico dos anos 90. A habilidade está no equilíbrio, e esse equilíbrio só se consegue com experiência real de leitura e reescrita. Se você quer adotar esse padrão na sua rotina, o caminho mais eficiente é revisar e-mails antigos seus e identificar onde estão as expresões que podem ser simplificadas. Depois, leia bastante material de empresas que communicam bem hoje em dia — newsletters, comunicados oficiais, até anúncios de emprego costumam ter um bom nível de escrita clara. A prática leva ao resultado, e o resultado é mais rápido do que você imagina.