Augusto dos Anjos: um guia prático para consultar sua bibliografia
A bibliografia de Augusto dos Anjos não é grande coisa. O homem viveu apenas 29 anos e publicou uma única obra em vida, mas a produção crítica sobre ele é imensa e desorganizada de um jeito que cansa quem precisa navegar por ela. Vou explicar como funciona na prática.
Principais edições da bibliografia de augusto dos anjos
O livro Eu, de 1912, é a obra central. Foi lançado com recurso próprio do autor em Porto Alegre, numa tiragem limitada que se esgotou rapidamente e que hoje é praticamente impossível achar em condições razoáveis. A edição definitiva que todo mundo cita é a de 1926, organizada por Luís Humberto e publicada pela Livrária Francisco Alves no Rio de Janeiro. Essa versão contém poemas que não estavam na primeira edição, incluindo "Vermelho Vinho", que muitos estudiosos consideram o poema mais importante do livro. A edição de 1940, também pela Francisco Alves, com prefácio de Álvaro Lins, consolidou o cânone do livro. Se você quer uma referência confiável para estudos acadêmicos, essa é a edição que costuma ser adotada. Mais recentemente, a editora Editora 34 lançou uma edição comentada em 2017, organizada por Márcio Furquim, que traz notas importantes sobre as variantes textuais entre as edições de 1912 e 1926.
Ostia e os poemas póstumos
Além de Eu, Augusto dos Anjos publicou Ostia, de 1914, um livro menor e menos conhecido. A bibliografia de augusto dos anjos costuma tratar Ostia como uma espécie de apêndice melancólico, mas alguns especialistas defendem que o livro tem seu valor próprio, especialmente pelos poemas em prosa que experimentam uma linguagem mais fragmentada. Depois de sua morte, vieram coletâneas tardias como Canções Penetrosas (1955, organizada por João Cruz e Souza) e Poesia Completa (1967). A edição completa mais recente e completa até hoje é a da Coleção Shuberline, da Editora 34, com estudo preliminar de João Cezar de Castro Rocha.
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Bibliografia crítica essencial
Se o seu objetivo é pesquisa séria, precisa passar por estes autores e obras. Lúcia Maria Braga Nascimento, em Augusto dos Anjos: A Crítica e a Criação (1983), faz um levantamento minucioso de todas as edições e variantes. É densa, mas indispensável. Antônio Cicero, em Literatura de Vanguarda no Sudeste do Brasil (1984), coloca Augusto dos Anjos num contexto que vai além do simbolismo e aponta conexões com o surrealismo francês que muitos leitores ignoram. João Cezar de Castro Rocha escreveu Augusto dos Anjos ou Um Poeta de Verdade (2009), uma biografia crítica sólida que corrige muitos mitos sobre a vida do poeta, especialmente a versão romântica do "poeta torturado e solitário" que foi construída depois da morte dele. Darcy Damascena também contribuiu com estudos importantes sobre as questões científicas e médicas no texto de Augusto dos Anjos.
Problemas práticos que você vai encontrar
Aqui vai uma coisa que ninguém avisa: a numerção dos poemas em Eu varia drasticamente entre as edições. O poema que você encontra como "XXIII" na edição de 1926 pode ser "XVII" na de 1940 ou nem estar numerado em edições mais recentes. Quando eu estava preparando um artigo sobre as variantes de "XV" (o poema que começa com "Do pó que o tempo desbotou"), perdi dois dias tentando alinhar as numerações entre as edições porque cada estudioso cita usando uma numeração diferente e ninguém avisa qual está usando. A solução que encontrei foi criar uma tabela de concordância baseada nas versões fac-símiles das edições originais, verificando o início de cada poema em vez de confiar nos números. Outro problema: muitas vezes encontram-se referências a poemas atribuídos a Augusto dos Anjos que estão em coleções editadas por terceiros décadas depois da morte dele, sem critério filológico claro. Ostia e Canções Penetrosas são particularmente problemáticos porque misturam poemas com textos de autoria duvidosa ou incompleta. Sempre verifique a data da edição e o editor antes de citar qualquer poema fora do livro Eu.
Onde encontrar os textos
Os livros de Augusto dos Anjos estão disponíveis em livrarias físicas e online no Brasil. As edições da Editora 34 costumam ser as mais acessíveis e confiáveis. A Biblioteca Nacional Digital oferece versões digitalizadas das edições primitivas de Eu (1912 e 1926) de graça, o que é útil para quem quer cotejar as variantes. O acervo da USP também disponibiliza algumas edições raras sob consulta. Para a bibliografia crítica, a base SciELO e o portal Capes Periódicos concentram a maioria dos artigos acadêmicos relevantes. A dissertação de mestrado de Patrícia Helena de Oliveira, disponível na Biblioteca Digital da UFMG, tem um levantamento bibliográfico muito bem organizado de tudo que foi escrito sobre o poeta até 2010. Vale a pena consultar antes de começar qualquer pesquisa.
O que mais incomoda na bibliografia de augusto dos anjos é a falta de uma edição crítica definitiva com apparatus completo. Cada pesquisador que quer se aprofundar acaba tendo que fazer o trabalho de filologia que deveria já existir pronto. Se você está começando agora, invista tempo desde o início em registrar as variantes textuais — senão você vai acabar refazendo esse trabalho mais tarde, quando o entusiasmo já tiver passado.