Devem ser ou devem serem: quando usar cada forma
Esse é um daqueles assuntos que aparecem sempre em revisões de texto e geram discussão acalorada nos comentários. Vou explicar de forma direta, porque no final das contas a gramática normativa já definiu isso há décadas, mas o uso real no dia a dia é mais complicado do que a regra diz.
Devem ser ou devem serem: a diferença real
A forma devem ser é a que você vai encontrar em qualquer manual de gramática como a correta quando o infinitivo é impessoal. Isso significa que o verbo "ser" não tem sujeito determinado antes dele, e a oração está num sentido genérico, indefinido. Exemplo: "As questões devem ser resolvidas com calma." Aqui, "questões" é o sujeito da oração principal, mas o infinitivo "ser resolvida" está na forma impessoal, então não há flexão no infinitivo. Já devem serem aparece quando o infinitivo é pessoal, ou seja, quando ele já tem um sujeito explícito ou subentendido que exige a flexão. A forma "serem" é o infinitivo pessoal flexionado na terceira pessoa do plural. Isso ocorre mais frequentemente em construções em que o infinitivo funciona como núcleo de um sintagma nominal ou quando há uma relação de dependência mais clara com um sujeito anterior. Um exemplo possível: "É preciso que as decisões devam serem revisadas." Note que aqui "decisões" é o sujeito do infinitivo, e a flexão "serem" se justifica porque o infinitivo está pessoal.
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A confusão acontece porque muitos falantes tratam as duas estruturas como intercambiáveis, mas elas não ocupam o mesmo espaço sintático. No primeiro caso, o infinitivo é impessoal e fica invariável. No segundo, é pessoal e flexiona. A fronteira entre um e outro não é sempre óbvia, especialmente na língua falada, onde a flexão do infinitivo está em declínio, principalmente no Brasil. Eu já revisei um contrato de prestação de serviços em que o advogado redator usou "devem serem cumpridos os prazos" em um trecho em que o sujeito do infinitivo não estava claramente separado do verbo principal. O efeito foi estranho: a frase soava ambígua, e o leitor tinha que parar para decifrar se "prazos" era sujeito de "devem ser" ou se era o sujeito do infinitivo pessoal. A correção foi simples: mudar para "devem ser cumpridos os prazos", que é a estrutura padrão com infinitivo impessoal. Mas isso só ficou claro depois de eu identificar que a primeira versão tinha criado uma colisão sintática.
Um detalhe que poucos mencionam: no português de Portugal, o infinitivo pessoal é muito mais aceito e usado do que no Brasil. Se você está lendo um texto produzido em PT-PT, a forma "devem serem" pode aparecer com mais frequência sem que isso seja necessariamente um erro. No Brasil, o uso do infinitivo pessoal está diminuindo, e a maioria dos falantes prefere a forma impessoal. Isso significa que, em revisão para o mercado brasileiro, "devem serem" pode ser sinalizado como inadequado até quando, tecnicamente, a estrutura permitiria a flexão. Outro ponto importante: a posição do pronome átono e a presença de palavras como "preciso que" ou "necessário que" podem influenciar a escolha. Quando o infinitivo vem precedido de uma conjunção integrante ou de uma construção nominal que demanda sujeito, a flexão tende a ser mais justificada. Quando o infinitivo aparece numa oração subordinada adverbial ou numa locução verbal simples, a forma impessoal é quase sempre a opção mais segura.
Se você está escrevendo um texto formal — um documento jurídico, uma norma interna, um artigo acadêmico — e ainda tem dúvida, a regra prática é: use "devem ser" na grande maioria das vezes. Reserve "devem serem" para casos em que o sujeito do infinitivo esteja claramente identificado e a estrutura exija a flexão pessoal. Se a frase ficar estranha quando você testa as duas versões, a forma impessoal provavelmente é a correta, ou pelo menos a menos arriscada. Também vale notar que existem construções em que a flexão do infinitivo é opcional e o significado não muda. Nesse caso, a escolha depende mais do registro e da preferência estilística do que de uma regra absoluta. Mas em contextos formais, a tendência é favorecer a forma mais conservadora, que é a impessoal.