Os tempos verbais e seu uso real
A pergunta "em que tempo são empregados os verbos predominantemente" aparece o tempo todo em fóruns de português como língua estrangeira, e a resposta curta é que depende do contexto comunicativo. Mas a resposta útil exige explicar quando cada tempo realmente aparece no dia a dia.
Em que tempo são empregados os verbos predominantemente
O pretérito perfeito domina narrativas escritas e falas formais quando se conta algo concluído. "Eu fiz o relatório ontem." Ponto final. Já o imperfeito é o tempo da rotina passada, do hábito, da descrição. "Eu fazia o relatório toda semana." As pessoas confundem esses dois com frequência, e o erro mais comum é usar o perfeito onde o imperfeito seria mais natural em histórias coloquiais. No Brasil, o pretério perfeito compuesto (tenho + particípio) invadiu a fala coloquial e substituiu o mais-que-perfeito composto em muitos contextos. Eu mesmo já tive um cliente português europeu que leu um email meu dizendo "tenho trabalhado bastante" e perguntou se eu estava doente, porque no português dele aquilo soava estranho. A solução foi simplesmente explicar que no nosso padrão aquela forma carrega uma ideia de continuidade até o momento presente, algo que o mais-que-perfeito deles não transmitia com a mesma carga.
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O futuro do presente (cantarei, farei) ainda existe na gramática normativa, mas na prática cotidiana ele é frequentemente substituído pela perífrase ir + infinitivo. "Vou fazer amanhã" soa muito mais natural que "farei amanhã" na maioria das situações informais. Isso não é erro, é variação linguística documentada. O problema é que em textos formais, contractos e documentos oficiais o futuro simples ainda é esperado, e usar a perífrase ali pode parecer descuido ou informalidade demais. O subjuntivo é outra história. Ele é predominante em três contextos principais: depois de conjunções subordinativas (quando, se, embora), em orações dependentes de verbos de desejo ou dúvida (querer, duvidar, esperar), e em exclamações e optativos. "Espero que venha" — aqui o subjuntivo é obrigatório, não há alternativa aceitável no padrão culto. O erro clássico dos aprendizes é usar o indicativo nesses contextos, produzindo frases como "espero que vem", que soam imediatamente erradas para um nativo.
Um detalhe que poucas pessoas mencionam: o pretérito mais-que-perfeito simples (cantara, fizera) está praticamente extinto da fala brasileira, restando apenas a literatura, notícias jornalísticas e textos muito formais. Na prática, usamos o pretérito perfeito composto ou o imperfeito do subjuntivo com valor hipotético para expressar ideias que o mais-que-perfeito antigo cobria. Eu já perdi tempo tentando explicar para alunos estrangeiros a diferença entre "cantara" e "cantaria" em contextos literários, e no final eles só precisavam saber que na maioria das vezes podem tratar aquela forma como sinônimo mais formal do perfeito. O Condicional (futuro do pretérito) tem um uso que muitos não esperam: ele é o tempo padrão para polidez em pedidos e solicitações. "Gostaria de um café" é muito mais educado que "Quero um café", e isso vale tanto na escrita quanto na fala. O mesmo vale para "Você poderia me ajudar?" versus "Você me ajuda?". Essa nuance de registro não aparece nos manuais básicos, mas faz diferença real em situações profissionais.
Uma limitação importante que precisa ser dita: não existe um "tempo predominante universal". O que predomina varia conforme o gênero textual, a região e o nível de formalidade. Um boletim meteorológico usa o presente do indicativo como recurso estilístico ("Chove em grande parte do Sul"). Um romance usa o pretérito imperfeito como fundo narrativo. Um contrato usa o futuro do presente ou o infinitivo pessoal para dar impersonalidade. Tentar resumir tudo em uma regra única é armadilha de manual malfeito. Se você quer praticar sem decorar tabelas infinitas, a melhor abordagem é ler textos do gênero que lhe interessa e prestar atenção em quais tempos aparecem com mais frequência. Notícias de jornal, contos, emails profissionais e legendas de filmes mostram padrões bem diferentes entre si. Eu costumo sugerir que alunos anotem cinco frases de cada tipo de texto e comparem os tempos verbais usados. Em uma semana desse exercício, a intuição começa a se formar sem esforço memorístico.