Entendendo queda livre na prática
Queda livre é o movimento de um corpo sob ação exclusiva da gravidade, desprezando-se o atrito com o ar. A aceleração é constante e igual a g, que na maioria dos exercícios valerá 9,8 m/s² ou, quando o enunciado pedir, 10 m/s² para facilitar os cálculos. O corpo sobe e desce com a mesma aceleração, só muda o sentido da velocidade. A equação horária mais usada é h = h + vt - ½gt², e a equação de Torricelli v² = v² - 2gh também aparece sempre.
Como resolver exercícios sobre queda livre
A primeira coisa que eu faço é desenhar o eixo. Escolho um sentido como positivo e mantenho essa escolha do início ao fim. Se você pegar para cima como positivo, a aceleração da gravidade entra negativa. Se pegar para baixo como positivo, g entra positivo. O erro mais comum em sala de aula não é a conta errada, é mudar de eixo no meio do caminho. Eu já vi aluno trocar o sinal de g na metade da questão e não perceber até o gabarito dar errado. Na sequência, eu listo os dados. Velocidade inicial, altura inicial, altura final, tempo conhecido. Se o problema diz "largou do repouso", v é zero. Se diz "lançado para cima", v é positivo no meu eixo. Se diz "lançado para baixo", v é negativo. Simples. Depois eu escolho quais equações vão ser usadas. Se o tempo não é pedido, Torricelli resolve mais rápido. Se o tempo é pedido, a equação horária é o caminho.
Um detalhe que pouca gente leva a sério é a conversão de unidades. km/h para m/s divide por 3,6. cm para m divide por 100. Se o exercício traz 72 km/h e você não converte, o resultado vai para o espaço. Já tive aluno que esqueceu disso e chegou em 250 metros de altura numa queda de 5 segundos. Impossível fisicamente, mas a conta fechava porque o número estava errado desde o início. Quando o corpo atinge a altura máxima, a velocidade instantânea é zero. Isso é útil porque transforma o problema em duas etapas: subida e descida. A subida e a descida do ponto de lançamento ao ponto de altura máxima são simétricas se não houver resistência do ar. O tempo de subida é igual ao tempo de descida até a mesma altura. A velocidade no retorno ao nível de lançamento tem o mesmo módulo, mas sentido oposto. Esses fatos economizam tempo, mas só valem na ausência de atrito.
Um exercício típico pede o tempo total de queda a partir de uma altura h com v = 0. A resposta vem de h = ½gt², então t = (2h/g). Para h = 45 m e g = 10 m/s², dá t = 3 segundos. A velocidade final é v = gt = 30 m/s. Parece óbvio, mas é exatamente esse tipo de questão que os estudantes estragam por confusão de sinais ou por esquecer a raiz quadrada. Outro caso frequente é o lançamento vertical para cima. Dado v, a altura máxima é h = v²/(2g). O tempo até o topo é t = v/g. Se v = 20 m/s e g = 10 m/s², o topo é atingido em 2 segundos e a altura máxima é 20 metros. Voltando ao chão, o tempo total é 4 segundos e a velocidade de impacto é 20 m/s para baixo. A simetria resolve tudo, mas só se o ponto de partida e o ponto de chegada estiverem no mesmo nível.
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Se o ponto de partida e o de chegada estão em níveis diferentes, a simetria quebra. Aí eu uso a equação horária com os dois pontos. Por exemplo, lançar uma bola para cima a partir de um penhasco de 80 m com v = 10 m/s para cima e g = 10 m/s². Coloco h = 80 m e h = 0. A equação fica 0 = 80 + 10t - 5t². Resolvendo, t = 6 segundos. A velocidade final é v = 10 - 60 = -50 m/s. O sinal negativo só indica direção, o módulo é 50 m/s. Se alguém pergunta qual a altura máxima atingida a partir do solo, eu calculo a altura em relação ao ponto de lançamento primeiro: h_rel = v²/(2g) = 5 m. Aí somo com a altura do penhasco e chego em 85 m. Esse passo extra é onde a maioria erra.
Problema real que eu encontrei
Numa banca de concurso, apareceu uma questão sobre queda livre em que o enunciado dizia "despreze a resistência do ar" e a alternativa correta considerava tempo de voo diferente do que a fórmula padrão dava. O problema era que o corpo era solto de um balão que subia com velocidade constante. A velocidade inicial do corpo não era zero, era a mesma do balão para cima no instante da soltura. Muitos candidatos trataram v como zero e caíram na pegadinha. Eu resolvi colocando v = +15 m/s na equação horária, mantendo o eixo para cima como positivo. O resto foi conta direta. A lição prática é: antes de jogar qualquer fórmula, pergunte qual é a velocidade do corpo no instante t = 0. Se algo o carregou, o corpo herda aquela velocidade.
Onde o modelo simples falha
Queda livre com g constante e sem resistência do ar é uma aproximação. Funciona bem para distâncias curtas e objetos densos. Se a queda ultrapassa alguns quilômetros, a variação de g com a altitude passa a importar. Se o objeto é leve ou tem grande área, como um paraquedas ou uma pena, o atrito com o ar domina e o conceito de queda livre deixa de fazer sentido. Nesse caso, a velocidade terminal aparece e o movimento não é mais uniformemente acelerado. Para a maioria dos exercícios de ensino médio e vestibular, a aproximação é suficiente. Para Engenharia, costuma-se introduzir força proporcional a v ou a v² já nas primeiras listas de dinâmica. Se o objetivo é resolver questões de física geral, fique com o modelo ideal. Se a questão mencionar densidade do ar, coeficiente de arrasto ou tamanho relevante da trajetória, o modelo muda e aí exige integração numérica ou soluções analíticas com exponenciais, o que foge do escopo dos exercícios convencionais de queda livre.
Outro ponto que gera confusão é o valor de g. Em problemas de livro, costuma-se usar 10 m/s². Em provas mais rigorosas, às vezes pedem 9,8 m/s². O diferença em um exercício de 80 metros é pequena, mas suficiente para alterar a alternativa correta em questões de múltipla escolha. Sempre leia o enunciado antes de assumir o valor. Se não estiver especificado, 10 m/s² é o padrão mais seguro em exercícios didáticos, mas 9,8 m/s² é o valor real em grande parte do território brasileiro. Se quiser praticar, procure arquivos com gabarito comentado. A prática eficaz não é fazer cinquenta exercícios repetitivos, é fazer exercícios que cubram os casos variados: queda de repouso, lançamento para cima, lançamento a partir de altura não nula, simetria quebrada e velocidade inicial herdada de um referencial em movimento. Isso cobre quase tudo que cai em provas.