Queda livre e lançamento vertical na prática
Achei que já tinha visto tudo em prova de física, mas semana passada tive um aluno que quase reprovou por um erro besteira. Colocou g negativo numa equação de altura e perguntou por quê o resultado dava negativo para o tempo. Não era o cálculo. Era a convenção de sinais que ele misturou com a definição do problema. Isso acontece o tempo todo.
Fórmula queda livre e lançamento vertical
As duas coisas são o mesmo movimento. A diferença é só a direção inicial da velocidade. No lançamento vertical você joga pra cima, na queda livre o objeto simplesmente solta. Em ambos, a única força atuante é o peso. Ignoramos resistência do ar senão a matemática vira uma equação diferencial que ninguém resolve de cabeça. As equações fundamentais são:
Velocidade: v = v + g·t Posição: h = h + v·t + ½·g·t²
Toricelli: v² = v² + 2·g·h Onde g vale aproximadamente 9,8 m/s² na superfície da Terra. O sinal de g depende inteiramente de como você definiu o eixo. Se o eixo positivo é para cima, g entra negativo. Se o eixo positivo é para baixo, g entra positivo. Errar isso é o erro mais comum que eu vejo, e ele contamina todo o resto da resolução.
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Na prática eu resolvo assim. Primeiro defino o eixo. Sempre coloco o positivo para cima porque é o padrão dos livros didáticos e das bancas. Isso significa que g = -9,8 m/s² na sua conta. Depois identifico o que o problema já entrega: velocidade inicial, altura inicial, altura final, tempo. O que faltar, você achava. Se pede o tempo de subida até a altura máxima, você sabe que lá a velocidade é zero. É um dado implícito que todo mundo esquece. Para lançamento vertical com velocidade inicial de 30 m/s a partir do solo, a altura máxima é simplesmente v² / (2·|g|). Dá 45,9 metros. O tempo de subida é v / |g|, ou seja, 3,06 segundos. O tempo total no ar é o dobro disso: 6,12 segundos. Nada de complicado. A maioria dos erros vem de quem tenta usar a equação de posição para achar o tempo quando deveria usar Torricelli direto.
Eu tenho um problema real que enfrentei há dois anos num projeto de simulação. Tinha que modelar a trajetória vertical de uma sonda experimental com velocidade inicial de 200 m/s. A fórmula clássica diz que ela sobe cerca de 2.040 metros. Só que medições reais mostravam que ela nunca passava de 1.400 metros. A diferença era enorme. O problema não estava na física do ensino médio. Estava na densidade do ar. A 2.000 metros de altitude a densidade cai quase 20 por cento. O arrasto diminui com a altitude e isso altera significativamente a trajetória se a velocidade for alta. A solução foi implementar uma correção numérica com arrasto proporcional a v² e densidade variável, usando iteração passo a passo. Levei três horas pra ajustar o código. A fórmula analítica simples já tinha dado a resposta errada porque assumia atmosfera homogênea. Outro detalhe que poucos ensinam: quando o objeto cai de volta e passa pelo ponto de lançamento, a velocidade tem o mesmo módulo da velocidade inicial mas sentido oposto. Isso só vale se não tiver resistência do ar. Com atrito do ar, a velocidade de retorno é menor. E o tempo de descida é maior que o de subida. Parece contraintuitivo, mas faz sentido. A força de arrasto sempre se opõe ao movimento, então na subida ela soma com o peso e desacelera mais rápido. Na descida, ela subtrai do peso e o corpo acelera menos.
Um erro frequente em provas é confundir altura máxima com deslocamento total. Altura máxima é o pico da trajetória. Deslocamento total é zero se o objeto voltar ao ponto de partida. São coisas diferentes. A banca adora cobrar essa distinção. Se você quer uma resolução rápida e confiável para exercícios acadêmicos, as fórmulas acima bastam. Basta manter a consistência do eixo e identificar os dados implícitos. O problema é quando você sai do textbook. Aí a coisa fica mais complicada e você precisa de simulação numérica ou de aceitar que a resposta analítica é apenas uma aproximação.
Para quem está começando, recomendo treinar com cinco exercícios bem feitos antes de avançar. Um deles com queda livre partindo do repouso, outro com lançamento vertical pra cima, outro com lançamento pra baixo, outro onde você acha o tempo usando Torricelli em vez da equação horária, e outro com dados incompletos que exigem descobrir primeiro a altura máxima. Isso cobre praticamente toda a variação que cai em provas. Existe um recurso útil online que chama-se Simulador de Lançamento Vertical do Physics Classroom. Ele permite visualizar a trajetória e ver como a velocidade varia com o tempo. Tem também a calculadora de cinemática do site HyperPhysics, que mostra os cálculos passo a passo. Ambos são gratuitos e funcionam direto no navegador.
A maior dica que posso dar é: não decore fórmulas. Entenda o que cada termo representa fisicamente. Se você sabe que ½·g·t² vem da aceleração constante integrada duas vezes, você nunca mais vai confundir com velocidade média multiplicada pelo tempo. O resto vem junto.