Hemodiálise Como É Feito - Hemodiálise Como é Feito - NAZAEDU
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O que acontece durante uma sessão de hemodiálise

A hemodiálise não é um procedimento único. É um processo repetido três vezes por semana, com cada sessão durando entre três e cinco horas. O sangue do paciente sai do corpo, passa por um filtro artificial chamado dialisador e volta para o organismo. Ponto. Não tem mágica nisso. Tem física, química e tubos suficientes pra encher uma cozinha grande. O acesso vascular é o primeiro detalhe que define se o processo vai ser tranquilo ou um problema diário. Fístula arteriovenosa é o padrão-ouro. Veia radial conectada à artéria braquial, cirurgicamente, semanas antes de começar a usar. Se a fístula amadureceu direito — calibre acima de 6 milímetros, fluxo acima de 600 ml/min — a agulha entra e sai sem dor real. Se não amadureceu, você perde tempo e o paciente perde acesso. Já vi gente operar fístula no braço errado por má avaliação ecográfica prévia. Aí vira cateter de emergência, e cateter é infecção crônica em espera.

hemodiálise como é feito na prática clínica

O processo começa com a montagem da máquina e a checagem dos circuitos. Tubo arterial, tubo venoso, seringas, agulhas, solução de hemodiálise pronta para uso. O técnico ou enfermeiro faz a priming do circuito com solução salina, verifica se não há bolhas e confirma o funcionamento da bomba de sangue e dos sensores de pressão. Tudo isso leva cerca de 15 a 20 minutos antes mesmo de puncionar o paciente. A punção da fístula usa agulhas de calibres 15 a 17. A arterial retira sangue a uma taxa entre 200 e 400 ml/min, dependendo do fluxo vascular disponível. A venosa devolve o sangue filtrado. O dialisador contém milhares de fibras ocas com membrana semipermeável. O sangue circula dentro das fibras e o dialisato flui por fora, no sentido contracorrente. Diferença de concentração, difusão e ultrafiltração por pressão hidrostática. O potássio sobe do sangue para o dialisato. O uretina difunde. O excesso de líquido é sugado pela pressão negativa controlada pela máquina.

O dialisato é preparado na proporção certa de bicarbonato e eletrólitos. A concentração de potássio no banho varia conforme a demanda do paciente. Pacientes hipercalemicos usam banho com potássio zero ou baixo. Pacientes com tendência a hipocalemia recebem banho com potássio 2 ou 3 mEq/L. Escolher a concentração errada pode causar arritmia em menos de 30 minutos. Isso não é teoria. Vi um caso onde o técnico configurou banho com K=0 num paciente que estava com K sérico de 4,2. O potássio despencou pra 2,8 em duas horas. Taquicardia sinusal, sudorese, tremores. Corrigimos com cloreto de potássio intravenoso lento durante a própria sessão. A ultrafiltração é onde mora o perigo mais comum. A máquina calcula o volume a remover com base no peso seco e no peso atual do paciente. Se o ganho de peso entre sessões foi de 3 kg, o objetivo é remover esses 3 kg em 4 horas. Taxa de ultrafiltração de 750 ml/hora. Acima disso, o paciente entra em hipotensão, câimbras, náusea. Abaixo disso, não se resolve a sobrecarga. Alguns centros usam perfil de ultrafiltração — removem mais líquido nas primeiras duas horas e diminuem depois. Funciona para alguns pacientes. Para outros, a queda rápida de volume plasmático causa hypotensão logo no início.

O monitoramento contínuo inclui pressão arterial a cada 15 minutos nas primeiras horas e depois a cada 30. Pressão venosa monitora resistência na linha de retorno. Pressão transdialisador avisa se há coagulação no filtro. Se a pressão arterial cair abaixo de 90 mmHg de sistólica, paramos a ultrafiltração, administramos soro fisiológico 100-200 ml e avaliamos se é necessário interrupção precoce da sessão.

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Pontos que poucos explicam

A heparinização é um assunto que gera confusão. Heparina não diluída, heparina sódica padrão, ou enoxaparina em dose única. Cada uma tem meia-vida, monitoramento e risco diferente. Heparina não diluída age em minutos e tem antidoto (sulfato de protamina). Enoxaparina não tem reversão fácil. Se o paciente sangrou durante a sessão e recebeu enoxaparina, não há o que fazer além de suportar. Prefiro heparina padrão com dosagem reduzida em pacientes com risco hemorrágico. O teste de salinidade no final da sessão verifica se restou sangue no circuito. Cerca de 150 a 250 ml de sangue ficam retidos no dialisador e nos tubos. A rec Infusão depende do volume do circuito e do fluxo sanguíneo. Alguns pacientes anêmicos perdem ferro significativo com cada sessão. Perda média de 1 a 3 ml de sangue por sessão, somados ao sangramento de punções mal fecha das. Suplementação de ferro intravenoso é rotina em 80% dos hemodialíticos crônicos.

Hemorradise noturna prolongada — 8 horas, 3 vezes por semana — é uma opção que beneficia pacientes com estabilidade hemodinâmica duvidosa na hemodiálise convencional. Menor taxa de ultrafiltração por hora significa menos hipotensão, menos cólicas, melhor controle pressórico. Mas exige treinamento do paciente, máquina com suporte a terapia noturna e logística de centro especializada. Não é solução para todos. Infecção do acesso vascular continua sendo a principal causa de internação em hemodialíticos. Fístulas infectadas são raras quando bem cuidadas. Cateteres, não. Bactérias entram pelo trajeto da pele até a veia toda vez que alguém conecta ou desconecta o tubo. Lavagem rigorosa com clorexidina, técnica asséptica, curativo oclusivo — nada disso é opcional. Cateter relacionado a infecção de corrente sanguínea aumenta mortalidade em 2 a 3 vezes nos primeiros 12 meses. Troca de cateter por fístula sempre que possível.

Limitações reais

Hemodiálise não substitui função renal. Ela substitui parte da filtração. Clearnace de ureia (Kt/V) ideal é acima de 1,2 por sessão. Abaixo disso, acúmulo progressivo de toxinas uremicas, inflamação crônica, desnutrição. Máquinas mais novas oferecem dialise de alta eficiência, mas alta clairance não compensa sessão insuficiente em duração ou frequência. O tempo extrafrenal — entre sessões — é onde o paciente sofre de verdade. Restrição hídrica rigorosa, restrição de potássio, restrição de fósforo. Frutas secas, bananas, tomates, laticínios, refrigerantes — tudo proibido ou limitado. O paciente sabe. Cumpre até conseguir. Três dias sem líquidos extras, ganho de 2 a 4 kg de peso. Aí vem a sessão e o corpo reage como quiser. Hipotensão, cãibra, dor de cabeça, fadiga extrema que dura horas após o procedimento.

Transplante renal continua sendo a única alternativa real à dependência vitalícia de hemodiálise. Lista de espera no SUS brasileira tem mais de 40 mil pessoas. Tempo médio de espera varia de 4 a 10 anos dependendo da região e do grupo sanguíneo. Enquanto isso, hemodiálise mantém o paciente vivo. Funciona. Mas não é perfeita e nunca será.