Na Sua Opinião Porque É Importante Votar - Sua opiniÃo é muito importante. - 26º Tabelionato de Notas de São Paulo
Sua opiniÃo é muito importante. - 26º Tabelionato de Notas de São Paulo

O que acontece quando ninguém vota

Em 2022, num município do interior de São Paulo com cerca de 40 mil habitantes, o prefeito foi eleito com menos de 12 mil votos. Simplesmente assim. A disputa era entre três candidatos, e o vencedor precisou de uma parcela mínima do eleitorado para levar o cargo. Nos dois anos seguintes, o saneamento básico não foi retomado, as escolas não tiveram manutenção, e a população mais afetada eram justamente aqueles que consideravam a política "coisa de corrupto" e preferiam ignorar as urnas. Esse episódio me marcou porque mostra algo que livros didáticos raramente enfatizam: votar não é um ato simbólico, é um mecanismo de distribuição de recursos. Quando você não vota, alguém decide por você sobre onde vai para o seu dinheiro de impostos — e quase sempre vai para algum lugar que não é o seu bairro.

na sua opinião porque é importante votar

Essa pergunta aparece em fóruns e grupos de WhatsApp todo ano eleitoral, e a resposta mais honesta que já vi foi de um professor de história que ensinava na periferia de Fortaleza: "Votar é importante porque o cara que não vota não tem direito de reclamar". Ele disse isso no primeiro dia de aula, antes de explicar o funcionamento do sistema proporcional. Os alunos riram, mas dois anos depois muitos deles voltaram para agradecer porque conseguiram ajudar a eleger alguém que trouxe iluminação pública para a rua deles. Eu trabalhei como mesário em três eleições consecutivas. Vi casos em que o turno único decidiu o resultado de uma câmara municipal inteira. Em 2016, num bairro de Guarulhos, a diferença entre o primeiro e o segundo lugar foi de 87 votos. Ooze, 87 pessoas decidiram quem seria vereador por quatro anos. E esses 87 eram, em grande parte, gente que tinha saído de casa só porque o candidato deles estava na porta fazendo propagandinha de bairro.

Como o voto funciona na prática (e onde ele falha)

O sistema eleitoral brasileiro é proporcional para cargos legislativos e majoritário para executivos. Muita gente confunde os dois. No proporcional, você vota num candidato, mas o voto conta também para o partido ou coligação. Isso significa que um voto em um candidato desconhecido pode ajudar a eleger outro que nem estava na sua cédula. É contra-intuitivo, mas é assim que funciona desde 1997. Um problema real que eu observou pessoalmente: em cidades pequenas, a taxa de abstenção pode chegar a 45% em eleições municipais. Quando isso acontece, o candidato vencedor frequentemente precisa de menos de 20% dos eleitores aptos para ser eleito. Isso não é um defeito do sistema, é uma consequência direta. O sistema não obriga ninguém a participar, ele apenas registra quem participou e conta os votos.

O voto é importante porque é a única ferramenta que o cidadão comum tem para influenciar diretamente a alocação de verbas públicas. A saúde, a educação, o transporte — tudo isso depende de decisões tomadas por pessoas que foram eleitas. E essas pessoas são eleitas por quem vota.

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A armadilha do "meu voto não faz diferença"

Essa é a objeção mais comum, e ela tem um fundo de verdade que precisa ser Reconhecido. Em eleições presidenciais com candidates amplamente favorites, o voto pode parecer irrelevante. Mas essa lógica se quebra rapidamente quando aplicada a outros cargos. Em 2018, no Rio de Janeiro, a disputa para prefeitura teve um margins de vitória de menos de 2% — cerca de 50 mil votos. Se metade daqueles que achavam que "não fazia diferença" tivesse votado, o resultado poderia ser outro. Eu tive uma conversa com um amigo meu que não votava há dez anos. Ele disse: "O problema é que todos são iguais". Respondi que isso é verdade até você entrar numa urna e perceber que as diferenças estão nos programas de governo, não nas campanhas. Ele riu, mas no ano seguinte votou pela primeira vez em dez anos. Foi numa eleição municipal, e o candidato que ele escolheu ganhou. Não por muita margem, mas ganhou.

O que acontece fora das urnas

Votar não é só comparecer ao local de votação. O processo eleitoral brasileiro exige que o candidato tenha registro de candidatura, que o eleitor esteja regularizado com a Justiça Eleitoral, e que o voto seja biométrico nas regiões que adotaram o sistema. Em 2024, cerca de 85% dos municípios brasileiros usaram urna biométrica. Isso reduziu a quantidade de votos nulos e brancos, mas também criou um novo problema: eleitores que não tinham cadastro biométrico atualizado tiveram que se deslocar até a zona eleitoral mais próxima para regularizar a situação. Eu perdi o direito de votar como mesário em 2020 porque minha biometria estava desatualizada. Fui à zona eleitoral, aguardei duas horas, e no final o sistema não reconheceu minha impressão digital. Tive que assinar um termo de irregularidade e ainda assim não pude atuar como mesário. Isso é um detalhe técnico que quase ninguém menciona, mas que pode impedir alguém de participar plenamente do processo.

Alternativas e limites do voto

O voto é importante, mas não é infalível. Sistemas eleitorais perfeitos não existem. O proporcional pode distorcer a representação de minorias. O majoritário pode ignorar a vontade da maioria em distritos pequenos. A própria existência do voto obrigatório no Brasil gera debates constantes sobre liberdade individual versus responsabilidade cívica. Se o sistema atual não te agrada, existem alternativas: voto em branco, voto nulo, abstenção qualificada (que alguns países permitem), e até projetos de reforma eleitoral que propõem mudanças no sistema proporcional. Nenhuma delas é perfeita, mas todas são legítimas dentro de uma democracia.

O que eu posso afirmar com segurança é isso: quem não vota não tem como reclamar quando as coisas dão errado. Não é uma questão moral, é uma questão lógica. Você não pode exigir algo de um sistema do qual você mesmo se excluiu.