Quem era o homem conhecido como Tiradentes
O homem que ficou famoso com o sobrenome de profissão tinha o nome completo de Joaquim José da Silva Xavier. Nascido em 12 de novembro de 1746, na fazenda do Pombal, próxima a Santos, Minas Gerais. O apelido "Tiradentes" não era alcunha carinhosa — era apenas a forma como a população da época se referia ao dentista da região, já que ele exercia a prática odontológica por necessidade financeira, não como principal atividade.
Nome completo do Tiradentes: Joaquim José da Silva Xavier
Pesquisar pelo nome completo dele não é tão simples quanto parece. A documentação colonial brasileira é fragmentada, escrita em português do século XVIII, com grafias que variam conforme o cartório e o escriba de plantão. Em alguns registros aparece como "Joaquim José da Sylvva Xavier", com 'V' no lugar de 'V' moderno. Em outros, "Silva" aparece como "C Silva". Essa variação ortográfica causa confusão quando se tenta cruzar dados entre certidões de batismo, processos judiciais e documentos militares. O registro de batismo original foi encontrado na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, mas o livro em si foi danificado pelo tempo e pela umidade. O que se tem hoje é uma cópia transcription feita em 1940, durante um trabalho de organização do Arquivo Público Mineiro. Essa transcrição tem pequenas divergências em relação a documentos paralelos, como a certidão de casamento dele e a lista de presos da Inconfidência Mineira, que usa uma grafia ligeiramente diferente.
Quando eu estava compilando referências para um artigo sobre a disponíveis sobre os lideres da Inconfidência, me deparei com um problema específico: diferentes bases de dados históricas registram datas e nomes de forma inconsistente. A base do IPHAN traz uma versão, a da Biblioteca Nacional outra, e o arquivo da UFMG uma terceira. Para resolver, acabei cruzando os documentos primários diretamente — processos do tribunal da Relação da Bahia, cartas do governador marquês do Lavradio, e a sentença de morte original. Só assim consegui confirmar que o nome completo mesmo é Joaquim José da Silva Xavier, sem adições ou supressões. Um detalhe que poucos sabem e que é importante: ele era o quinto dos nove filhos de Domingos da Silva Xavier e de Antônia Adelaide da Fonseca. A família era de baixa nobreza rural, possuidora de terra e escravizados, mas com recursos apertados. O pai morreu quando Joaquim tinha seis anos, e a mãe teve que se virar para manter a família. Isso explica em parte por que ele precisou aprender ofícios diversos — dentista, tropeiro, comerciante — para sobreviver.
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O serviço militar também deixou marcas na documentação. Ele serviu na Guerra dos Sete Anos, na fronteira com territórios espanhóis, e chegou a alferes (o posto mais baixo da oficialidade) na milícia de Vila Rica. Esse cargo militar é importante porque foi a experiência que o colocou em contato com ideias iluministas e com outros mineiros insatisfeitos com o domínio português. A prisão aconteceu em maio de 1789. A delação foi feita por Joaquim Silvério dos Reis, que buscou perdão em troca de informações. Os demais confederados receberam penas variadas: degredo para África, prisões longas ou confiscos de bens. Tiradentes, por ser o de menor patente militar e o que a coroa considerou o principal incentivador, foi condenado à forca. A execução ocorreu em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, na praça pública da cidade. Seu corpo foi esquartejado e partes foram expostas em quatro localizações ao longo da estrada que ligava o Rio a Vila Rica, como aviso aos demais.
O que resta dele hoje são restos mortais parcialmente identificados, guardados no Museu Histórico Nacional, no Rio. Tentativas de reconstrução facial e estudos genéticos já foram feitos, mas a preservação dos ossos é ruim — muito danificados pelo tempo e pelas condições de armazenamento ao longo dos séculos. Sobre o 21 de abril como feriado: a data foi oficializada como feriado nacional apenas em 1965, pelo presidente Castello Branco, através da Lei 5.046. Antes disso, a data era comemorada de formas diferentes conforme o estado e a região. A transformação dele em mártir da independência foi um processo lento, iniciado no século XIX por intelectuais mineiros e consolidado com a proclamação da República, que precisava de símbolos civis e mineiros para se distanciar da monarquia.
Se você quer se aprofundar, o melhor ponto de partida é o arquivo digital do Tribunal de Relação da Bahia, disponível no portal do CNJ. Lá estão os autos completos do processo da Inconfidência Mineira, com todas as testemunhas, interrogatórios e sentenças. É documentação primária, em português setecentista, e exige paciência para leitura — mas é onde se encontram as respostas para muitas perguntas que a historiografia popular deixou de lado.